quinta-feira, 27 de junho de 2019

O guardião de meu irmão

Alvo contemplou o semblante soturno de seu senhor com um misto de desprezo e respeito. Ambos estavam nus no escuro, como era seu costume, saboreando o silêncio da morte e o cheiro adocicado do vitae do Cainita abatido no último ataque.

Rastrear um Nosferatu no Rio de Janeiro era uma tarefa bastante árdua mas não impossível para mortos de sangue refinado. Belisário, um ancião do clã e casa das sombras, fez do jovem a seus pés um exemplo do que há de cair sobre aqueles que se põe entre um guardião e sua presa.

“Observe” disse Bel. “A carne é escura, mas não completamente decomposta. Ele não deve ter mais de uns poucos anos de morte”.

Alvo segurou os dedos retorcidos do Nosferatu. As unhas sujas e amareladas não lhe foram de grande utilidade quando a noite se levantou e devorou suas pernas. Havia uma morbidez estranha e distante no tom de Belisário. Eles já haviam passado muitas noites em caçada - era seu trabalho, no fim das contas, mas a sobriedade da lição carregava um peso que para Alvo era novidade.

Belisário continuou “As coisas que você ouviu sobre a diretoria são verdade. Após a morte da Regente...É hora de sermos mais cuidadosos com nossos planos”.

Alvo se recordava. Muitos de seus contatos estavam silenciosos. Uns outros tantos haviam sido destruídos. Haviam boatos sobre vários Lasombra se unindo a Camarilla, o que soava como algo bastante estúpido.

“Eu recebi uma carta de nossos amigos” Bel continuou, referindo-se aos amigos da noite, o corpo governante do clã. “Para cada um de nós que se unir a Camarilla, um ancião do clã deve ser sacrificado.”

Então era verdade. Alvo sentiu um leve tremor em suas entranhas. Um formigamento de antecipação que em uma noite normal lhe causaria repulsa. Ele arrancou um dos dedos ossudos do Nosferatu e o esmagou no punho. Por um instante, pensou em gritar, rugir, deixar com que a besta o levasse para longe deste momento. O Ducti levantou os olhos e contemplou a noite sem estrelas antes de perguntar “Porquê?”

Belisario moveu-se lentamente para trás de Alvo e segurou seus ombros gentilmente. A carne era fria e incolor. “Cardeal Polônia levou a maior parte de nossas forças para o oriente. A guerra vai continuar a ser travada por lá até o sol apagar e a noite consumir tudo que existe”. Não havia teatralidade em sua voz. Era um lamento e uma maldição.

O ancião continuou “o sabá como você conhece existe por que os Lasombra inventaram a revolução. Quando eu tinha sua idade eu e meus irmãos matamos nossos senhores e nos libertamos de sua complacência e tirania. Nos banhamos em sangue antigo e por isso sobrevivemos as chamas da primeira inquisição. A guerra contra nossos avós é o motivo pelo qual existimos. Agora, a guerra tem um novo patamar. Eu sou o ancião que deve ser destruído para que nosso clã sobreviva.”

Muito do treinamento de Alvo fez sentido naquele momento. Quando ele foi arrancado de sua vida, de sua esposa, de seus filhos. Quando Belisário o feriu e o humilhou. Cada castigo e sermão foi parte de uma conspiração. O ódio aos senhores era a força motriz do clã - a cobiça, a inveja, a busca pela excelência onde quer que ela estivesse - eram ferramentas para preparar as crias da noite para o momento em que o sabá falhasse e uma nova geração de magistrados carregasse o cetro e manto de reis da noite.

Ainda era difícil de acreditar. Alvo passou umas tantas décadas levando fogo e treva para os elísios da Camarilla. Ele era o Ductus de um bando de guerra, um soldado sacramentado e abençoado pela taça da Vaulderie e pelos ritos de Caim. Ele pesou suas palavras demoradamente antes de continuar. “Eu não tenho nenhuma intenção de me unir a Camarilla, meu senhor.”

“Então eu falhei com você.“ Belisário deitou-se no chão e pequenas membranas de treva começaram a circulá-lo e a lamber sua carne. “Não vai ser simples, meu querido soldado. Você e seus irmãos vão tolerar toda sorte de humilhação e demérito pelas próximas décadas. É necessário. Quando sua base de poder for estabelecida, será hora de tomar o controle dos recursos da torre de marfim. Não estamos nos rendendo, não estamos abandonando nossa guerra - estamos usando das ferramentas que temos da melhor maneira que podemos. A inquisição é um inimigo mais poderoso do que a Camarilla jamais foi.”

Havia verdade nas palavras do velho Lasombra. Muitos refúgios comunais foram incinerados nos últimos meses e bandos inteiros foram aniquilados por meio de ataques surpresa ao meio dia. Alvo sentou-se sobre o que restava do Nosferatu abatido e pressionou sua mão esquerda contra a testa. “Quantos do clã vão se unir a torre?”

“Poucos, a princípio. O preço é alto e é necessário escolher os sacrifícios com cuidado. Os mais ambiciosos e competentes Ancillae serão os primeiros a serem chamados. A cidade do México irá cair, Montreal logo em sequência e por fim nossas bases aqui, na América do Sul. Sem o punho firme dos amigos da noite o sabá estará desorganizado demais para se defender. Os anciões que morrerem em nossa manobra vão deixar um vácuo de poder que vai canibalizar o que restar de nossa cruzada. Será nossa última e gloriosa guerra civil, e é uma pena que não estarei aqui para influenciá-la.”

“De fato, uma pena.” Respondeu Alvo. O vínculo com o senhor lhe martelava a alma neste momento. Ele queria matá-lo, não pelo clã, pelos amigos da noite ou pelo caralho que fosse - ele queria matá-lo porque este jogo estúpido era uma afronta e uma aberração a tudo aquilo que o sabá significava.

“Somos um clã de trevas profundas” Disse Belisário. “Espero que encontre descanso nisso, minha cria. Existem forças agindo na noite que fazem com que aqueles tão velhos quanto eu sejam uma ameaça maior ao sabá do que qualquer pequena ou grande traição que possamos maquinar”.

Alvo sentiu que havia terrível e monstruoso nas palavras de seu senhor. O ancião carregava um olhar vazio, distante, e sua voz estava muito mais adocicada e afável do que de costume. Belisário era um arcebispo. Uma criatura vil e repulsiva que em noites de ritae se banhava no sangue de dezenas e recitava as litanias de Caim com paixão e devoção insanas. Não cabia a alguém de tamanha potência de sangue se deixar levar por sentimentalismos e filosofias baratas.

“Mestre, peço que o senhor me conte o que lhe aflige. Minha paciência para esse jogo encontra-se em seu fim.”

Belisário suspirou e fechou os olhos. Quando os abriu, eles eram órbitas negras. Fumaça escura saiu de sua boca e narinas e um grunhido seco revelou suas presas afiadas e sedentas.

“Tudo que existe é nossa guerra, Alvo. Tudo que importa é que sejamos vitoriosos. E se eu lhe dissesse que estamos perdendo? Que desde sempre estávamos cientes de que não seríamos vitoriosos? Que as centenas que condenamos à morte e a morte final sofreram por que quisemos fazê-las sofrer, e não por um propósito maior? Eu menti para você conforme foi necessário durante o tempo que passamos juntos. Não vou mentir agora. A história que te ensinei, sobre como eu e meus irmãos matamos nosso pai - ela não é inteiramente autêntica."

A noite ficou ainda mais silenciosa. Alvo absorveu o peso das palavras, questionando se seu senhor estava a jogá-lo em mais um exercício cruel destinado a fortalecê-lo. Era pouco provável. A história da morte do antediluviano Lasombra era recitada a todos os membros do clã até que fosse amarrada a sua mente. O cerca ao castelo, a morte do opressor, a quebra de grilhões. Ela era contada na Palla Grande anualmente em meio a sacrifícios e fogueiras. A memória dos que pereceram na batalha era venerada e o clã se sentia mais forte sabendo que sua transgressão fratricida foi o que possibilitou que o sabá existisse.

“A cruzada no oriente médio” Continuou Belisário “ela confirmou o que muitos suspeitavam. Nossos bandos estão diablerizando anciões às dúzias em busca da morte de nossos ancestrais genocidas. E eles estão nos chamando. Estão chamando aqueles de sangue forte o suficiente para ouví-los. Não sabemos quais os desígnios do pai tenebroso, mas sabemos que é ele. Anciões de outros clãs também ouvem seus avós os convocando para protegê-los das Espadas de Caim. Se ele não morreu durante a revolta, é por que era impossível matá-lo. Eu não quero acreditar nisso, mas mesmo agora, ouço seu chamado. Prefiro que você me mate aqui e garanta com isso uma chance de reinar na Camarilla do que atender ao chamado do pai e lutar contra o Sabá. Não estou lhe oferecendo uma escolha, meu querido assassino. Eu vou morrer para que meu clã possa ter uma chance de lutar em uma noite vindoura.”

Alvo sentiu a besta gritando em seu peito. Ódio, puro e bruto, era algo que os Lasombra desprezavam. Controle e domínio sobre a besta eram preferíveis sempre. O Ductus levantou-se e caminhou em círculos em volta de seu senhor. A velocidade dos passos era infrequente e um turbilhão de pensamentos o impedia de tomar uma decisão. Ele se sentia fraco e enganado e sua fúria o fazia ganir e solfejar como um animal acuado. Ele era Lasombra. Era o guardião de seus irmãos. Era a espada de Caim na grande cruzada. Alvo espremeu os olhos com as pontas dos dedos, respirou profundamente e gritou antes de continuar a caminhar em volta de seu senhor.

“Se lhe serve de algum consolo, meu querido Alvo, de todas as minhas crias, você foi a única que eu sempre considerei digna de levar adiante minha linhagem. Não carrego de você mágoa nenhuma”.
A súplica de Belisário caiu sobre ouvidos surdos. Era claro para Alvo que ele as havia ensaiado muitas vezes antes de proferí-las.

O Ductus chamou a noite e fez de seus punhos tesouras tenebrosas. Ele saltou sobre seu senhor e enfiou-as em seus olhos. Rugindo freneticamente pressionou as membranas do mundo morto contra a carne cinzenta e antiga de seu senhor. Ele queria gritar, queria argumentar, queria pedir desculpas, mas foi incapaz de se controlar.

A besta exigiu o seu quinhão e tudo que existia para alvo era o sangue ancião de seu pai-em-morte. Ele bebeu profundamente, parando pouco antes do fim. O Ductus não derramou nenhuma lágrima enquanto o corpo antigo abaixo de si se desvanecia em cinzas e podridão. Alvo estava irritado, sedento e desejando vingança.

Pro inferno com a Camarilla, com a inquisição, com os amigos da noite e com toda essa bosta. Os antediluvianos estavam chamando seus filhos para defendê-los na grande cruzada e Alvo não tinha a intenção de abandonar sua guerra sem antes dar tudo de si.

Pertencer a Espada de Caim é estar em guerra. Contra os velhos, até o fim do mundo, sem nunca se comprometer, nunca recuar, nunca negociar com aqueles que seguram a mordaça e a corrente. Belisário duvidou da causa e morreu um covarde. Alvo não cometeria o mesmo erro.

quarta-feira, 27 de março de 2019

Sofia & Jazmín


A mata era fechada, fria e cheia de remorso. Era madrugada e a lua sufocava em meio a nuvens negras e famintas.

Duas mortas avançavam por uma trilha errante em direção ao templo. Estavam cansadas e tinham sede. A primeira hávia perdido parte dos lábios no último combate. O corte ia da base do queixo até a orelha. Três foram as garras que a mãe-terra usou para sua vingança, três os talhos no rosto de Sofia.

“Se Patrick estiver errado, e a coisa não estiver aqui, vamos precisar de um novo sacerdote”, disse a vampira, usando um pedaço da manga arruinada da jaqueta de couro para limpar a ferida. Sua companheira, intocada pelas garras de Gaia por conta de sua feitiçaria, limitou-se a sorrir.

Elas caminharam até os primeiros raios de sol despontarem. Traçaram as linhas de proteção e chamaram os nomes que seu sacerdote havia lhes ensinado. O poder se manifestou e a terra lhes acolheu, protegendo-as do abraço de Apolo e da morte-em-dia.

Na noite seguinte elas caçaram. Encontraram uns poucos nativos e uns tantos mosquitos. Algo não as desejava lá, algo antigo e poderoso. Seguiram pela margem de um rio sem nome e sacrificaram uns tantos pescadores - suficiente para os rituais de cura e para os ofícios sacros, mas não para o que lhes mostraria o caminho correto.

Na quarta noite, Sofia sentiu cheiro de fé. Jazmín, a feiticeira, fez-se sombra e desvaneceu. Sua mágica fez com que ela fosse uma espiã eficiente. Ela desenhou com gravetos secos e sangue obtido em holocausto os nomes de Dagon e de seus súditos em volta do templo. Nada abandonaria o altar sem que ela soubesse.

Sofia, Ductus do bando, líder sacramentada e caçadora veterana, usou do poder de sua herança em morte para enxergar além da realidade imediata. O que ela viu garantiu a segurança do sacerdote do bando.

O templo era um círculo de rochas perfeitamente redondas. No centro deste, uma única efígie construída com barro e folhas secas. ‘Aqui moram as bruxas’, pensou a Gangrel. Aqui mora a chave do ritual.


*********

Jasmín estava confusa e frustrada. Ela leu as histórias das bruxas Catarinenses, e o que encontraram não se parecia nada com o material de referência.

Ela esperava uma das potestades mortas de panteões esquecidos, um metamorfo de uma linhagem ancestral, talvez até alguém das cortes do outro lado. O que encontraram foi, de fato, um morto.

Quando a meia-noite rugiu e o altar reagiu com a mágica inerente do local, a efígie se retorceu em diversos ângulos até partir. A terra se abriu e o ritual de contenção da Lasombra surtiu efeito imediatamente - Quando o vampiro enterrado levantou-se da sagrada sepultura, só teve tempo de mostrar as presas antes de ser imobilizado pelas membranas negras do mundo morto.

Ele era antigo e tinha cheiro de sal. Não possuía roupas, cabelos ou olhos. Suas mãos estavam amarradas com contas de oração e trazia no pescoço um colar de ferro negro. Suas presas eram seus únicos dentes, enormes e amarelos e as órbitas vazias em sua face pareciam perfeitamente conscientes do ambiente que o cercava.

Sofia aproximou-se cuidadosamente. Apanhou um punhado de terra do chão e o cheirou. Sussurrou um encantamento que fez com que seus olhos se focassem em outro tempo e lugar, após isso, lambeu a terra, saboreando-a lentamente. Jazmín fez-se em um corpo de trevas e deslizou pelo chão até estar ao lado de sua líder.

“ Ele é velho. Acho que não sabe mais quem é. O que acha?” Disse Sofia.

Jazmín fez-se corpórea novamente. O vampiro possuía símbolos estranhos e antigos no peito.

“ Acho que ele não parece ser uma bruxa e que precisamos de sangue de bruxa.”

O vampiro sorriu. Ele não estava lutando contra os tentáculos que o seguravam, seu único movimento era dos pulsos que pareciam feridos pelo rosário. Eles tremiam incessantemente.

“Tolas, tolas é o que são” Ele disse. A voz era grave e rouca. Carregava um sotaque pesado e antigo que pertencia a outra época e lugar.

A Gangrel cuspiu a terra da boca e sacou uma estaca de madeira compacta do cinto. “Quanto tempo sua magia vai mantê-lo preso, Lasombra?”

Jazmín acariciou seus olhos com a mão esquerda por um instante. Quando os abriu, eles eram negros como piche e transbordavam por seu rosto.

“O suficiente”.

*********

A Lasombra usou de sua adaga ritual com destreza e graciosidade. Traçou no pescoço do velho morto um símbolo de contenção e alimentou o feitiço com uma gota de seu sangue escuro.

O vampiro sibilou e exibiu sua língua bifurcada voluptuosamente. O vitae lhe chamava e a besta que o habitava rugia. Sofia estava de prontidão, com a estaca em punho. A noite era fria e tinha cheiro de sal.

“Estamos em segurança,, irmã. Minha magia é forte e esse cainita tem fome demais para se opor a ela”. Disse Jazmín. O morto levantou uma sobrancelha, sutil demais para que elas percebessem.

“A língua bifurcada me leva a crer que ele foi punido por mortais, mas a falta de olhos me diz que seu capataz sabia o que estava fazendo” Respondeu Sofia.

“O rosário nos pulsos possui um poder que não compreendo. Quem fez o ritual possuía os dons, mas não orava na mesma direção que nós.” Jazmín tocou o rosário com as pontas dos dedos e, um instante depois, foi arremessada por vários metros e se chocou com uma árvore. O velho morto sorriu.

“Vocês não são de minha carne, não são versadas neste mistério. Meu sangue é o sangue dos senhores dos Cárpatos e essa terra pertence a sagrada espada de Caim.”

Sofia segurou Jazmín enquanto ela se levantava. Algumas costelas haviam cedido, mas nada que não pudesse ser consertado.

A Gangrel chiou e seus olhos brilharam em um amarelo febril. “Se ele é o que diz ser, Diana vai querer que ele morra. De qualquer maneira, acho que deveríamos nos livrar dele.”

O velho grunhiu “Uma de vocês é guardiã, vocês são do Sabá. Vocês devem me prestar referência.”

Jazmín puxou a estaca das mãos de Sofia. “Seu sabá morreu por causa de déspotas como o ‘senhor’. Seus herdeiros apodrecem em uma guerra em outras terras por que a realeza morta de Caim insistiu em títulos e honrarias ao invés de nossa guerra. Não lhe devemos referência, lhe devemos nojo.”

A estaca parte a carne com a leveza de um beijo. Era encantada e sacramentada para ritos de caça. O velho morto tenta vociferar uma última maldição mas seus lábios inchados tornam-se inertes e incapazes de moldar o ar. Jazmín morde a própria língua e cospe sangue sobre a ferida, que imediatamente começa a queimar. A Lasombra usa o poder do vitae e ordena que as costelas partidas se costurem. Ela estava cançada e irritada.

Sofia segurou o morto pelas pernas e começa a arrastá-lo pelo mato. Jazmín a segue sem questionar. Após várias horas pela mata voltaram a cabana de pescadores em que cearam anteriormente. Um policial estava investigando a chacina, atônito. Foi assassinado e devorado. Com o novo carro, continuaram por trilhas incertas em meio a floresta, carregando o troféu de sua caçada no porta-malas. As noites eram incertas, inquietas. As duas sabiam que estavam sendo observadas, mas não conseguiam descobrir quem era o perseguidor.

Na noite seguinte, trocaram o carro de polícia por uma ambulância. Os socorristas que tentavam ressuscitar uma idosa infartada não foram uma ceia particularmente agradável, mas foram o suficiente. Estavam se aproximando de Florianópolis agora, prontas para encontrar seu sacerdote e sua guerreira e obter as respostas necessárias do cadáver ancestral que dividia a maca com uma senhora sem vida.

Sofia havia roubado o telefone do antigo motorista da ambulância, e usou-o para chamar Diana, sua amada e querida Tzimisce, assim que ele obteve sinal.

“Diana, meu bem, temo que nosso passeio não tenha ocorrido como o planejado.”

“É uma pena, meu amor. Patrick está tão irritado com esse lugar, vai me deixar maluca. Nada de bruxa então?”

Diana tinha uma voz doce, frágil e quase teatral. Nada nela revelava que ela era uma açougueira monstruosa e a capataz de uma dúzia de imortais. A Tzimisce possuía uma crueldade alienígena que rivalizava com a dos anciões do clã dos demônios.

“Encontramos um parente seu. Um bem antigo. Esta empacotado na carroceria.”

Houve uma leve pausa, seguida por uma risada deliciosa e exagerada.

“De todos os buracos do firmamento, ele foi se esconder aqui? Pois o traga, tenho certeza de que ele vai adorar dançar sobre o luar conosco, com nosso novo sabá.”

“Ahn...Certamente. Tiveram sorte com o Toreador?”

“Tenho certeza de que a boca dele está aqui em algum lugar, mas ele não parece muito disposto a conversar.”

Sofia desligou.O Tzimisce captivo certamente não adoraria os ritos que Diana tinha em mente. Patrick certamente faria com que ele se tornasse a mais bela boneca de vodu nas américas e com alguma sorte Jazmín não teria uma visão profética exigindo o sacrifício do ancião.

Independente do resultado, ele estava condenado. O rito precisa continuar e o velho patrono precisa ser encontrado. O Sabá morreu para renascer, e o antigo rimador guiaria a espada de Caim na guerra que está por vir.



Patrick & Diana

O casal de mortos dirigia lentamente pela ponte Pedro Ivo Campos. Mesmo a meia noite, o tráfego era lento. A Hercílio Luz brilhava em vermelho e púrpura, e sobre ela, a luz cheia pairava, indiferente ao sofrimento do mundo.

“Bela Lugosi's dead, unded, undead, undead”, disse o rádio. “Grande merda”, respondeu o vampiro.

Sua companheira, Diana, sorriu, exibindo as presas molhadas e vermelhas. No banco de trás, 2 exsanguinados dormiam o sonho dos perdidos.

“Esse lugar me deixa com um gosto estranho na boca. Cinzas e alumínio. Como se o fim do mundo estivesse atrasado e os cavaleiros do apocalipse estivessem reclamando dessa porcaria de trânsito”, disse o sacerdote. Patrick vestia uma jaqueta cinza recém-roubada e jeans rasgados que já viram dias melhores. Ele dirigia com ambas as mãos no volante e estava cansado. A viagem não tinha sido ideia dele.

“Meu amor, estamos de férias. Vamos aproveitar um pouco. Nem é tão ruim assim. Olhe lá, que ponte lindinha. Você não se sente enfeitiçado por ela?” Diana gargalhou. Ela lambeu o sangue que ainda lhe escorria dos dedos como se fosse uma gata e limpou as sobras na longa saia arrastão. Reclinou-se sobre o banco e esticou os braços tanto quanto pode antes de continuar “Logo as meninas vão chegar. Vamos nos divertir horrores. E vamos fazer seu ritual. E vamos adotar crianças e fazer essas coisas todas sorrindo e dançando, por que é isso que férias significam.”

Patrick grunhiu ao contemplar a ponte. Ele não sentia nada. Ele já não sentia nada há muito tempo. O ritual iria acontecer, cedo ou tarde, e isso o irritava. Esse não era o local correto. Diana sabia, mas não se importava. Não existem férias para o Sabá. Não existe nada que não seja a guerra.

Os vampiros permaneceram em silêncio enquanto atravessaram a ponte. Com alguma dificuldade, encontraram uma vaga de estacionamento. Abandonaram o carro e os corpos como presente para quaisquer que fossem os vampiros locais e saíram para a noite.

Não foi difícil encontrar o primeiro componente para o ritual. Guilherme Fritz, Toreador, idiota. Diana havia convencido-o de que eram anarquistas a procura de um novo lar, e que seriam muito gratos por quem quer que os apresentasse a baronesa local. Fritz insistiu que deveriam se encontrar em uma boate LGBTQ, mas desistiu quando Diana alegou ser uma Nosferatu.

Ela não era, é claro. Ela era algo muito pior. Mas o jovem Guilherme não existiria por tempo suficiente para reconhecer seu erro.

O encontro foi marcado para um heliporto no meio da avenida Beira Mar Norte. No caminho, Diana esculpiu seus braços disfarçadamente. Os ossos estalaram levemente quando romperam a pele e a Tzimisce suspirou com as veias estendidas.

O combate foi rápido e brutal. Quando o avistaram, o Toreador acenou e Patrick saltou sobre ele com o punho em riste, rápido demais para que ele pudesse reagir. A força do golpe o fez cair com as costas no chão, e um instante depois, uma estava óssea o perfurou e fez seu rosto ser congelado para sempre no grito doloroso do torpor.

O sacerdote brandiu o Atame, sua adaga de condução de ritos, e a enfiou na boca do vampiro abatido. Ele rasgou a gengiva e com a mão livre arrancou as duas presas. Sangue preto verteu da ferida e o jovem vampiro nada pode fazer para impedir o que se seguiu.

“Pra que lado é o oeste?” Disse Patrick, limpando o sangue da lâmina nas calças.

Diana fechou os olhos e apontou para o mar. “É pra lá, meu amor”.

Patrick ajoelhou-se, abriu o braço esquerdo com os dentes e derramou vitae sobre o concreto do chão. Com a poça que se formou, desenhou os nomes de Deuses mortos e abortados. Chamou-os um a um e eles foram testemunha do início do ritual.



***

Em outro noite, em outro lugar.

Patrick estava nu, exceto pelo colar feito de Guilherme. Sua companheira havia usado o estômago como cordão, e ossos dos dedos torcidos em runas e glifos de proteção.

O Toreador não estava muito contente com a situação. Pedaços dele adornavam vários cantos do altar. Suas pernas e braços não mais lhe pertenciam e a estaca de madeira de lei em seu peito lhe queimava a alma.

Diana, vestindo as sobras de seu jantar, agora era horror-feito-morte. Ela possuía longos chifres curvos e asas de couro preto. Quitina cobria sua forma horrenda e ela era parte inseto e parte Deus.
Seus braços eram terminados em bocas cheias de dentes e entre seus seios, as marcas talhadas pelo Atame do sacerdote pulsavam em um amarelo ocre e pegajoso. Seus quatro olhos eram imensos, focados, cinzentos e mortos, e seus joelhos dobravam-se como se ela estivesse preparada para voar.

Patrick orava com as mãos dispostas sobre a oferenda. Seus olhos eram órbitas negras e sua voz já não mais lhe pertencia. Seu cântico era o de línguas mortas, de potestades ausentes e de cinza e alumínio e o fim do mundo. Ele era um receptáculo e um canalizador. E ele olhava para o oeste.

sexta-feira, 15 de março de 2019

V5 - Dante & Ingrid



O Nosferatu curvou-se diante do notebook, lambendo os beiços teatralmente, deixando a mostra os dentes tortos e amarelos. A tela exibia vários terminais diferentes, cada um uma serpente, um predador a espera do momento oportuno para o bote.


Dante aguardou pacientemente o retorno de seus pequenos espiões digitais, e quando a resposta chegou, enviou uma mensagem para sua assistente.


“Game on”


Ele disparou a rotina de monitoramento e ouviu um telefone tocar três vezes antes de ser atendido. A voz adocicada de Ariel iniciou o ataque.


“Boa noite, me chamo Vivian e ligo em nome da operadora Oi. Gostaria de falar com-” (interrompida)


“Eu não quero comprar nada.” Disse uma mulher rouca e insatisfeita por ter sido incomodada.


“Não estou vendendo nada senhora. Você por acaso se chama Eva? Devido a uma mudança de planos sua fatura vai ficar mais barata. Só preciso confirmar uns dados com a proprietária.”


“Ok, sou eu.”


Game over, pensou Dante. Era início da noite e o ancião se sentia extremamente sonolento e vazio. As letras brancas no display se misturavam quando sua mente vagava por mais que um instante. Alguma coisa estava mudando, alguém o estava chamando. Alguém perigoso.
“Eu preciso que a senhora clique no ícone que apareceu na área de trabalho duas vezes. Na nova tela ele vai pedir pra que você digite a senha de seu roteador, que está num adesivo embaixo do aparelho”


A garota era jovem, mas levava jeito pra coisa. Jovens aprendem rápido demais.


Um dos terminais do notebook saltou para a frente da tela com as credenciais de acesso gentilmente cedidas pela senhora Eva. O veneno surtia efeito e os logs do sistema-vítima eram rapidamente clonados.


“Muito obrigado e tenha uma boa noite. Peço que a senhora aguarde um instante para avaliar a chamada. No próximo mês sua fatura já virá com o desconto.”


Fim da chamada. Fim da resistência. Dante digita sem dificuldade os parâmetros do ataque final.


msf> ../ msfvenom logRetriever.py -Ss -Sn 0 Eva0 Eth0 pbloom.ssh


O instante antes da confirmação do sucesso carrega em si todo o peso do mundo. A ansiedade salta e os pulmões podres buscam inutilmente por ar. Vazio e medo fagulham até o surto de adrenalina correr pelas veias.  O Nosferatu batuca a mesa com as pontas dos dedos e, quanto o resultado aparece na tela, o segundo de êxtase que o toma quase faz com que ele esqueça que está completa e verdadeiramente morto.


“Pegamos o filho da puta” diz a mensagem de sua aprendiz. Ela já está lançando a próxima etapa do ataque, referenciando os registros do cartão de crédito da mãe do dono de um dos maiores sites de revenge porn do Brasil com os dados usados para alugar os servidores de hospedagem na Croácia.


Dante se reclina sobre a cadeira e imagina os nós na rede que levam o computador de uma secretária aposentada até os confins mais sórdidos da pornografia amadora. Eva certamente não sabe de nada, mas isso não importa. Com os dados em sua tela, ele dispara o programa que gera os relatórios e os envia para para a polícia federal por meio de um conjunto de camadas que passa por 17 países cujas legislações são tão radicalmente diferentes que tentar rastreá-lo levaria anos, na melhor das hipóteses.


Sua cliente estaria satisfeita e lhe devia um favor. Uma semana de pesquisa, uma ligação, uma guerra contra oponentes desarmados. Sempre existe um elo frágil, e em noventa e nove por cento dos casos, esse elo frágil usa Windows desatualizado.


“Vou ir tomar um lanche. Avisa se quiser que eu traga alguém da rua”. Diz a última mensagem de Ariel. Uma moça de classe, certamente.


Ele não responde. Ainda haviam muitos negócios a serem tratados essa noite. Três mensagens. A velha bruxa dizia alguma coisa sobre o fim do mundo e cristais de Feng Shui. A Baronesa queria uma reunião urgentemente para discutir planos para uma guerra que está para acontecer desde que algum português bêbado aportou em Vera Cruz. Ingrid simplesmente disse ‘me chame‘.


Ingrid era a prioridade, sempre. Ele ligou para o chefe de segurança e pediu para que ele deixasse a visitante subir. Dante gostava de charadas e Ingrid era uma bastante difícil de decifrar. Desligou o notebook e a tela, agora escura, refletia sua face distorcida.


O Nosferatu roçou sua bochecha quitinosa com as unhas. A pele era seca e frágil, e mesmo um leve toque fazia com que pús e fedor o permeassem.  Seu nariz era comprido, torto, quebrado umas tantas vezes em vida e outras tantas em morte, e seus olhos amarelos e diminutos o denunciavam como um eterno predador.


A porta do escritório se abriu, e a voz baixa e arrastada da visitante se fez presente “Saudações, rei rato. Trago-lhe oferendas.”


Ingrid era jovem, ousada e petulante. Vestia um casaco rosa roubado e jeans. O cabelo claro era ocultado pelo capuz e o pescoço pelo cachecol. Não fazia frio. Ela tirou as mãos dos bolsos e fez uma referência lenta e teatral, ainda curvada, levantou o rosto e sorriu. “O senhor fede como a peste. Em minha próxima visita, minha oferenda será de detergente”.


“Ingrid, querida” disse Dante, pausando em cada sílaba e medindo a reação da Malkaviana. “Ainda não tive oportunidade de lhe agradecer por nossa última conversa. Permita-me não destruí-la como forma de pagamento.”


Ele sorriu. Ela não.


“É muita gentileza de sua parte, meu bom senhor. No entanto, para a conversa desta noite será necessário um pagamento mais...tangível”.


“Isso irá depender do que você me oferecer, que-ri-da”.


Ingrid sentou-se no chão em uma meia-lótus. Fitou o vazio por um longo instante e sussurrou. “O senhor conhece o sabá?”


Dante, surpreso, levantou algo que em algum momento foi uma sobrancelha. “Mais do que gostaria. Porquê?”


Ingrid, aparentemente surpresa, respondeu “Não importa. Eles foram embora. O senhor lembra da estrela dos pesadelos?”


“A semana dos pesadelos?”


“Não. A estrela vermelha dos pesadelos. Não aquela dos comunistas. Aquela dos indianos”


“Sim. Eu me recordo.”

“Eu sonhei com ela. Lá naquele país dos terroristas. Ela está brilhando lá e o Sabá está indo matar ela, mas os velhos não querem por que eles são comunistas e tem medo dos pesadelos.”


Dante suspirou e mais uma vez agradeceu por ter instalado um sistema de microfones escondidos na sala. Ele precisaria ouvir essa conversa mais algumas vezes no futuro. A memória da semana dos pesadelos ainda lhe era pesarosa. Ele passou várias noites cuidando de seu amigo Abraham e procurando uma maneira de fazer o sangramento e os gritos cessarem. Ele falhou e Abraham se esvaiu. Ingrid continuou:


“Ai eu falei com a bruxa e ela disse que isso era porque pro diabo se reza olhando pro oeste, o que faz sentido, se você for pensar bem. Ela não reza pro diabo por que ela é bruxa e as bruxas só rezam pra terra. Você tem rezado pro diabo, senhor-Rei-roedor?”


O Nosferatu sorriu. Francisca, a bruxa Malkaviana que deve ser a vampira mais velha dessas terras, não sente o chamado. Ou talvez sinta e não perceba.


“Eu não sou comunista.” Respondeu Dante.


“Ah. E também” disse  Ingrid “tinha um primo seu vindo buscar quem não fosse pra lá. Acho que chama Tuco. Nick Tuco.”


Dante, movendo-se rápido demais para que olhos jovens pudessem observá-lo, girou a chave de segurança embaixo da mesa e digitou a senha de doze dígitos. Grades pesadas caem sobre as janela de ambos os lados, bem como sobre a porta, e  um notebook começou a bipar insistentemente sobre a mesa próxima. Dante saltou para a cadeira próxima e inseriu a senha de desbloqueio da máquina. Ingrid protestava pela falta de atenção, mas o Nosferatu encontrava-se em outra realidade.


ShrekNET já não mais existia, mas a mão armada do clã ainda espreitava cantos obscuros da rede. Dante lançou hideByMe, o programa que é responsável por checar as entradas e saídas dos terminais de seus aliados. Um a um, todos retornaram resultados positivos. O vampiro suspirou aliviado. As máquinas dessa rede precisam ser reativadas com uma senha cuja cifra só o clã conhece, caso alguma falhe, toda a rede é notificada. Seus aliados estavam (presumivelmente) seguros, pelo menos por enquanto.


Ingrid continuava “E aí eu disse pro guri que malkaviano não era bagunça e enfiei a cara dele no asfalto. Ei, posso ir embora?”


Dante retornou a sua mesa principal e inseriu o código de liberação da porta principal.


“Obrigado querida. Você me deu muito no que pensar. Por gentileza, diga a senhora Francisca que preciso conversar com ela. Sobre o fim do mundo e essas coisas.”

“Ah, digo sim, ela vai ficar bem feliz. Fim do mundo tem sido o assunto favorito dela nessa semana. Boa noite senhor Dante, é sempre um prazer fazer negócios com o senhor.”


Ela acena levemente e sai. Dante aciona as grades de proteção da porta novamente. Com o telefone em mãos, cancela todos os outros compromissos da noite e envia uma mensagem a Ariel.


“Tenho um novo alvo. Base64. As instruções vão estar lá quando você chegar. Não volte pra cá até que eu diga que é seguro.”  

A Malkaviana responde em poucos momentos “OMW”. On my way. O Nosferatu, só e preocupado, ativa o hideByMe uma vez mais.

sexta-feira, 3 de novembro de 2017


A Saga de Oslo

Saudações do Lasombra aposentado que não sabe dar nome pra textos.
Essa história existe por que o Youtube me levou pra uma música do Raul Seixas que me fez pensar em um Malkaviano Chinês que por acaso era um sábio e que por acaso era uma borboleta. 
Ela existe também por que eu estava entediado e por que queria ver se ainda conseguia escrever alguma coisa - e como tudo na vida é drama, a história também envolve um Salubri gay, um amor perdido, uma cidade em chamas e essas coisas. 

     ...


Era julho de 83 e Oslo queimava.

Sete bandos - as águias do sangue, a fúria escarlate, o martelo de Kiev, as valquírias de Satan, os fogo-fátuos, a hoste sanguinolenta e é claro, meu próprio bando de guerra, o abraço de Caim, haviam ancorado neste país estrangeiro quinze dias atrás. Por intermédio das maquinações e espionagem das valquírias, havíamos interceptado comunicações e identificado alvos.

Eu liderava a operação, e como tal, fiz com que a capela tremere fosse violada e destruída até que a ultima gota do sangue dos usurpadores fosse drenada. Havia sido, é claro, uma batalha custosa.
A hoste sanguinolenta, formada principalmente pela juventude de São Petersburgo, havia sido aniquilada pelo bispo (ou algo equivalente) Brujah. Doze soldados reduzidos a farrapos e tripas em um piscar de olhos antes que meu sacerdote, Liang, pudesse chamar a noite e o terror dos desmortos e controlar a fúria do cainita.

Ele morreu gritando, como era de se esperar. Quando os braços do abismo partiram seu corpo débil, e seu sangue ancião jorrou, nós celebramos. A chuva de vitae renovou o vigor de meus soldados, e quando chutamos a porta do salão de guerra (ou algo equivalente), usamos a força do sangue e a força da carne para esculpir uma obra grandiosa com os Toreador que se recusaram a abandonar a cidade. As águias de sangue são, de fato, os melhores artesões da terra mãe. A carne dos condenados provou-se macia e açucarada, e fizemos deles um altar e um presente a nossa biscopisa, sagrada e idolatrada senhora Verminal.

Que seu doce nome leve terror a todas as almas, que sua forma profana seja a última visão de todos os condenados.

Agora, lambíamos nossas feridas e contávamos os cadáveres. Eu sabia que Yosef, meu amante e confidente, havia caído - eu senti meu coração torcer e gritar com seu último suspiro, e eu o odiava e amava ainda mais por ter finalmente ido pra longe de mim.

O sacerdote de meu bando, um malkaviano tão sábio e doente quanto só eles sabem ser, estava removendo com uma faca os ossos das mãos dos carniçais abatidos no ultimo embuste. Ele ria nervosamente, e a pintura de guerra em sua face havia sido arruinada pelo sangue e as tripas da trupe débil que ousou se opor a legítiva fúria de Caim. Ao redor dele, outros sacerdotes de bandos menores meditavam em círculo. Liang era da lua, mas seu domínio sobre a forma da noite o tornava objeto de adoração entre os místicos do clã e casa das sombras - Ele pertencia a noite e o abismo a ele sussurava.

Kammus, meu batedor, retorna. Ele traja um terno arruinado e sua face está tão arruinada quanto de costume. Seus poucos fios de cabelo remanescentes haviam sido queimados até a raiz, e sua face era uma mescla de puz e feridas fétidas e cartilaginosas. Suas mãos terminavam em garras rubras e uma estaca de aço atravessava seu peito. Ele pigarreou antes de reunir forças para falar.

"Meu Ductus, as forças de defesa da cidade dirigiram-se ao porto conforme planejado, e a fúria escarlate detonou os explosivos nos barcos demarcados. Um dos ratos sobreviveu a explosão, mas fomos capazes de subjulgálos. Sinto informar que Yosef caíu no combate. Ele agarrou o Nosferatu e ordenou que atirássemos, pois era o único capaz de ver além da ofuscação do verme. Sinto muito, meu Ductus, mas não cabia a nós questionarmos as ordens de nosso irmão."

Suspiro. Yosef caiu como viveu, em paz somente em guerra, lutando e sangrando por Caim, pela Santa Espada e pela Mãe Russia. Eu o amava mais agora do que em qualquer momento anterior, e nossos cem anos de taça e rito, de laço e paixão, significavam mais agora do que significaram em qualquer momento anterior. Ele era o guerreiro de meu bando, o Lasombra que esculpiu a si mesmo como a mais fatal das armas, que possuia o mais doce dos beijos e que era o mais devoto dos soldados.

Kammus, é claro, aguardava um parecer meu. Mas não consigo. Eu possuo a visão e ela me possui. Em meu legado, residem os segredos do que poderia ter sido, se eu não houvesse falhado. Eu vejo os futuros impossíveis, vejo as noites com meu amor e as promessas que nunca proferiríamos. Vejo o fim de nossa guerra e nosso tempo de vitória. Vejo o sangue jorrando em largas fontes e a Espada de Caim reinando sobre nossos avós mortos.

Saulot, pai e patrono, cega-me nem que seja só por hoje. Só hoje, meu pai, eu não quero mais ser eu.

Chamo o sangue e me recomponho. Não sei dizer quanto tempo se passou. Kammus ainda aguardava, em pé, meu próximo comando. Liang estava a debandar a horda de sacerdotes que o impertinavam, com um novo colar feito de intestinos e ossos de dedos alheios. Ele sorria e clamava por deuses cujo nome eu desconhecia - Fimbultýr, Hárr,Hrafnáss. Era um ritual, claro, mas um a qual eu era ignorante.

Chamo a força que ainda existe em mim e me dirijo a meu batedor.

"Somos gratos por ter serviço, batedor. Hoje este reino está em chamas em nome de Caim. Amanhã iniciaremos os planos de expansão. Envie rádio para Moskow e os informe do sucesso da empreitada - os abutres vão exigir seu quinhão. Informe-os de nossas perdas e requisite os serviços dos irmãos alemães para a expansão da campanha. Se o cálice da carne e a chaga e cicatriz se unirem a hoste, tomaremos o país antes do fim do ano."

O batedor sorriu (creio eu). Ele se retirou sem se despedir, e eu me deitei na piscina de corpos e tripas que há poucas horas atrás  constituia meia duzia de Tremeres.

Yosef, meu guerreiro, meu amor, eu sentirei sua falta. Acaso não és tu meu guardião? Não sou eu teu irmão?

Fecho meus olhos de carne e tento em vão selar o olho de minha alma. Mergulho em um turbilhão de memórias que não me pertence, e vejo o que meus pais e avós sacrificaram para que eu tivesse essa oportunidade. Eles me fizeram punhal de Caim, e não cabe a mim nada que não vingança. Eu sou Salubri. Eu Sou Salubri desde que acordei para a Verdadeira Vida. Mas ainda assim, por que me sinto tão sózinho?

Sinto dedos cheios de calos tocando minha face e por um instante, odeio tudo que existe no mundo. Abro os olhos de carne rugindo e em um instante sinto meu ódio morrer. Meu sacerdote estava de joelhos do meu lado, rezando por mim em sua língua alienígena.

"Nós o adoramos nesta noite, como adoramos teus filhos;
Adoramos tuas filhas e tua carne, adoramos teus olhos que nos guardam;
Nós o chamamos, pai dos mortos, e consagramos a ti nossa vitória;
Pois os ingratos entre teus filhos agora sangram e choram, e morrem e sofrem;
Nós adoramos tua forma de carne e tua alma imortal;
E adoramos teu poder e teus dons desmortos;
Dá-nos a cura, pai, dá-nos a fúria, pai, para que sejamos hoje e sempre, Uma Espada."

"Uma Espada", respondo, antes de fechar os olhos novamente. Meu sacerdote escorre sua mão imunda por meu peito e ouço seus risos nervosos violarem a santidade oblíqua daquele momento de dor e triunfo.

"Ductus, líder, coração de minha guerra - o que te perturba? Quando sangue deve ser derramado para que sua fúria seja saciada?"

Sua voz era trêmula e nervosa. Eu não o via, mas conseguia contemplar seu espírito perfeitamente. Havia um leve resquicio de ordem em sua aura, como se um caleidoscópio de ondas coloridas fosse de encontro a uma costa irregular. Haviam manchas negras e vermelhas também, resquícios de um legado de diableries e de comunhão com o abismo. Eu o adorava e respeitava tanto quanto respeitava qualquer um de meus irmãos, mas duvidava que ele fosse capaz de me confortar nesse momento.

"A batalha foi ganha, sacerdote. Mas o preço foi alto. Perdemos um irmão essa noite" respondo.

"Perdemos algumas duzias, creio eu, e uns tantos outros vão ser devorados por soldados famintos antes do amanhecer", ele retruca.

"Yosef."

Silêncio. Dor. Pronunciar o nome partiu algo em mim, como se a súbida percepção da morte de meu amor finalmente houvesse se consolidado. Sinto um estranho calor quando as lágrimas rubras abandonam meus três olhos. Eu tento falar, me justificar, mas minha voz me abandona e o que normalmente é um trovão soa como um chiado triste e patético. Eu já não tenho mais fôlego, já não tenho mais forças, não sou nada sem aquele que me fortalece e que acende em mim a chama da guerra.

Eu balbucio inutilmente e tudo em mim é perda, miséria e sofrimento. Meu posto, minha honra, minha glória - nada mais importa, eu sou o que sou naquele momento perdido, e tudo que quero é que essa noite nunca tenha existido.

Sinto um toque estranho, em meu peito. Liang estava deitado ao meu lado, em meio aos mortos. Ele apoiou seu queixo em meu ombro e, pela primeira vez desde que o conheci, ficou em silêncio. Sua aura, por outro lado, gritava. Cores que não deveriam existir saltitavam dele para mim e, quando sua boca se abriu, senti seu hálito trazendo verdades profanas e obscuras a minha realidade imediata.

"Certa vez, meu Ductus, meu senhor, antes mesmo de eu estar devidamente morto como todo sacerdote deve estar, eu tive um sonho. Eu sonhei que eu era, de todas as coisas, uma borboleta - Imagine só!
Eu sonhei que viajava pelos campos, voando sobre plantações e pousando sobre flores, absorvendo delas minha força vital. Mas como essas coisas são, um dia eu acordei, e desde então, carrego uma duvida comigo - acaso sou eu teu sacerdote, espada de teu nome, honrado entre aqueles que servem o uno, ou sou uma borboleta, sonhando que sou sacerdote, espada de teu nome, honrada entre aqueles que servem o uno?"

Como era de costume, eu não sabia responder. Liang era, acima de tudo, um Malkaviano, e neles queima a chama do saber de outrora. Suas palavras me conduziam a uma praia com ondas calmas, onde a guerra e o sangue e a perda eram apenas uma lembrança amarga, de outra vida, de outro tempo.

Minhas lágrimas secam e meus olhos se abrem. Viro meu rosto levemente e vou de encontro ao hálito de meu confessor.

"Tua sabedoria é bem vinda, sacerdote. A dor que existe em mim é uma dor de uma vida que não significa nada. Irei me recompor e retornarei aos planos de guerra."

"Estás enganado, meu Ductus - tua dor é tudo que existe e tudo que é real". Suas palavras são um punhal em meu peito. "Tua dor é a prova de que não és borboleta. Tua dor é tua vida e o sumo de teu ser. Mas não cabe a ti ser consumido por tua vida, pois tú és neto de Saulot, que é irmão de meu pai e o mais sábio entre nós. Cabe a ti ser a lâmina de nossa vingança, cabe a ti ser o punhal no peito de nossos assassinos! Não penses que teu guerreiro morreu sem teu nome nos lábios, Ductus meu! Ele morreu clamando por nossa guerra! Pois ele via, que entre as borboletas e espadas de nosso sangue, haviam aqueles que que pereceriam para manter me nós acesa a chama da guerra! Não vos deixei cair em suas próprias trevas, meu Ductus, pois não há nada que exista que não seja tua guerra!"

Ele vociferava como um maníaco. E cada sílaba que abandonava sua boca penetrava minha mente como uma lâmina aquecida aquecida nas forjas do inferno. Ele estava, é claro, correto - ele é meu sacerdote e nunca caberá a mim questioná-lo. Seu sermão partiu algo em mim e me refez, mais forte, mais são, mais vampiro.

Aquilo em mim que morria era insignificante. Yosef, meu amor, tua vingança se dará no sangue dos profanados. A guerra invade minha mente e com o olho de minha alma vejo chacina e dor. A Noruega irá cair. O Sabá ira reinar.

Por Caim, Pela Santa Espada e pela Mãe Rússia.



sábado, 25 de julho de 2015

Noites Inquietas: Um breve prelúdio

Era julho de 1945 e Os Três meditavam no salão de guerra.

Haringoth, Martelo do Norte, vestia sua pesada armadura noturna e repousava
sobre tentáculos de treva. Os três meditavam no conselho de sombras. Sua face era a de um
cadáver pálido e ossudo, ele não tinha cabelos e seus olhos eram fossos negros e
apodrecidos. Ele era um guerreiro de uma nobre linhagem do clã e casa das sombras, e era
o mais jovem ali presente.

Verminal, Mãe de Monstros, carne da danação e podridão da existência, era a manifestação
do sonho de um louco. Ela não tinha olhos, mas tudo via, não tinha braços, mas a tudo tocava.
Ela era uma massa pegajosa de ossos pueris e protuberâncias cancerosas. Havia uma boca em algum lugar
seu corpo, que constantemente sibilava palavras de poder em línguas perdidas. Era velha e cheirava
a sal.

A terceira, pequenina e frágil, era a união de tudo que havia de vil e cruel no mundo.
Adele, campeã das cortes de sangue, filha do Rimador, nobre de sangue e nome. Tinha cabelos
cacheados e dourados, olhos brilhantes e púrpura e trajava um delicado vestido funerário.
Ela morreu quando tinha dez anos, coisa que aconteceu uns tantos séculos atrás.

Ela não projetava sombras.

Ela não sorria.


Haringoth, inquieto, estalou o pescoço em um giro lento e teatral. Quando abriu a boca,
sombras cativas fugiram de seu hálito. "Meus exércitos queimam lá fora para lhe comprar
essa oportunidade, irmã. Não a desperdice."

Sua voz era fria e carregava consigo a força de um clã. Escuridão líquida escorria de
seus olhos e mesclava-se as carnes magras do rosto criando uma pintura mórbida e senil.

Adele, caminhando em linha reta nas pontas dos pés, com os braços abertos, equilibrava-se
em um jogo infantil. "Irmão meu, alguma vez eu falhei em manter minha parte da barganha? A hoste
será levantada uma vez mais, fortalecida pela pureza e força de nosso Sabá. Nós já vencemos. Você verá."

Verminal gargalhou.

Ao longe, algo morria gritando.

 *****

 Andrew era jovem e sofria de terríveis crises nervosas.

 Era também um dos lideres de guerra mais competentes que o sabá já abraçou.

 Ele estava apoiado entre as vigas do teto de  um prostibulo que fora parcialmente destruído durante os bombardeios a Berlim.

Abaixo dele, sete soldados russos violavam uma mulher alemã. O Brujah estava faminto e ferido. Havia sido
atingido por um morteiro no confronto da noite anterior, pouco depois de enfiar as duas mãos
na garganta de seu senhor e abri-la horizontalmente.

Andrew se concentrou na dor e ordenou que ela o deixasse. Esperou por um instante de silêncio e deixou as mãos se soltarem.

Mergulhou e matou.

*****

Ele teve um nome uma vez. Teve também uma família e sonhos e essas coisas que gente tem.

Não mais.

Ele era agora uma parte quebrada da grande verdade. Carne nos caldeirões mentais dos mestres.

*****


As sagradas fogueiras queimavam por toda Alemanha.

Hardestadt havia caído e a torre de marfim agora era uma pálida lembrança de um inimigo
outrora tido como imbatível.

O sacerdote iniciava o cântico, banhado no sangue de mortos inocentes.

"Dagon, noite escura, manta minha, consagro a ti essa vitória, consagro a ti a chama do Sabá, consagro a ti a morte do mundo"

Dagon, morto e enterrado, sorria. O sacrifício era bem vindo e o sacerdote teve seu pedido atendido.


*****


quinta-feira, 9 de julho de 2015

O guardião de meu irmão

Meu ofício de sacerdote me trouxe até você. Afinal, não sou eu o guardião de meu irmão?

Chamo a treva e faço dela minha veste. Abandono o corpo e mergulho em pensamento. Sou uno com a singularidade que habita os espelhos dos caídos.

Clamo pelo poder invocando uma palavra morta e alcanço a visão. Uma criança esta sozinha e sua mãe esta sofrendo. A mãe sofria por não mais saber sentir e a criança chorava por ter fome e frio.

Extendo meus braços infinitos e toco ambas em realidades as quais elas eram alheias. O sangue se manifesta na mãe, protegendo pensamentos pesarosos e desejosos proibidos.
A criança, indefesa, treme e se encolhe. Eu e a vejo e a beijo e a conforto.

"Tú que és negra em sua semente, que sentou-se a minha mesa e bebeu de minha taça, por que choras? Acaso não se recordas que comungastes com a vontade do rei do firmamento? Tudo que tua alma alcança lhe pertence, pequenina, tudo que teus olhos de artífice imaginam existe em seu interior. Eu sou teu sacerdote, sou seu guardião, e ofereço-lhe minha mão direita. Aceite-a e venha até mim, e juntos questionaremos tuas trevas a cerca de teus tormentos. Tua vontade é soberana em teu corpo. Tú que és mais viva do que eu, levante-se e aceite meu convite."

Ela se agita, confusa. Seus olhos estavam manchados de vermelho e ela soluçava. Eu não sabia mais soluçar ou chorar. Eu estava completa e verdadeiramente morto, uno com a verdade que se esconde atrás dos espelhos.

Joan se levanta, trêmula e nua, e começa a caminhar pelo velho refúgio. Ela virá até mim com seu silêncio e sua mágoa, virá até mim com o amor que sente por minha doce irmã, e eu ouvirei, como sempre faço. Eu a ouvirei e pedirei ao abismo pela sabedoria necessária para servir a minha fiel.

Tomo forma de carne e ordeno que o sangue me aqueça. A fome ecoa em mim e mentalizo antigos campos de romaria. Penso nas grandes mortes e nos festins de carnificina de meus dias de jovem aprendiz.
As fogueiras dos rituais certamente que ainda ardiam, para outros pastores e outros rebanhos, e todos eles sentiam-se tão frágeis e despreparados para a guerra vindoura quanto eu.

A maçaneta gira e a porta de meu templo se abre. Chamo por Dagon por instinto e a luz que havia em mim morre gritando. Minha irmã entra, abraçando a si mesma e clama por meu nome.

Eu respondo criando uma tábula de treva ao lado dela e dizendo "Deite-se, irmã, deite-se e me conte o que te aflige."

Ela obedece. Todos sempre obedecem. Minha vontade não pode ser questionada em meu templo. Ela fecha os olhos e descansa seus dedos entrelaçados por sobre suas pernas lisas e pálidas.

"Perdoe-me por interromper sua meditação, Adalbrecht. Sinto-me confusa e não sei como proceder."

Sua voz era de uma docura doente. Leve e bela como só os jovens sabiam ser. Mordo meus lábios e umedeço as pontas de meus dedos no sangue quente da ferida. Na testa de minha protegida, gravo a runa de Phobos.

"Acaso não sou eu teu guardião, criança?"

Ela começa a falar e eu me faço vontade e oração.

Vestido de festa




Sou forma e movimento. Um eco na carne do firmamento.

Faço-me títere e início o rito. Eu costurava restos de condenados e almejava presentear nossa estimada criança com um belo vestido.

Imagino que ela tenha dificuldade em compreender a magnitude de meu trabalho, e quanto me é custoso esculpir algo que reflita uma carne que eu nunca toquei. Mas é um ritual e rituais precisam ser honrados.

Removo as omoplatas de um bebê mortal com uma carícia. Os ossinhos estalam e se contorcem, eram como manteiga derretendo sobre meus dedos. Ele geme e seus olhos se apertam, incapaz de entender e sentir. Obstruo suas narinas e lábios com pontos em xis e o sangue em meus dedos pinta-lhe a face. Em segundos os pulmões começam a falhar e espasmos suaves o tomam de assalto.

"Obrigado por me conceder sua doce carne, invólucro mortal"

Beijo sua testa e me ponho a devorá-lo. Seu sangue limpo e fino correndo por mim em uma torrente libidinosa de desejos rubros e libertadores. Seu coração cede com gentileza e o embalo em meus braços.

Frio, inerte, tranquilo.

Removo suas pálpebras em um puxão e agradeço-o mais uma vez antes de abandonar o corpo e me dirigir as outras doze crianças em que trabalharia naquela noite.

Perto de mim, o manequim ossudo e quente começava a tomar forma. Armazeno a pele roubada em uma de minhas bocas e faço de minhas unhas garras curvadas. Imagino o produto final e retorno ao trabalho.

Irmã, doce irmã, ficarás satisfeita com meu presente? Será ele a altura das expectativas que nutres? Será ele digno de cobrir sua forma imaculada quando a hora do rito chegar?

Veiga e sua tempestade

Você é o sussurro sublime que anuncia a tempestade, meu amor, é o clarão em minha alma no instante do eco do primeiro trovão que rompe o mar noturno.

Eu, pecadora e culpada que sou, nada posso fazer além de contemplar sua forma doce e frágil, seus olhos disformes e sua inocência estuprada.

Sim, meu amor, roubei de ti tua mortalidade, para lhe dar a eterna singularidade de navegar comigo pelo mar negro do tempo.

Não peço perdão e não imploro por compreensão. Eu não sei sentir culpa. Eu não sei sentir nada que não seja você e me nego a implorar por qualquer coisa que não seja um gemido seu.

Minha Joan, minha criança, minha amante, seja minha nesse instante disforme de dor e libertação, seja minha em minha perversão, seja minha bonequinha indefesa em meu vício cruel e impar. Prove-me e desafie-me a dar mais e mais de mim até que eu seja uma casca seca, oca e debilitada, incapaz de qualquer suspiro que não seja carregado pela lembrança de teu doce aroma.

Você compreende, amor morto meu, como é custoso para mim te pertencer?
Você nunca me compreendeu, nunca sentiu o que eu senti. Nunca soube o que era estar verdadeiramente exposta em toda sua banalidade. E nunca vai saber, meu amor, tranquilize-se, eu lhe protegerei para todo o sempre.

É para mim um esforço hercúleo te tocar. Sua pele rompe meus dedos e faz a besta rugir em mim. Quero seu sexo e quero sua alma, quero te possuir com tudo que há em mim, mas em mim só a morte e dor e mágoa e tormento.

Temos que sempre existirá um vazio em meu peito por saber que você nunca saberá o que significou pra mim ter você comigo. Você, que é bela e jovem e viva de mil maneiras que eu nunca fui, jamais compreenderá o que é ser vil e feroz e errônea pelo simples prazer de assim ser.

E eu te amo, te amo tanto que creio que isso ainda irá me partir em duas, na sua Veiga, sua mentora, e no monstro horrendo e carniceiro que vive a espera da próxima oportunidade de causar dor e sofrimento.

Não tome minha franqueza por fraqueza, criança minha. Nosso fardo e nosso carcereiro. Espero que compreendas que é na noite escura que nosso amor se faz mais forte e que é no sangue que nossos votos nupciais são declarados.

Tú és meu sangue, és minha imortalidade. És tudo que existe de vivo em mim.

Sempre sua,
Veiga

Prelúdio para uma noite de trabalho


Vez ou outra eu me considerava o pior Ductus do mundo.
Eu sei que certamente não sou o pior, já estive na América e vi como aquelas piadas funcionavam, mas porra, não é um trabalho fácil.

Veiga estava puta com alguma coisa. Adalbrecht queria ir para a Grécia visitar um monumento de alguma merda. A novata era uma novata e Cicatriz estava ocupado trabalhando em algo que envolvia criancinhas e tripas.

E Devus estava sumido, pra variar.

Eu gostava do moleque. Era meio mole, meio indeciso, mas ainda era bom em improvisar. Aquele ar de "eu sou inofensivo demais pra que você preste atenção em mim" fazia dele um infiltrador dos melhores e apesar dele ser tão malkaviano quanto qualquer outro malkaviano do sabá, ele sabia raciocinar.

Mas ele sumia o tempo todo e isso me deixava puto. Mandei a novata atrás dele mas duvido que ela tenha muita sorte. Ela anda chorando e sofrendo e fazendo essas coisas que gente que morreu ontem faz.

Sempre culpei a musica dos anos oitenta por isso. Temos uma geração de molengas que ouvem musicas tristes e lamentam as dores da existência nas nossas linhas de frente por causa do The Cure e do The Outra Merda. Mas foda-se, as crianças da oposição são mil vezes mais choronas.

Adele vai nos convocar em breve. É impossível que nenhum bispo tenha ficado no caminho dela em seis meses. Katherine, a templária, me ligou uma semana atrás dizendo pra estarmos prontos pra matar alguma coisa na América do Sul. Tentei aprender o idioma e desisti quando descobri que existiam meia duzia deles e que todos soavam como um peixeiro polonês asmático tendo um infarto.

Meu telefone toca e meu devaneio é interrompido. Joan, a novata. Deixo a campainha vibrar três vezes e atendo.

"Meu Ductus, eu encontrei nosso infiltrador."

Puta merda.

"Conte-me mais, soldado."
"Ele está na Inglaterra, comigo, caçando um imortal. Diz que não pode retornar antes de confrontar seu inimigo."

Puta merda outra vez.

"Quanto tempo?"
"Não sei dizer, meu Ductus, perdoe-me."
"Matem logo e voltem, temos que trabalhar."
"Sim senhor."

Ela desliga e eu puxo um cigarro do bolso. Cogito por um instante agradecê-la por ter feito algo que duvidei muito que ela conseguisse fazer, mas desisto. Não estamos no sabá pra ganhar tapinhas nas costas. Estamos aqui pra fazer guerra.

Absorvo as informações com a fumaça descendo pela garganta. Devus, caçando alguém, tendo inimigos? Estamos em um trem em direção ao inferno e a entropia é a maquinista. Isso não faz nenhum sentido. Eles não são guerreiros, não foram treinados pra isso, o que será que eles tem em mente, ainda mais nas terras da coroa inglesa, onde tudo é procedimento, etiqueta e futilidade?

Envio uma mensagem de texto para um francês escroto que me devia um favor. Ordeno que ele proteja a novata e que tire os dois de lá inteiros. Mando outra pra veiga atualizando o status da missão da criança. Ela me responde um instante depois.

"Se ela se ferir, você morrerá mil vezes antes de eu me cansar de você, amado Ductus."

Não respondo. Sei que ela estava sendo sincera. Sei que cada vez que a recruta se move eu me fodo um pouco mais.

Termino o cigarro e o apago com a sola da bota. Acendo outro.
O telefone toca outra vez, da Alemanha. Meu estômago gela e atendo.

"Lorde Manoel Dias, Rio de Janeiro, Brasil, acusado de alta traição, conspiração e corrupção infernalista. O briefring completo te espera com seu contato no aeroporto Galeão. Reúna seu bando, você tem dois meses."

E silêncio. Apago o segundo cigarro e abandono o refúgio. Preciso matar alguma coisa, preciso ver sangue jorrar. Meu peito queimava e eu sabia que nos próximos dias tudo ficaria pior.

Eu odeio a porra do Rio. Odeio infernalistas e odeio ter que lidar com um bando que esta ocupado demais cuidando da própria não-vida pra poder lutar pra guerra em que se alistaram.

Avisto um ônibus de turismo ao longe. Chamo o sangue e removo uma placa de sinalização. Quando ele se aproxima, salto em direção ao vidro dianteiro e o parto com minhas botas. O metal urra e se contorce horrorizado quando o veículo tomba.

Todos gritam. Eu não.

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Prelúdio noturno para o grande levante

“Esta feito, minha senhora.”
A templária se levantou. O cabelo negro e liso ainda manchado pelo vermelho do combate. A seus pés, morte e miséria. O bispo havia se provado indigno de sua posição.
Adele acariciava seus próprios cachos cor-de-ouro com a mão esquerda, as maçãs do rosto estavam pálidas pela sede e seu vestido de festa havia sido arruinado, atingido em mais de um lugar pelos fragmentos de uma granada rebatida pelo definitivamente-finado bispo de Stuttgard.
“Sinto-me...vazia.” A pequenina mordeu o lábio inferior delicadamente ao falar. Sua voz baixa pairou como um suspiro pelo estacionamento. Ela encarou as paredes e os carros quebrados e os vidros partidos com pesar.
A cidade lhe era estranha , suja. O brujah despedaçado a seus pés havia questionado o julgamento da Priscus abertamente e por isso havia morrido, mas a vitória não trouxe a Adele nenhuma satisfação.
Algo a consumia já a algum tempo. Um desejo de liberdade que urrava e esperneava e era açoitado mais e mais ferrenhamente a cada noite, a cada rito, a cada movimento nas cortes de sangue.
“Rainha de meu sangue, se é alimento que desejas, o providenciarei” Disse a templária.
Mesmo em pedaços, ela era firme. Sua armadura noturna havia se dissipado no combate. Ela estava nua em sua palidez gloriosa, perfurações rosadas afligiam-lhe o ombro esquerdo e uma das mãos havia sido quebrada , fragmentos amarelados de ossos escapavam-lhe pela palma e os dedos estavam torcidos em ângulos improváveis.
“Não é a fome que me aflige, espada de meu poderio. É a fadiga.” Respondeu a Lasombra, pensativa, caminhando nas pontas dos pés divisando os restos sangrentos do inimigo abatido.
“Nomeie o que desejar, minha senhora, e será feito.” Disse a confusa templária, enquanto reatava os ossos e fazia seu corpo cuspir as ultimas balas.
“Vamos para Munique, minha campeã. Exigirei do velha profeta as respostas que ele me deve. Levante a hoste e convoque meus subordinados, é tempo de levar o martelo e a foice aos aliados de meu sire.”
A ultima palavra foi expelida com pesar. Adele não desejava mais guerra, mais batalhas. Ele não tinha cobiça real por mais poder ou domínios, mas era necessário. Era o caminho que ela sabia trilhar.   
“Será feito como ordenastes, minha senhora.” Respondeu a templária inabalável.
                                                                              .....



O lugar era o nada, e no nada existia uma torre.

Um corvo cego pairava na unica janela e sangue escorria de seu bico.

Quando as gotas tocavam o beiral, as pedras fumaceavam.

O sangue era preto e tinha cheiro de morte.

Dentro da torre dormia um mago feito de carne e sonhos e espelhos e essas coisas de que magos são feitos.
 
Ele dormia por estar cansado. Por muito tempo o mago fez torres em lugar nenhum e elas nunca foram altas o bastante.

O céu era preto e tinha cheiro de morte.

Em algum lugar no céu havia uma torre.

Na torre, um corvo cego pairava.
...



Continua.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

O espelho do mago - Ato 1

Uma pequena história sobre um favor prestado a alguém que não pertencia ao sangue e a interação entre meus Lasombra e meus Malkavian, em três partes









Sou movimento, oblíquo e inconstante.
Mergulho minha Forma Espelhada na realidade primária. Um corpo a quem pertence minha vontade. Penso, manifesto, faço-me carne.
Encontro-me em um lugar enlouquecido. Sons mecânicos ecoam por corredores amarelados que cheiravam a urina e inconstância. Uma presença quase-morta me acolhia. Um eco jovem,um sussurro de consciência mordiscando a mortandade.
Deslizo por salões inquietos. Em meu caminho, mortais em vestes brancas tremem de pavor. Um coração para em algum lugar. Eles são cegos a minha presença, mas ainda conseguem me sentir.
Alimento-me de pensamentos fragmentados e absorvo horrores escondidos em mentes  oprimidas. Vejo nomes de poder e manifestações mesquinhas de ego e pretensa razão.
A vastidão quimérica do labirinto de corredores me absorve. Mil aromas alienígenas me cegam e chamo o poder para encontrar o caminho.
Em meu peito podre pulsava a fome e a dor corpórea. Eu já não mais sabia andar com a graciosidade de outrora, não mais sabia caçar aqueles do sangue que me serviam de verdadeiro sustento. O preço pelo invólucro de carne era alto.
Enfim encontro o quarto do escolhido. Atravesso o beiral da porta aberta e sou surpreendido pelo choque da aura.
Ele estava lá, pequeno e ossudo. Um garotinho, não mais velho do que Aquela que me é preciosa   era no dia em que a trouxe para a noite. Era pálido, fétido e doentio. Não tinha cabelos e sua pele purulenta parecia estar desgrudando da face. Nos cantos da boca, feridas oleosas e vermelhas se faziam presentes. Estava sobre uma cama imunda em meio a fezes e restos de comida.Um dos olhos era branco e oleoso, o outro era cinzento e semicerrado. Estava morrendo e por isso podia me contemplar.
“Você é o diabo?” Disse a voz errática da criança. Ele não tremia e não dava sinais de que desviaria o olhar. Me aproximo e ele não recua.
“Eu sou Derek e empunho o cetro do rei do firmamento, e ajo em seu nome. Sou Lasombra, rimador da hora tardia e sacerdote do fim de tudo.” Respondo em um tom mental que só os despertos sabiam ouvir. Tento mover meus lábios, mas já não me recordava do processo que formava palavras em carne.
 Eu tinha tanta fome.
“O que quer de mim? Eu juro que não fiz nada” A sobrancelha do olho vazado e os joelhos se levantam. Ele abraça as pernas e apóia o queixo nos joelhos.
“Eu venho em nome do avô de teu avô, que uma dia foi meu aliado. Tenho um dever a cumprir com aqueles de sua descendência.”
Rugidos metálicos ao longe, gaiolas se abrindo e animais regojizando. Uma luz vermelha piscava. Um coração pulsava pela ultima vez. Sangue ralo e sujo era derramado, não longe de mim.
“E...eles vão vir me pegar. Va-Vão  me machucar e e-eu não q-q-quero” A criança chorava agora. Ela não cheirava a medo ou desespero, só mágoa e ódio.
“Você esta desperto. Eles não podem te ferir. A carne é só uma casca.” Minhas palavras não surtiam efeito. Não fosse ele descendente de Tethanon, eu violaria seus pensamentos e o forçaria a entender. Mas eu não podia. Sua mente estava ferida e além do meu alcance.
“E-eu...eu não posso fugir, não tenho pra onde fugir” Negação. A condição natural da mortalidade
“Você não esta preso. Não existem paredes além dos espelhos, e os espelhos se curvam diante daqueles que olham para si mesmos. Não existem muros ou portas ou grades, olhe-se no espelho e entenda o caminho.”
Minhas palavras finalmente o tocam. Seu rosto se levanta e pende para os lados como se estivesse solto do pescoço. O olho bom gira para trás e a língua, suja e fibrosa, escapa pelo canto da boca. Ele baba antes de começar a rir histericamente e ouço passos se aproximando.
“MAS...O ESPELHO...ESTA QUEBRADO”



Continua.

domingo, 25 de janeiro de 2015

História de amor dos mortos: O não-estar

-- Breve texto sobre misticismo do abismo em ação no Astral. --

Era tarde e eu estava morto.
Eu era torre de Noite Escura. Já não tinha um corpo de carne há muito tempo. Não me recordava do que costumava ser e sentir.
Eu estava em um lugar sem cor. Uma floresta insana perdida na inexistência. O Astral. Ao meu redor, estranhas macieiras ossudas despontavam a esmo. Seus frutos eram corpos infantes  e inchados. Eles viviam, moribundos, e murmuravam versos de decadência em uníssono.
Cordões de prata ligavam os frutos-crianças, eles vibravam a cada novo verso, como se puxados por um titereiro invisível, a supra vontade do não-existir, o além das consciências, o vento no fim do tempo.
Torno-me pensamento e ação. Crio o Verbo e chamo o Poder. Deixo de Permanecer e me vejo em uma encruzilhada entre muitas pontes e muitas vontades. Projeto o caminho em dimensões que não mais existiam e, no Escuro, invoco meu direito de sacerdote.
A noite nasce além do firmamento e as pontes são engolidas. Treva líquida borbulha em dimensões não existentes e os caminhos sangram. Sinto a dor dos mundos que poderiam ter existido mordiscar minha alma condenada. Uma infinidade de gritos sufocados no carrossel do inevitável. Portões violados e selados.
Algo morre no horizonte inalcançável. Eu suspiro e meu caminho se torna verdadeiro. A mandíbula do abismo se abre e o piche etéreo se torna condutor da verdade. Finos braços de nanquim escapam pelo portal. Manifestações do sangue, manifestações do poder.
Uma velha vontade ruge e o feitiço se completa. Aquela região era agora consagrada aos Verdadeiros Mortos Abortados.
Em outro plano, em outro tempo e lugar, um homem pequeno enlouquecia e clamava pelos Antigos. Projeto meu nome em sua mente e ele me pertence. Instruo-o no caminho. Ele faz sacrifícios de sangue para Dagon e oferece seu corpo em holocausto.
Concentro-me no conceito da ausência do sopro. Evaporo. Torno-me uma entidade do não-estar.
Morro.

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

[incompleto] Fagulha de consciência

 - Texto incompleto a espera de revisão futura - 







Cicatriz moveu-se pesadamente pela sala da chacina, ferido pelo combate que há pouco travaram. Uma haste metálica havia atravessado seu ombro e três de seus sete olhos haviam sido dilacerados. Ele arrastava um dos lupinos abatidos pelo pé. A fera era parte pelo ensanguentado e parte ossos expostos.
“Irmão”, disse ele a Adalbrecht, com a cabeça abaixada. “Este um tem ossos firmes. Um bom cálice para a conflagração. Sua benção se faz necessária.”
O Lasombra estava absorto em pensamentos. A palidez de sua pele havia sido realçada pelo esforço da batalha. Ele observou o guerreiro e o corpo por um breve instante.
“De fato, espada de minha alma, este um é digno de nossa cerimônia. O rito se iniciará de imediato.”
...
Ao mesmo tempo, em outro lugar.
“Permissão para fumar, senhor” Disse Devus, com um sorriso zombeteiro nos lábios que não o pertencia.
“Concedida” Respondeu secamente Andrew, enquanto ajustava o Zoom da mira do rifle de caça.
Dev cambaleou pelo arranha-céu, os dedos tateando os bolsos do casaco em busca do isqueiro. Alice, que estava dentro e fora dele, e estava em lugar nenhum, sentou-se na beirada do peitoril.
“A vista daqui é maneira, Dev, não sei por que passamos tanto tempo enfiados em esgotos e em tripas de não-sei-o-que.”
Dev puxou a fumaça do Marlboro light para si, deixando o calor descer por sua garganta. Sua amada, vestida em couro com botas largas e pretas, havia prendido o cabelo e pintado os lábios de vermelho. Estava linda. Ao lado dela, o Brujah finalizava os ajustes na mira da arma. Ele só esperava um sinal.
“Fazemos o que nos cabe, meu amor. Servimos a Caim.” Disse Dev em um sussurro, procurando a lua que havia se refugiado atrás de nuvens gordas e sem cor.
“Silêncio, profeta” Retrucou o Brujah. “Sua presença é tolerada, não é desejada.”
Alice, inexistente para o Ductus, pigarreou e mostrou a língua. “Mate esse filho da puta, Dev, mate por mim.”
Dev recuou e pensou em fogo. Virou as costas para o Ductus e sua amante estava novamente a sua frente. “Mate”, insistiu.
Ele tragou mais uma vez. Fechou os olhos e mentalizou sua senhora. A velha bruxa há muito havia desaparecido, em seu ultimo encontro, tudo que recebeu foram instruções enigmáticas a cerca da cardeal de Dresden e do bando que agora integrava. Pensou em uma palavra esquecida que havia aprendido com larvas insanas do mundo espelhado. N’lah.
O malkaviano não gostava de magia. Não gostava de nada que não entendia. Lembrou-se de suas poesias de criança, dos versos que escrevia quando sua alma mortal não estava olhando.
Ar’c Nth ehnir, Ar’c Nth N’lah. Que haja sopro, que haja morte.
 Suspirou e apagou o cigarro com a ponta da bota. Estalou os dedos e o Ductus pressionou o gatilho. Fagulhas de som ao longe,  vidro partido, um corpo ao chão.
“Esta feito, profeta” Disse Andrew, relaxando os ombros. “Sua colaboração é apreciada. Encontrarei-me com veiga e traçaremos o próximo passo. Reporte diretamente a Adele no Salão Escuro.
Dev franziu os ombros. “Será feito, Ductus de minha carne. A Alma da Espada permanece afiada.”

“Uma Espada.” Respondeu o Ductus, enquanto se retirava.

Um instante de presciência

Era tarde e eu estava morto.
Algo havia me abandonado. Algo quente e bonito cujo nome eu já não mais me recordava. Uma pessoa, uma sensação, algo parecido.
Eu tinha tanta fome.
Em minha mente, flashes de momentos não vividos. Dores as quais eu era estranho. Um passado que já não era mais meu. Eu ouvia aqueles que não estavam ali, e eles chamavam com tanta força, gritavam para mim, dentro de mim. Estava tão nervoso.
O posto de gasolina era a neutralidade da insignificância. Eu não sabia dizer se estava ali de verdade. Nada ali, nem minha existência, importavam. Nada exceto ele, que de todo o cardume torpe da casualidade, era o mais bonito.
As portas se abrem em um silvo. Como se nada mais existisse, me ajusto a realidade temporal e as cruzo, invisível aos olhos dos cegos. Ele estava lá, atrás do balcão, um boné vermelho e um avental, um sorriso cansado e noturno, olhos verde e musgo. A sua frente, um casal de argentinos atípicos e barulhentos. Síbilo morte e ambos tremem e choram apavorados por conta de uma abominação que não estava lá. Síbilo doença e eles apodrecem, mudos, enquanto as paredes da alma imortal se partem. Eles, fracos, morrem por dentro enquanto meu escolhido treme de pavor.
Se movimento vagarosamente para trás do balcão. Os estrangeiros encolhem-se em posição fetal e sangram pelos olhos e ouvidos.
O doce aroma adocicado de míngua mental desperta o caçador em mim.
Tenho tanta, tanta fome.  
Posiciono-me atrás de minha refeição. Embriago-me com o  cheiro de seu suor e suplico por um perdão que não existia. Bebo de sua culpa enquanto roubo sua memória. Ouço sua pulsação e entro na sintonia. Ataco. Mato.
Meus lábios mergulham no mar rubro do ser anônimo de minha vítima. Minha língua toca a alma e lambe a culpa. O fluxo do doce vitae me toma e faz de mim o ceifador.
Em minha consciência, um caleidoscópio. Sinto o gosto de cada promessa e vislumbro os futuros agora impossíveis. O corpo enrijece em meus braços e o coração acelera, implorando por uma misericórdia que não existia em mim.
Seco, ele vai ao chão. A ultima batida de seu peito ainda ecoando em meu ser. Pego um maço de cigarros detrás do caixa, ainda torpe pelo calor da vida roubada. Algo sussurra em mim. Torno-me novamente uma ranhura na ferida do universo, invisível aos além do sangue. Observo a tela de cristal líquido enquanto acendo o cigarro. A fumaça escapava de minha magia. Ela flutuava sozinha, desenhando câncer  e apodrecimento na carcaça inerte do mundo morto.
Um novo som. Culpa. Ele é calado por um rugido interno. “Mais”, gritava o eu surdo a mim. Abandono a loja e me dirijo ao horizonte. Algo pesava no fundo do peito. Carregava o gosto de meu amado no fundo do peito e o saboreava. Havia qualquer coisa de baunilha e passado em sua essência.
Afasto os pensamentos com um esforço hercúleo. Concentro-me no futuro próximo. Uma cidade cairia, um príncipe seria decapitado, A Espada reinaria em mais um pedaço fétido do Brasil. Penso nas outras dez mil mortes de outras dez mil noites. Penso em dez mil noites que estavam por vir e em dez mil sabores de mentes e corpos interrompidos.
Algo em mim grita mais uma vez, em rejúbilo. A parte morta de mim estava satisfeita.
E eu tinha tanta, tanta fome. 

quarta-feira, 4 de junho de 2014

A história de amor dos mortos: Espinhos do caminho

- Como tem passado teu senhor, criança?
- Com a graça do sangue, ele está em paz, meu lorde. Já há umas tantas décadas peregrinamos pela terra européia. Teus castelos são muito bonitos.
- São monumentos do tempo. Da fragilidade da existência e da efemeridade temporal do ser. Cada uma dessas fortalezas um dia será pó e cada deus e cada templo, uma marca oculta nas entranhas da terra.
- Eu compreendo...Perdoe-me se soei ignorante. Meu caminho é diferente do teu, lorde rimador.
- Não tive a intenção de lhe ofender e por isso peço perdão. Não cabe a um sacerdote questionar a visão de outro.
A mulher sorriu, sua pele amendoada cintilando a meia luz da taverna incinerada. A guerra havia passado por ali antes dos vampiros, e o pouco que restava do telhado rangia em um lamento seco e febril. O vilarejo como um todo era uma pequena coleção de cinzas e murmúrios sufocados. Em um canto ou outro ouvia-se um pássaro perdido, mas, além das poucas manifestações de natureza quase-morta, tudo era desolação.
Vasantasena ajeitou as longas madeixas escuras por trás dos ombros.
- Viestes até mim quando eu chamei, lorde abismal. Não me deves desculpa nenhuma, qualquer outro que compartilhasse de seu entendimento teria ignorado meu apelo.
Derek, um corpo de sombras e duvidas, moveu-se em duas dimensões para a parede próxima.Tentáculos membranosos apoiaram-se em restos de mesas enquanto borbulhavam incessantemente para dentro de si mesmos.
- Tu és filha de carne de um rei, és filha de sangue de um amigo querido. Malkav, o sábio gentil, fala por tua boca de profeta. Não cabe a mim, sacerdote das meia-noites, ignorar teu chamado.
- E mesmo assim, lorde tenebroso, não me agracias com a visão de tua imagem de carne.
O lasombra concentrou-se por um instante e deu uma quantidade incerta de olhos e bocas a sua forma de horror oblíquo. Ele mudava, regurgitando a matéria escura do abismo na face indefesa da criação.
- Perdoe-me, filha de Malkav. É parte de um rito. Meu cárcere se esvaiu de minha memória. Eu sou treva e espelho agora, sou  o reflexo de meu interior. Muito tem de acontecer para que eu possa retornar a forma de corpo.Não é por má vontade que me apresento em minha pureza, é por dedicação e oração.
Ela sorriu novamente, abraçando a si mesma, como se tentasse agarrar o calor que fugia em desespero.
- Como bem dissestes, não cabe a um sacerdote questionar a visão de outro. Se perdoares minha indulgência, acredito que seja hora de discutirmos assuntos de maior importância.
- Como queiras, Vasantasena.
Os dois discutiram por boa parte da noite e da seguinte, refugiando-se dos raios libertadores do sol no abraço da terra. Vasantasena era versada em muitos assuntos que para Derek eram uma tremenda incógnita. Ela soube do ataque a casa do pai tenebroso, ele soube do mesmo acontecimento, anteriormente,  por Boukhelpos, mas não era conveniente discutir estes detalhes com sua companheira. Por mais que lhe fosse querida, a cria de Unmada ainda era ignorante do grande esquema das coisas, e era melhor que continuasse assim.
Ela lhe contou também sobre a poderosa insurreição dos jovens, da quebra dos grilhões e da traição dos antigos.Lhe contou sobre o perigo que sua pequena corria, sobre as ambições de Adele e a conspiração do jovem Hrotger. Sobre as guerras que estavam por vir e os doces espólios da vitória. Derek, no silêncio que a idade lhe trouxe, ouviu cada argumento e cheirou cada emoção. Ele olhou nos olhos do futuro e perguntou ao abismo mais de uma vez se seus temores estavam corretos.
Em sua maior parte, estavam.
Ao fim de um longo discurso, a exausta Vasantasena tinha os olhos carregados de esperança. Pálida pela fome, ela repousava deitada no chão, com as presas em riste e a túnica umedecida pela relva.
- Virás comigo, lorde Derek, virás comigo para a capela dos espinhos, discursar sobre a liberdade que poderemos conquistar, caso não tenhamos medo de tentar?
- Receio que devo prezar pela segurança de minha cria, estimada amiga. Por mais que eu compreenda a sabedoria de tua oratória, meu dever como sacerdote tem prioridade. 
Ela suspirou, e o ar expelido dos finos lábios arianos desenhou uma curva branca e lenta na noite, fumaça de pulmões mortos condensada na frieza do lasombra.
- Se a Camarilla continuar a existir e os anarquistas forem derrubados, não vai haver um amanhã para seu culto, lorde magistrado. Suplico-lhe, reconsidere sua posição.
Derek, uno com a mortalha da noite, escorreu e deslizou para perto de sua aliada. O levante do corpo noturno carregou consigo o pouco calor que aquela taverna esquecida ainda ostentava.
- Digo que não. Tua rebelião  é parte de um plano e bem sabemos quais serão os frutos dela. É um lampejo na noite escura. A Camarilla é água e a anarquia é fogo. Alimente a chama antes de pô-la a prova.
- Falas de um futuro que pode não existir, lorde da mortalha sem reflexo. Eu olho para a frente e só vejo escuridão.
- Fostes tu de meu sangue, profetisa, eu lhe ensinaria a enxergar no escuro. Mas não posso, pois esse não é o desejo da noite e teu sangue sacro seria maculado por aquilo ao qual você nunca pertenceria completamente. Peço que tenhas paciência. E isso eu lhe prometo, malkaviana, por mais doloroso que seja a principio, teu legado irá perdurar em sangue e guerra pelos séculos que virão.
- Guerra você diz, guerra por aquilo que nos é de direito, guerra para quebrar o grilhão do laço. Por que isso se faz necessário, rimador dos  perdidos? Tu me forneces tua palavra e isso é mais do que eu poderia esperar, mas ainda não me sinto satisfeita. Meu senhor não se conformará com a necessidade de derramamento de sangue e permanecerá com a Camarilla. Todo meu clã irá sofrer e definhar nas mãos dele e dos outros sábios. Mais uma vez meus irmãos serão párias, serão tolos enfeitando salões decadentes de horrores jocosos cujo único propósito é manter a chibata ao alcance da carne pueril de seus filhos e netos.
- Não cabe a mim julgar teu senhor, que é mais sábio do que eu. O que me cabe é reafirmar meu compromisso como teu aliado e defensor. Meu clã irá ao teu auxílio, Vasantasena. Os Tzimisce também. Faça de teu discurso um rugido e inflame o coração dos jovens. O mundo esta mudando e eles tem isso a seu favor. Seja chama nas veias daqueles que por muito tempo contemplaram a efemeridade frágil do cárcere. Por duas vidas de homem eu fui prisioneiro do laço e bem sei que ninguém deseja existir acorrentado. Estarei contigo, não em carne, mas em poder. Vá e sirva seu destino, sacerdotisa. Vá e pense em minhas palavras. É um grande momento e o que me resta cumprir meu desígnio das sombras.
- Elas são o teu lugar, Derek, velho entre os jovens. Tenho uma ultima pergunta, se for conveniente.
- De bom grado lhe oferecerei qualquer sabedoria que possuir, Vasantasena.
- Os velhos de teu clã, como aceitarão os jovens de nosso movimento libertador? Serão eles diferentes dos tiranos a quem nos opomos?
- Eles já estão em guerra, posso lhe garantir. A convenção é a justificativa de que precisam. A revolta é esperada por aqueles que observam. Precisam de um nome, e nenhum é melhor do que o seu neste momento, pois ele carrega sangue real e visão. Fogo e água.
-Sinto que sou mais uma das ferramentas a dispor dos estratagemas dos velhos, meu amigo.
Derek, imerso em noite, sussurrou para longe em sua língua morta. A malkaviana sorriu fechando os olhos e em um lampejo de inconsciência, deixou de resistir.
- Será feito como designastes, lorde  rimador.
- Não tema. A lua brilha da noite escura e trás a visão aos de teu augúrio. Estarei contigo quando chegar a hora.
A malkaviana dormiu e ao som de uma palavra de feitiçaria, absteve-se do mundo de seus sonhos. A  forma de sombras circulou o corpo inerte e, com um ultimo suspiro, fez com que um filete de nanquim escapasse de si e penetrasse as narinas da indefesa Vasantasena.
A noite liquida gerada pela tenebrosidade a envolveu como um manto, protegendo-a dos raios fatais do alvorecer. O lasombra desvaneceu e deixou de ser e estar.
                                                            .         .          .
Verso de minha obra, lampejo de meu poder.

Por ti canalizo o invólucro que do sul transborda.

Herdeiro de minha mácula,  eterno cetro de minha vestimenta de rei do firmamento.

Espelho de minha forma, navegante do mar de Vênus, escudo do segredo da perpétua consciência.

Chamo teu nome e o faço com a mão esquerda, Derek dos caídos, sacerdote dos desauridos.

Onde estiveres, Derek das meias-noites, ouça o chamado daquele a quem és consagrado.

Onde estiveres, filho de meu sangue, saibas que na noite, tudo nos é revelado.

Uma espada. Um caminho.
                                     .                                     .                                      .
Derek detestava a terra dos ingleses. Era um dos poucos lugares que lhe causava alguma reação que não fosse absoluta indiferença. Em sua primeira incursão ele havia encontrado um velho sacerdote gaulês que lhe ofereceu alguma sabedoria, mas além deste encontro ao acaso, tudo naquele reino apertado e fedorento lhe causava asco.
Ele era agora um pássaro feito da matéria negra do não-ser, sem olhos ou som. Suas asas eram diminutas lâminas negras, cortando a esmo o céu europeu. Vez ou  outra ele se dava ao trabalho de mergulhar sobre um cainita descuidado, cobrindo-o com a derradeira manta nanquim e fazendo-o dormir para sempre no aperto abismal.
O sangue era um carcereiro cruel com o Lasombra. Mesmo com pouco mais de seis séculos, mortais não o nutriam. Certamente que seu poder pessoal era maior do que de muitos outros com sua idade, mas ainda assim, era um preço alto a pagar.
Ele pousou sobre a abadia da sagrada coroa e escondeu sua forma com um dos poderes do sangue. O vilarejo dormia no horizonte. “Thorns”. Em sete meses, seu plano daria os primeiros frutos e os assamitas seriam acorrentados.
A Camarilla, em seus seis anos, não podia existir sem contestação. Era preciso que as fogueiras da inquisição fossem alimentadas ferrenhamente, com sangue jovem e escuro, e que os velhos tremessem de medo em seus castelos.
Lasombra reinava no mundo morto, Tzimisce liderava a insurreição sobre a carne de sua cria, Saulot, perdido em seus sonhos, esperava pelo momento de retornar.
Saulot, gentil Saulot. Derek não podia compreender como demorou tanto a entender o estratagema. Muitos de seus aliados mais queridos tinham o sangue sacro dos iluminados, e nenhum deles seria capaz de tamanha manobra por si.               
Seja como fosse, o fim almejado chegaria e o abismo devoraria toda criação.
Derek pensou por um instante em sua cria, em todas as tristezas e sofrimentos que teria que  ela iria suportar, em toda a mágoa que nutriria por ele. Sussurrou um dos nove nomes de Dagon e  clamou por quietude.
Era hora de organizar prioridades.
Sua cria precisava ser protegida a todo custo, logo, a insurreição anarquista precisaria continuar a sobreviver a inquisição e a minar os recursos da Camarilla e de seus recém-conquistados aliados Giovanni. Eles precisavam de números e ideologia. De ritos que os unificassem e ordenassem, de uma hierarquia que nunca fosse enfatizada diretamente e de um punho de ferro que os controlasse sem que soubessem. Um tirano seria tão bom quanto qualquer outro, então, por hora, Gratiano e algum koldun fossem suficientes. Eles precisariam de apoio dos outros clãs e precisariam também manchá-los com sangue Tzimisce. O rito da quebra de laço cobraria seu quinhão.
Depois, seria preciso dar tempo ao tempo e garantir que o esforço de guerra não fosse desperdiçado em meio a intrigas e maquinações de cainitas ambiciosos. Quando a civilização humana esquecesse do valor da heráldica e a nobreza de sangue fosse substituída completamente por posse material, quando a comunicação fosse veloz e o deslocamento de grandes exércitos fosse possível em poucos dias, ele chamaria o poder e inflamaria a paixão nacionalista em um país em pedaços, erguendo ali sua fortaleza. A Espanha seria uma escolha lógica se seu desprezo pela aristocracia pudesse ser mantido nos séculos seguintes, mas ela era uma solução de curto prazo. Quando a lâmina da igreja se tornasse cega, o reino todo ruiria. A Germânia, por outro lado, seria muito mais adequada a esse propósito, caso fosse exaurida o suficiente de seu orgulho e poder.
Sim, a Germânia, em um futuro podre e virulento, em guerra contra o mundo, em ruínas. Ela seria a base final de seu poder e a catalizadora do fim. Sua cria, a pequena Adele, seria rainha no mundo morto e ele, sacerdote dos abortados, teria seu merecido descanso.
A oeste,  em outro país, um lorde Ventrue conspirava com seus asseclas. Eles também sabiam do que estava por vir, e se esforçavam para mobilizar recursos e riquezas para os confins da terra. A Europa estava prestes a se tornar uma gigantesca ferida putrefata na história cainita, e muito precisava ser feito para garantir que algo restasse da convenção.
Em Moscou, uma velha Tzimisce despertou de seu sono com um rugido que calou os céus. Ela chamou a carne molhada da terra para si e tomou forma de cervo. Kella pôs-se a marchar e a matar. Para ela, seria uma longa jornada. Para Derek, mais uma vez perdido na imensidão de seus pensamentos noturnos, seria um eterno embate.
A história cainita estava prestes a se reinventar e ele, lorde rimador, alto sacerdote das meias-noites, seria a força motriz por trás de cada evento. 

Uma espada. Um caminho.