quarta-feira, 27 de março de 2019

Sofia & Jazmín


A mata era fechada, fria e cheia de remorso. Era madrugada e a lua sufocava em meio a nuvens negras e famintas.

Duas mortas avançavam por uma trilha errante em direção ao templo. Estavam cansadas e tinham sede. A primeira hávia perdido parte dos lábios no último combate. O corte ia da base do queixo até a orelha. Três foram as garras que a mãe-terra usou para sua vingança, três os talhos no rosto de Sofia.

“Se Patrick estiver errado, e a coisa não estiver aqui, vamos precisar de um novo sacerdote”, disse a vampira, usando um pedaço da manga arruinada da jaqueta de couro para limpar a ferida. Sua companheira, intocada pelas garras de Gaia por conta de sua feitiçaria, limitou-se a sorrir.

Elas caminharam até os primeiros raios de sol despontarem. Traçaram as linhas de proteção e chamaram os nomes que seu sacerdote havia lhes ensinado. O poder se manifestou e a terra lhes acolheu, protegendo-as do abraço de Apolo e da morte-em-dia.

Na noite seguinte elas caçaram. Encontraram uns poucos nativos e uns tantos mosquitos. Algo não as desejava lá, algo antigo e poderoso. Seguiram pela margem de um rio sem nome e sacrificaram uns tantos pescadores - suficiente para os rituais de cura e para os ofícios sacros, mas não para o que lhes mostraria o caminho correto.

Na quarta noite, Sofia sentiu cheiro de fé. Jazmín, a feiticeira, fez-se sombra e desvaneceu. Sua mágica fez com que ela fosse uma espiã eficiente. Ela desenhou com gravetos secos e sangue obtido em holocausto os nomes de Dagon e de seus súditos em volta do templo. Nada abandonaria o altar sem que ela soubesse.

Sofia, Ductus do bando, líder sacramentada e caçadora veterana, usou do poder de sua herança em morte para enxergar além da realidade imediata. O que ela viu garantiu a segurança do sacerdote do bando.

O templo era um círculo de rochas perfeitamente redondas. No centro deste, uma única efígie construída com barro e folhas secas. ‘Aqui moram as bruxas’, pensou a Gangrel. Aqui mora a chave do ritual.


*********

Jasmín estava confusa e frustrada. Ela leu as histórias das bruxas Catarinenses, e o que encontraram não se parecia nada com o material de referência.

Ela esperava uma das potestades mortas de panteões esquecidos, um metamorfo de uma linhagem ancestral, talvez até alguém das cortes do outro lado. O que encontraram foi, de fato, um morto.

Quando a meia-noite rugiu e o altar reagiu com a mágica inerente do local, a efígie se retorceu em diversos ângulos até partir. A terra se abriu e o ritual de contenção da Lasombra surtiu efeito imediatamente - Quando o vampiro enterrado levantou-se da sagrada sepultura, só teve tempo de mostrar as presas antes de ser imobilizado pelas membranas negras do mundo morto.

Ele era antigo e tinha cheiro de sal. Não possuía roupas, cabelos ou olhos. Suas mãos estavam amarradas com contas de oração e trazia no pescoço um colar de ferro negro. Suas presas eram seus únicos dentes, enormes e amarelos e as órbitas vazias em sua face pareciam perfeitamente conscientes do ambiente que o cercava.

Sofia aproximou-se cuidadosamente. Apanhou um punhado de terra do chão e o cheirou. Sussurrou um encantamento que fez com que seus olhos se focassem em outro tempo e lugar, após isso, lambeu a terra, saboreando-a lentamente. Jazmín fez-se em um corpo de trevas e deslizou pelo chão até estar ao lado de sua líder.

“ Ele é velho. Acho que não sabe mais quem é. O que acha?” Disse Sofia.

Jazmín fez-se corpórea novamente. O vampiro possuía símbolos estranhos e antigos no peito.

“ Acho que ele não parece ser uma bruxa e que precisamos de sangue de bruxa.”

O vampiro sorriu. Ele não estava lutando contra os tentáculos que o seguravam, seu único movimento era dos pulsos que pareciam feridos pelo rosário. Eles tremiam incessantemente.

“Tolas, tolas é o que são” Ele disse. A voz era grave e rouca. Carregava um sotaque pesado e antigo que pertencia a outra época e lugar.

A Gangrel cuspiu a terra da boca e sacou uma estaca de madeira compacta do cinto. “Quanto tempo sua magia vai mantê-lo preso, Lasombra?”

Jazmín acariciou seus olhos com a mão esquerda por um instante. Quando os abriu, eles eram negros como piche e transbordavam por seu rosto.

“O suficiente”.

*********

A Lasombra usou de sua adaga ritual com destreza e graciosidade. Traçou no pescoço do velho morto um símbolo de contenção e alimentou o feitiço com uma gota de seu sangue escuro.

O vampiro sibilou e exibiu sua língua bifurcada voluptuosamente. O vitae lhe chamava e a besta que o habitava rugia. Sofia estava de prontidão, com a estaca em punho. A noite era fria e tinha cheiro de sal.

“Estamos em segurança,, irmã. Minha magia é forte e esse cainita tem fome demais para se opor a ela”. Disse Jazmín. O morto levantou uma sobrancelha, sutil demais para que elas percebessem.

“A língua bifurcada me leva a crer que ele foi punido por mortais, mas a falta de olhos me diz que seu capataz sabia o que estava fazendo” Respondeu Sofia.

“O rosário nos pulsos possui um poder que não compreendo. Quem fez o ritual possuía os dons, mas não orava na mesma direção que nós.” Jazmín tocou o rosário com as pontas dos dedos e, um instante depois, foi arremessada por vários metros e se chocou com uma árvore. O velho morto sorriu.

“Vocês não são de minha carne, não são versadas neste mistério. Meu sangue é o sangue dos senhores dos Cárpatos e essa terra pertence a sagrada espada de Caim.”

Sofia segurou Jazmín enquanto ela se levantava. Algumas costelas haviam cedido, mas nada que não pudesse ser consertado.

A Gangrel chiou e seus olhos brilharam em um amarelo febril. “Se ele é o que diz ser, Diana vai querer que ele morra. De qualquer maneira, acho que deveríamos nos livrar dele.”

O velho grunhiu “Uma de vocês é guardiã, vocês são do Sabá. Vocês devem me prestar referência.”

Jazmín puxou a estaca das mãos de Sofia. “Seu sabá morreu por causa de déspotas como o ‘senhor’. Seus herdeiros apodrecem em uma guerra em outras terras por que a realeza morta de Caim insistiu em títulos e honrarias ao invés de nossa guerra. Não lhe devemos referência, lhe devemos nojo.”

A estaca parte a carne com a leveza de um beijo. Era encantada e sacramentada para ritos de caça. O velho morto tenta vociferar uma última maldição mas seus lábios inchados tornam-se inertes e incapazes de moldar o ar. Jazmín morde a própria língua e cospe sangue sobre a ferida, que imediatamente começa a queimar. A Lasombra usa o poder do vitae e ordena que as costelas partidas se costurem. Ela estava cançada e irritada.

Sofia segurou o morto pelas pernas e começa a arrastá-lo pelo mato. Jazmín a segue sem questionar. Após várias horas pela mata voltaram a cabana de pescadores em que cearam anteriormente. Um policial estava investigando a chacina, atônito. Foi assassinado e devorado. Com o novo carro, continuaram por trilhas incertas em meio a floresta, carregando o troféu de sua caçada no porta-malas. As noites eram incertas, inquietas. As duas sabiam que estavam sendo observadas, mas não conseguiam descobrir quem era o perseguidor.

Na noite seguinte, trocaram o carro de polícia por uma ambulância. Os socorristas que tentavam ressuscitar uma idosa infartada não foram uma ceia particularmente agradável, mas foram o suficiente. Estavam se aproximando de Florianópolis agora, prontas para encontrar seu sacerdote e sua guerreira e obter as respostas necessárias do cadáver ancestral que dividia a maca com uma senhora sem vida.

Sofia havia roubado o telefone do antigo motorista da ambulância, e usou-o para chamar Diana, sua amada e querida Tzimisce, assim que ele obteve sinal.

“Diana, meu bem, temo que nosso passeio não tenha ocorrido como o planejado.”

“É uma pena, meu amor. Patrick está tão irritado com esse lugar, vai me deixar maluca. Nada de bruxa então?”

Diana tinha uma voz doce, frágil e quase teatral. Nada nela revelava que ela era uma açougueira monstruosa e a capataz de uma dúzia de imortais. A Tzimisce possuía uma crueldade alienígena que rivalizava com a dos anciões do clã dos demônios.

“Encontramos um parente seu. Um bem antigo. Esta empacotado na carroceria.”

Houve uma leve pausa, seguida por uma risada deliciosa e exagerada.

“De todos os buracos do firmamento, ele foi se esconder aqui? Pois o traga, tenho certeza de que ele vai adorar dançar sobre o luar conosco, com nosso novo sabá.”

“Ahn...Certamente. Tiveram sorte com o Toreador?”

“Tenho certeza de que a boca dele está aqui em algum lugar, mas ele não parece muito disposto a conversar.”

Sofia desligou.O Tzimisce captivo certamente não adoraria os ritos que Diana tinha em mente. Patrick certamente faria com que ele se tornasse a mais bela boneca de vodu nas américas e com alguma sorte Jazmín não teria uma visão profética exigindo o sacrifício do ancião.

Independente do resultado, ele estava condenado. O rito precisa continuar e o velho patrono precisa ser encontrado. O Sabá morreu para renascer, e o antigo rimador guiaria a espada de Caim na guerra que está por vir.



Patrick & Diana

O casal de mortos dirigia lentamente pela ponte Pedro Ivo Campos. Mesmo a meia noite, o tráfego era lento. A Hercílio Luz brilhava em vermelho e púrpura, e sobre ela, a luz cheia pairava, indiferente ao sofrimento do mundo.

“Bela Lugosi's dead, unded, undead, undead”, disse o rádio. “Grande merda”, respondeu o vampiro.

Sua companheira, Diana, sorriu, exibindo as presas molhadas e vermelhas. No banco de trás, 2 exsanguinados dormiam o sonho dos perdidos.

“Esse lugar me deixa com um gosto estranho na boca. Cinzas e alumínio. Como se o fim do mundo estivesse atrasado e os cavaleiros do apocalipse estivessem reclamando dessa porcaria de trânsito”, disse o sacerdote. Patrick vestia uma jaqueta cinza recém-roubada e jeans rasgados que já viram dias melhores. Ele dirigia com ambas as mãos no volante e estava cansado. A viagem não tinha sido ideia dele.

“Meu amor, estamos de férias. Vamos aproveitar um pouco. Nem é tão ruim assim. Olhe lá, que ponte lindinha. Você não se sente enfeitiçado por ela?” Diana gargalhou. Ela lambeu o sangue que ainda lhe escorria dos dedos como se fosse uma gata e limpou as sobras na longa saia arrastão. Reclinou-se sobre o banco e esticou os braços tanto quanto pode antes de continuar “Logo as meninas vão chegar. Vamos nos divertir horrores. E vamos fazer seu ritual. E vamos adotar crianças e fazer essas coisas todas sorrindo e dançando, por que é isso que férias significam.”

Patrick grunhiu ao contemplar a ponte. Ele não sentia nada. Ele já não sentia nada há muito tempo. O ritual iria acontecer, cedo ou tarde, e isso o irritava. Esse não era o local correto. Diana sabia, mas não se importava. Não existem férias para o Sabá. Não existe nada que não seja a guerra.

Os vampiros permaneceram em silêncio enquanto atravessaram a ponte. Com alguma dificuldade, encontraram uma vaga de estacionamento. Abandonaram o carro e os corpos como presente para quaisquer que fossem os vampiros locais e saíram para a noite.

Não foi difícil encontrar o primeiro componente para o ritual. Guilherme Fritz, Toreador, idiota. Diana havia convencido-o de que eram anarquistas a procura de um novo lar, e que seriam muito gratos por quem quer que os apresentasse a baronesa local. Fritz insistiu que deveriam se encontrar em uma boate LGBTQ, mas desistiu quando Diana alegou ser uma Nosferatu.

Ela não era, é claro. Ela era algo muito pior. Mas o jovem Guilherme não existiria por tempo suficiente para reconhecer seu erro.

O encontro foi marcado para um heliporto no meio da avenida Beira Mar Norte. No caminho, Diana esculpiu seus braços disfarçadamente. Os ossos estalaram levemente quando romperam a pele e a Tzimisce suspirou com as veias estendidas.

O combate foi rápido e brutal. Quando o avistaram, o Toreador acenou e Patrick saltou sobre ele com o punho em riste, rápido demais para que ele pudesse reagir. A força do golpe o fez cair com as costas no chão, e um instante depois, uma estava óssea o perfurou e fez seu rosto ser congelado para sempre no grito doloroso do torpor.

O sacerdote brandiu o Atame, sua adaga de condução de ritos, e a enfiou na boca do vampiro abatido. Ele rasgou a gengiva e com a mão livre arrancou as duas presas. Sangue preto verteu da ferida e o jovem vampiro nada pode fazer para impedir o que se seguiu.

“Pra que lado é o oeste?” Disse Patrick, limpando o sangue da lâmina nas calças.

Diana fechou os olhos e apontou para o mar. “É pra lá, meu amor”.

Patrick ajoelhou-se, abriu o braço esquerdo com os dentes e derramou vitae sobre o concreto do chão. Com a poça que se formou, desenhou os nomes de Deuses mortos e abortados. Chamou-os um a um e eles foram testemunha do início do ritual.



***

Em outro noite, em outro lugar.

Patrick estava nu, exceto pelo colar feito de Guilherme. Sua companheira havia usado o estômago como cordão, e ossos dos dedos torcidos em runas e glifos de proteção.

O Toreador não estava muito contente com a situação. Pedaços dele adornavam vários cantos do altar. Suas pernas e braços não mais lhe pertenciam e a estaca de madeira de lei em seu peito lhe queimava a alma.

Diana, vestindo as sobras de seu jantar, agora era horror-feito-morte. Ela possuía longos chifres curvos e asas de couro preto. Quitina cobria sua forma horrenda e ela era parte inseto e parte Deus.
Seus braços eram terminados em bocas cheias de dentes e entre seus seios, as marcas talhadas pelo Atame do sacerdote pulsavam em um amarelo ocre e pegajoso. Seus quatro olhos eram imensos, focados, cinzentos e mortos, e seus joelhos dobravam-se como se ela estivesse preparada para voar.

Patrick orava com as mãos dispostas sobre a oferenda. Seus olhos eram órbitas negras e sua voz já não mais lhe pertencia. Seu cântico era o de línguas mortas, de potestades ausentes e de cinza e alumínio e o fim do mundo. Ele era um receptáculo e um canalizador. E ele olhava para o oeste.

sexta-feira, 15 de março de 2019

V5 - Dante & Ingrid



O Nosferatu curvou-se diante do notebook, lambendo os beiços teatralmente, deixando a mostra os dentes tortos e amarelos. A tela exibia vários terminais diferentes, cada um uma serpente, um predador a espera do momento oportuno para o bote.


Dante aguardou pacientemente o retorno de seus pequenos espiões digitais, e quando a resposta chegou, enviou uma mensagem para sua assistente.


“Game on”


Ele disparou a rotina de monitoramento e ouviu um telefone tocar três vezes antes de ser atendido. A voz adocicada de Ariel iniciou o ataque.


“Boa noite, me chamo Vivian e ligo em nome da operadora Oi. Gostaria de falar com-” (interrompida)


“Eu não quero comprar nada.” Disse uma mulher rouca e insatisfeita por ter sido incomodada.


“Não estou vendendo nada senhora. Você por acaso se chama Eva? Devido a uma mudança de planos sua fatura vai ficar mais barata. Só preciso confirmar uns dados com a proprietária.”


“Ok, sou eu.”


Game over, pensou Dante. Era início da noite e o ancião se sentia extremamente sonolento e vazio. As letras brancas no display se misturavam quando sua mente vagava por mais que um instante. Alguma coisa estava mudando, alguém o estava chamando. Alguém perigoso.
“Eu preciso que a senhora clique no ícone que apareceu na área de trabalho duas vezes. Na nova tela ele vai pedir pra que você digite a senha de seu roteador, que está num adesivo embaixo do aparelho”


A garota era jovem, mas levava jeito pra coisa. Jovens aprendem rápido demais.


Um dos terminais do notebook saltou para a frente da tela com as credenciais de acesso gentilmente cedidas pela senhora Eva. O veneno surtia efeito e os logs do sistema-vítima eram rapidamente clonados.


“Muito obrigado e tenha uma boa noite. Peço que a senhora aguarde um instante para avaliar a chamada. No próximo mês sua fatura já virá com o desconto.”


Fim da chamada. Fim da resistência. Dante digita sem dificuldade os parâmetros do ataque final.


msf> ../ msfvenom logRetriever.py -Ss -Sn 0 Eva0 Eth0 pbloom.ssh


O instante antes da confirmação do sucesso carrega em si todo o peso do mundo. A ansiedade salta e os pulmões podres buscam inutilmente por ar. Vazio e medo fagulham até o surto de adrenalina correr pelas veias.  O Nosferatu batuca a mesa com as pontas dos dedos e, quanto o resultado aparece na tela, o segundo de êxtase que o toma quase faz com que ele esqueça que está completa e verdadeiramente morto.


“Pegamos o filho da puta” diz a mensagem de sua aprendiz. Ela já está lançando a próxima etapa do ataque, referenciando os registros do cartão de crédito da mãe do dono de um dos maiores sites de revenge porn do Brasil com os dados usados para alugar os servidores de hospedagem na Croácia.


Dante se reclina sobre a cadeira e imagina os nós na rede que levam o computador de uma secretária aposentada até os confins mais sórdidos da pornografia amadora. Eva certamente não sabe de nada, mas isso não importa. Com os dados em sua tela, ele dispara o programa que gera os relatórios e os envia para para a polícia federal por meio de um conjunto de camadas que passa por 17 países cujas legislações são tão radicalmente diferentes que tentar rastreá-lo levaria anos, na melhor das hipóteses.


Sua cliente estaria satisfeita e lhe devia um favor. Uma semana de pesquisa, uma ligação, uma guerra contra oponentes desarmados. Sempre existe um elo frágil, e em noventa e nove por cento dos casos, esse elo frágil usa Windows desatualizado.


“Vou ir tomar um lanche. Avisa se quiser que eu traga alguém da rua”. Diz a última mensagem de Ariel. Uma moça de classe, certamente.


Ele não responde. Ainda haviam muitos negócios a serem tratados essa noite. Três mensagens. A velha bruxa dizia alguma coisa sobre o fim do mundo e cristais de Feng Shui. A Baronesa queria uma reunião urgentemente para discutir planos para uma guerra que está para acontecer desde que algum português bêbado aportou em Vera Cruz. Ingrid simplesmente disse ‘me chame‘.


Ingrid era a prioridade, sempre. Ele ligou para o chefe de segurança e pediu para que ele deixasse a visitante subir. Dante gostava de charadas e Ingrid era uma bastante difícil de decifrar. Desligou o notebook e a tela, agora escura, refletia sua face distorcida.


O Nosferatu roçou sua bochecha quitinosa com as unhas. A pele era seca e frágil, e mesmo um leve toque fazia com que pús e fedor o permeassem.  Seu nariz era comprido, torto, quebrado umas tantas vezes em vida e outras tantas em morte, e seus olhos amarelos e diminutos o denunciavam como um eterno predador.


A porta do escritório se abriu, e a voz baixa e arrastada da visitante se fez presente “Saudações, rei rato. Trago-lhe oferendas.”


Ingrid era jovem, ousada e petulante. Vestia um casaco rosa roubado e jeans. O cabelo claro era ocultado pelo capuz e o pescoço pelo cachecol. Não fazia frio. Ela tirou as mãos dos bolsos e fez uma referência lenta e teatral, ainda curvada, levantou o rosto e sorriu. “O senhor fede como a peste. Em minha próxima visita, minha oferenda será de detergente”.


“Ingrid, querida” disse Dante, pausando em cada sílaba e medindo a reação da Malkaviana. “Ainda não tive oportunidade de lhe agradecer por nossa última conversa. Permita-me não destruí-la como forma de pagamento.”


Ele sorriu. Ela não.


“É muita gentileza de sua parte, meu bom senhor. No entanto, para a conversa desta noite será necessário um pagamento mais...tangível”.


“Isso irá depender do que você me oferecer, que-ri-da”.


Ingrid sentou-se no chão em uma meia-lótus. Fitou o vazio por um longo instante e sussurrou. “O senhor conhece o sabá?”


Dante, surpreso, levantou algo que em algum momento foi uma sobrancelha. “Mais do que gostaria. Porquê?”


Ingrid, aparentemente surpresa, respondeu “Não importa. Eles foram embora. O senhor lembra da estrela dos pesadelos?”


“A semana dos pesadelos?”


“Não. A estrela vermelha dos pesadelos. Não aquela dos comunistas. Aquela dos indianos”


“Sim. Eu me recordo.”

“Eu sonhei com ela. Lá naquele país dos terroristas. Ela está brilhando lá e o Sabá está indo matar ela, mas os velhos não querem por que eles são comunistas e tem medo dos pesadelos.”


Dante suspirou e mais uma vez agradeceu por ter instalado um sistema de microfones escondidos na sala. Ele precisaria ouvir essa conversa mais algumas vezes no futuro. A memória da semana dos pesadelos ainda lhe era pesarosa. Ele passou várias noites cuidando de seu amigo Abraham e procurando uma maneira de fazer o sangramento e os gritos cessarem. Ele falhou e Abraham se esvaiu. Ingrid continuou:


“Ai eu falei com a bruxa e ela disse que isso era porque pro diabo se reza olhando pro oeste, o que faz sentido, se você for pensar bem. Ela não reza pro diabo por que ela é bruxa e as bruxas só rezam pra terra. Você tem rezado pro diabo, senhor-Rei-roedor?”


O Nosferatu sorriu. Francisca, a bruxa Malkaviana que deve ser a vampira mais velha dessas terras, não sente o chamado. Ou talvez sinta e não perceba.


“Eu não sou comunista.” Respondeu Dante.


“Ah. E também” disse  Ingrid “tinha um primo seu vindo buscar quem não fosse pra lá. Acho que chama Tuco. Nick Tuco.”


Dante, movendo-se rápido demais para que olhos jovens pudessem observá-lo, girou a chave de segurança embaixo da mesa e digitou a senha de doze dígitos. Grades pesadas caem sobre as janela de ambos os lados, bem como sobre a porta, e  um notebook começou a bipar insistentemente sobre a mesa próxima. Dante saltou para a cadeira próxima e inseriu a senha de desbloqueio da máquina. Ingrid protestava pela falta de atenção, mas o Nosferatu encontrava-se em outra realidade.


ShrekNET já não mais existia, mas a mão armada do clã ainda espreitava cantos obscuros da rede. Dante lançou hideByMe, o programa que é responsável por checar as entradas e saídas dos terminais de seus aliados. Um a um, todos retornaram resultados positivos. O vampiro suspirou aliviado. As máquinas dessa rede precisam ser reativadas com uma senha cuja cifra só o clã conhece, caso alguma falhe, toda a rede é notificada. Seus aliados estavam (presumivelmente) seguros, pelo menos por enquanto.


Ingrid continuava “E aí eu disse pro guri que malkaviano não era bagunça e enfiei a cara dele no asfalto. Ei, posso ir embora?”


Dante retornou a sua mesa principal e inseriu o código de liberação da porta principal.


“Obrigado querida. Você me deu muito no que pensar. Por gentileza, diga a senhora Francisca que preciso conversar com ela. Sobre o fim do mundo e essas coisas.”

“Ah, digo sim, ela vai ficar bem feliz. Fim do mundo tem sido o assunto favorito dela nessa semana. Boa noite senhor Dante, é sempre um prazer fazer negócios com o senhor.”


Ela acena levemente e sai. Dante aciona as grades de proteção da porta novamente. Com o telefone em mãos, cancela todos os outros compromissos da noite e envia uma mensagem a Ariel.


“Tenho um novo alvo. Base64. As instruções vão estar lá quando você chegar. Não volte pra cá até que eu diga que é seguro.”  

A Malkaviana responde em poucos momentos “OMW”. On my way. O Nosferatu, só e preocupado, ativa o hideByMe uma vez mais.

sexta-feira, 3 de novembro de 2017


A Saga de Oslo

Saudações do Lasombra aposentado que não sabe dar nome pra textos.
Essa história existe por que o Youtube me levou pra uma música do Raul Seixas que me fez pensar em um Malkaviano Chinês que por acaso era um sábio e que por acaso era uma borboleta. 
Ela existe também por que eu estava entediado e por que queria ver se ainda conseguia escrever alguma coisa - e como tudo na vida é drama, a história também envolve um Salubri gay, um amor perdido, uma cidade em chamas e essas coisas. 

     ...


Era julho de 83 e Oslo queimava.

Sete bandos - as águias do sangue, a fúria escarlate, o martelo de Kiev, as valquírias de Satan, os fogo-fátuos, a hoste sanguinolenta e é claro, meu próprio bando de guerra, o abraço de Caim, haviam ancorado neste país estrangeiro quinze dias atrás. Por intermédio das maquinações e espionagem das valquírias, havíamos interceptado comunicações e identificado alvos.

Eu liderava a operação, e como tal, fiz com que a capela tremere fosse violada e destruída até que a ultima gota do sangue dos usurpadores fosse drenada. Havia sido, é claro, uma batalha custosa.
A hoste sanguinolenta, formada principalmente pela juventude de São Petersburgo, havia sido aniquilada pelo bispo (ou algo equivalente) Brujah. Doze soldados reduzidos a farrapos e tripas em um piscar de olhos antes que meu sacerdote, Liang, pudesse chamar a noite e o terror dos desmortos e controlar a fúria do cainita.

Ele morreu gritando, como era de se esperar. Quando os braços do abismo partiram seu corpo débil, e seu sangue ancião jorrou, nós celebramos. A chuva de vitae renovou o vigor de meus soldados, e quando chutamos a porta do salão de guerra (ou algo equivalente), usamos a força do sangue e a força da carne para esculpir uma obra grandiosa com os Toreador que se recusaram a abandonar a cidade. As águias de sangue são, de fato, os melhores artesões da terra mãe. A carne dos condenados provou-se macia e açucarada, e fizemos deles um altar e um presente a nossa biscopisa, sagrada e idolatrada senhora Verminal.

Que seu doce nome leve terror a todas as almas, que sua forma profana seja a última visão de todos os condenados.

Agora, lambíamos nossas feridas e contávamos os cadáveres. Eu sabia que Yosef, meu amante e confidente, havia caído - eu senti meu coração torcer e gritar com seu último suspiro, e eu o odiava e amava ainda mais por ter finalmente ido pra longe de mim.

O sacerdote de meu bando, um malkaviano tão sábio e doente quanto só eles sabem ser, estava removendo com uma faca os ossos das mãos dos carniçais abatidos no ultimo embuste. Ele ria nervosamente, e a pintura de guerra em sua face havia sido arruinada pelo sangue e as tripas da trupe débil que ousou se opor a legítiva fúria de Caim. Ao redor dele, outros sacerdotes de bandos menores meditavam em círculo. Liang era da lua, mas seu domínio sobre a forma da noite o tornava objeto de adoração entre os místicos do clã e casa das sombras - Ele pertencia a noite e o abismo a ele sussurava.

Kammus, meu batedor, retorna. Ele traja um terno arruinado e sua face está tão arruinada quanto de costume. Seus poucos fios de cabelo remanescentes haviam sido queimados até a raiz, e sua face era uma mescla de puz e feridas fétidas e cartilaginosas. Suas mãos terminavam em garras rubras e uma estaca de aço atravessava seu peito. Ele pigarreou antes de reunir forças para falar.

"Meu Ductus, as forças de defesa da cidade dirigiram-se ao porto conforme planejado, e a fúria escarlate detonou os explosivos nos barcos demarcados. Um dos ratos sobreviveu a explosão, mas fomos capazes de subjulgálos. Sinto informar que Yosef caíu no combate. Ele agarrou o Nosferatu e ordenou que atirássemos, pois era o único capaz de ver além da ofuscação do verme. Sinto muito, meu Ductus, mas não cabia a nós questionarmos as ordens de nosso irmão."

Suspiro. Yosef caiu como viveu, em paz somente em guerra, lutando e sangrando por Caim, pela Santa Espada e pela Mãe Russia. Eu o amava mais agora do que em qualquer momento anterior, e nossos cem anos de taça e rito, de laço e paixão, significavam mais agora do que significaram em qualquer momento anterior. Ele era o guerreiro de meu bando, o Lasombra que esculpiu a si mesmo como a mais fatal das armas, que possuia o mais doce dos beijos e que era o mais devoto dos soldados.

Kammus, é claro, aguardava um parecer meu. Mas não consigo. Eu possuo a visão e ela me possui. Em meu legado, residem os segredos do que poderia ter sido, se eu não houvesse falhado. Eu vejo os futuros impossíveis, vejo as noites com meu amor e as promessas que nunca proferiríamos. Vejo o fim de nossa guerra e nosso tempo de vitória. Vejo o sangue jorrando em largas fontes e a Espada de Caim reinando sobre nossos avós mortos.

Saulot, pai e patrono, cega-me nem que seja só por hoje. Só hoje, meu pai, eu não quero mais ser eu.

Chamo o sangue e me recomponho. Não sei dizer quanto tempo se passou. Kammus ainda aguardava, em pé, meu próximo comando. Liang estava a debandar a horda de sacerdotes que o impertinavam, com um novo colar feito de intestinos e ossos de dedos alheios. Ele sorria e clamava por deuses cujo nome eu desconhecia - Fimbultýr, Hárr,Hrafnáss. Era um ritual, claro, mas um a qual eu era ignorante.

Chamo a força que ainda existe em mim e me dirijo a meu batedor.

"Somos gratos por ter serviço, batedor. Hoje este reino está em chamas em nome de Caim. Amanhã iniciaremos os planos de expansão. Envie rádio para Moskow e os informe do sucesso da empreitada - os abutres vão exigir seu quinhão. Informe-os de nossas perdas e requisite os serviços dos irmãos alemães para a expansão da campanha. Se o cálice da carne e a chaga e cicatriz se unirem a hoste, tomaremos o país antes do fim do ano."

O batedor sorriu (creio eu). Ele se retirou sem se despedir, e eu me deitei na piscina de corpos e tripas que há poucas horas atrás  constituia meia duzia de Tremeres.

Yosef, meu guerreiro, meu amor, eu sentirei sua falta. Acaso não és tu meu guardião? Não sou eu teu irmão?

Fecho meus olhos de carne e tento em vão selar o olho de minha alma. Mergulho em um turbilhão de memórias que não me pertence, e vejo o que meus pais e avós sacrificaram para que eu tivesse essa oportunidade. Eles me fizeram punhal de Caim, e não cabe a mim nada que não vingança. Eu sou Salubri. Eu Sou Salubri desde que acordei para a Verdadeira Vida. Mas ainda assim, por que me sinto tão sózinho?

Sinto dedos cheios de calos tocando minha face e por um instante, odeio tudo que existe no mundo. Abro os olhos de carne rugindo e em um instante sinto meu ódio morrer. Meu sacerdote estava de joelhos do meu lado, rezando por mim em sua língua alienígena.

"Nós o adoramos nesta noite, como adoramos teus filhos;
Adoramos tuas filhas e tua carne, adoramos teus olhos que nos guardam;
Nós o chamamos, pai dos mortos, e consagramos a ti nossa vitória;
Pois os ingratos entre teus filhos agora sangram e choram, e morrem e sofrem;
Nós adoramos tua forma de carne e tua alma imortal;
E adoramos teu poder e teus dons desmortos;
Dá-nos a cura, pai, dá-nos a fúria, pai, para que sejamos hoje e sempre, Uma Espada."

"Uma Espada", respondo, antes de fechar os olhos novamente. Meu sacerdote escorre sua mão imunda por meu peito e ouço seus risos nervosos violarem a santidade oblíqua daquele momento de dor e triunfo.

"Ductus, líder, coração de minha guerra - o que te perturba? Quando sangue deve ser derramado para que sua fúria seja saciada?"

Sua voz era trêmula e nervosa. Eu não o via, mas conseguia contemplar seu espírito perfeitamente. Havia um leve resquicio de ordem em sua aura, como se um caleidoscópio de ondas coloridas fosse de encontro a uma costa irregular. Haviam manchas negras e vermelhas também, resquícios de um legado de diableries e de comunhão com o abismo. Eu o adorava e respeitava tanto quanto respeitava qualquer um de meus irmãos, mas duvidava que ele fosse capaz de me confortar nesse momento.

"A batalha foi ganha, sacerdote. Mas o preço foi alto. Perdemos um irmão essa noite" respondo.

"Perdemos algumas duzias, creio eu, e uns tantos outros vão ser devorados por soldados famintos antes do amanhecer", ele retruca.

"Yosef."

Silêncio. Dor. Pronunciar o nome partiu algo em mim, como se a súbida percepção da morte de meu amor finalmente houvesse se consolidado. Sinto um estranho calor quando as lágrimas rubras abandonam meus três olhos. Eu tento falar, me justificar, mas minha voz me abandona e o que normalmente é um trovão soa como um chiado triste e patético. Eu já não tenho mais fôlego, já não tenho mais forças, não sou nada sem aquele que me fortalece e que acende em mim a chama da guerra.

Eu balbucio inutilmente e tudo em mim é perda, miséria e sofrimento. Meu posto, minha honra, minha glória - nada mais importa, eu sou o que sou naquele momento perdido, e tudo que quero é que essa noite nunca tenha existido.

Sinto um toque estranho, em meu peito. Liang estava deitado ao meu lado, em meio aos mortos. Ele apoiou seu queixo em meu ombro e, pela primeira vez desde que o conheci, ficou em silêncio. Sua aura, por outro lado, gritava. Cores que não deveriam existir saltitavam dele para mim e, quando sua boca se abriu, senti seu hálito trazendo verdades profanas e obscuras a minha realidade imediata.

"Certa vez, meu Ductus, meu senhor, antes mesmo de eu estar devidamente morto como todo sacerdote deve estar, eu tive um sonho. Eu sonhei que eu era, de todas as coisas, uma borboleta - Imagine só!
Eu sonhei que viajava pelos campos, voando sobre plantações e pousando sobre flores, absorvendo delas minha força vital. Mas como essas coisas são, um dia eu acordei, e desde então, carrego uma duvida comigo - acaso sou eu teu sacerdote, espada de teu nome, honrado entre aqueles que servem o uno, ou sou uma borboleta, sonhando que sou sacerdote, espada de teu nome, honrada entre aqueles que servem o uno?"

Como era de costume, eu não sabia responder. Liang era, acima de tudo, um Malkaviano, e neles queima a chama do saber de outrora. Suas palavras me conduziam a uma praia com ondas calmas, onde a guerra e o sangue e a perda eram apenas uma lembrança amarga, de outra vida, de outro tempo.

Minhas lágrimas secam e meus olhos se abrem. Viro meu rosto levemente e vou de encontro ao hálito de meu confessor.

"Tua sabedoria é bem vinda, sacerdote. A dor que existe em mim é uma dor de uma vida que não significa nada. Irei me recompor e retornarei aos planos de guerra."

"Estás enganado, meu Ductus - tua dor é tudo que existe e tudo que é real". Suas palavras são um punhal em meu peito. "Tua dor é a prova de que não és borboleta. Tua dor é tua vida e o sumo de teu ser. Mas não cabe a ti ser consumido por tua vida, pois tú és neto de Saulot, que é irmão de meu pai e o mais sábio entre nós. Cabe a ti ser a lâmina de nossa vingança, cabe a ti ser o punhal no peito de nossos assassinos! Não penses que teu guerreiro morreu sem teu nome nos lábios, Ductus meu! Ele morreu clamando por nossa guerra! Pois ele via, que entre as borboletas e espadas de nosso sangue, haviam aqueles que que pereceriam para manter me nós acesa a chama da guerra! Não vos deixei cair em suas próprias trevas, meu Ductus, pois não há nada que exista que não seja tua guerra!"

Ele vociferava como um maníaco. E cada sílaba que abandonava sua boca penetrava minha mente como uma lâmina aquecida aquecida nas forjas do inferno. Ele estava, é claro, correto - ele é meu sacerdote e nunca caberá a mim questioná-lo. Seu sermão partiu algo em mim e me refez, mais forte, mais são, mais vampiro.

Aquilo em mim que morria era insignificante. Yosef, meu amor, tua vingança se dará no sangue dos profanados. A guerra invade minha mente e com o olho de minha alma vejo chacina e dor. A Noruega irá cair. O Sabá ira reinar.

Por Caim, Pela Santa Espada e pela Mãe Rússia.



sábado, 25 de julho de 2015

Noites Inquietas: Um breve prelúdio

Era julho de 1945 e Os Três meditavam no salão de guerra.

Haringoth, Martelo do Norte, vestia sua pesada armadura noturna e repousava
sobre tentáculos de treva. Os três meditavam no conselho de sombras. Sua face era a de um
cadáver pálido e ossudo, ele não tinha cabelos e seus olhos eram fossos negros e
apodrecidos. Ele era um guerreiro de uma nobre linhagem do clã e casa das sombras, e era
o mais jovem ali presente.

Verminal, Mãe de Monstros, carne da danação e podridão da existência, era a manifestação
do sonho de um louco. Ela não tinha olhos, mas tudo via, não tinha braços, mas a tudo tocava.
Ela era uma massa pegajosa de ossos pueris e protuberâncias cancerosas. Havia uma boca em algum lugar
seu corpo, que constantemente sibilava palavras de poder em línguas perdidas. Era velha e cheirava
a sal.

A terceira, pequenina e frágil, era a união de tudo que havia de vil e cruel no mundo.
Adele, campeã das cortes de sangue, filha do Rimador, nobre de sangue e nome. Tinha cabelos
cacheados e dourados, olhos brilhantes e púrpura e trajava um delicado vestido funerário.
Ela morreu quando tinha dez anos, coisa que aconteceu uns tantos séculos atrás.

Ela não projetava sombras.

Ela não sorria.


Haringoth, inquieto, estalou o pescoço em um giro lento e teatral. Quando abriu a boca,
sombras cativas fugiram de seu hálito. "Meus exércitos queimam lá fora para lhe comprar
essa oportunidade, irmã. Não a desperdice."

Sua voz era fria e carregava consigo a força de um clã. Escuridão líquida escorria de
seus olhos e mesclava-se as carnes magras do rosto criando uma pintura mórbida e senil.

Adele, caminhando em linha reta nas pontas dos pés, com os braços abertos, equilibrava-se
em um jogo infantil. "Irmão meu, alguma vez eu falhei em manter minha parte da barganha? A hoste
será levantada uma vez mais, fortalecida pela pureza e força de nosso Sabá. Nós já vencemos. Você verá."

Verminal gargalhou.

Ao longe, algo morria gritando.

 *****

 Andrew era jovem e sofria de terríveis crises nervosas.

 Era também um dos lideres de guerra mais competentes que o sabá já abraçou.

 Ele estava apoiado entre as vigas do teto de  um prostibulo que fora parcialmente destruído durante os bombardeios a Berlim.

Abaixo dele, sete soldados russos violavam uma mulher alemã. O Brujah estava faminto e ferido. Havia sido
atingido por um morteiro no confronto da noite anterior, pouco depois de enfiar as duas mãos
na garganta de seu senhor e abri-la horizontalmente.

Andrew se concentrou na dor e ordenou que ela o deixasse. Esperou por um instante de silêncio e deixou as mãos se soltarem.

Mergulhou e matou.

*****

Ele teve um nome uma vez. Teve também uma família e sonhos e essas coisas que gente tem.

Não mais.

Ele era agora uma parte quebrada da grande verdade. Carne nos caldeirões mentais dos mestres.

*****


As sagradas fogueiras queimavam por toda Alemanha.

Hardestadt havia caído e a torre de marfim agora era uma pálida lembrança de um inimigo
outrora tido como imbatível.

O sacerdote iniciava o cântico, banhado no sangue de mortos inocentes.

"Dagon, noite escura, manta minha, consagro a ti essa vitória, consagro a ti a chama do Sabá, consagro a ti a morte do mundo"

Dagon, morto e enterrado, sorria. O sacrifício era bem vindo e o sacerdote teve seu pedido atendido.


*****


quinta-feira, 9 de julho de 2015

O guardião de meu irmão

Meu ofício de sacerdote me trouxe até você. Afinal, não sou eu o guardião de meu irmão?

Chamo a treva e faço dela minha veste. Abandono o corpo e mergulho em pensamento. Sou uno com a singularidade que habita os espelhos dos caídos.

Clamo pelo poder invocando uma palavra morta e alcanço a visão. Uma criança esta sozinha e sua mãe esta sofrendo. A mãe sofria por não mais saber sentir e a criança chorava por ter fome e frio.

Extendo meus braços infinitos e toco ambas em realidades as quais elas eram alheias. O sangue se manifesta na mãe, protegendo pensamentos pesarosos e desejosos proibidos.
A criança, indefesa, treme e se encolhe. Eu e a vejo e a beijo e a conforto.

"Tú que és negra em sua semente, que sentou-se a minha mesa e bebeu de minha taça, por que choras? Acaso não se recordas que comungastes com a vontade do rei do firmamento? Tudo que tua alma alcança lhe pertence, pequenina, tudo que teus olhos de artífice imaginam existe em seu interior. Eu sou teu sacerdote, sou seu guardião, e ofereço-lhe minha mão direita. Aceite-a e venha até mim, e juntos questionaremos tuas trevas a cerca de teus tormentos. Tua vontade é soberana em teu corpo. Tú que és mais viva do que eu, levante-se e aceite meu convite."

Ela se agita, confusa. Seus olhos estavam manchados de vermelho e ela soluçava. Eu não sabia mais soluçar ou chorar. Eu estava completa e verdadeiramente morto, uno com a verdade que se esconde atrás dos espelhos.

Joan se levanta, trêmula e nua, e começa a caminhar pelo velho refúgio. Ela virá até mim com seu silêncio e sua mágoa, virá até mim com o amor que sente por minha doce irmã, e eu ouvirei, como sempre faço. Eu a ouvirei e pedirei ao abismo pela sabedoria necessária para servir a minha fiel.

Tomo forma de carne e ordeno que o sangue me aqueça. A fome ecoa em mim e mentalizo antigos campos de romaria. Penso nas grandes mortes e nos festins de carnificina de meus dias de jovem aprendiz.
As fogueiras dos rituais certamente que ainda ardiam, para outros pastores e outros rebanhos, e todos eles sentiam-se tão frágeis e despreparados para a guerra vindoura quanto eu.

A maçaneta gira e a porta de meu templo se abre. Chamo por Dagon por instinto e a luz que havia em mim morre gritando. Minha irmã entra, abraçando a si mesma e clama por meu nome.

Eu respondo criando uma tábula de treva ao lado dela e dizendo "Deite-se, irmã, deite-se e me conte o que te aflige."

Ela obedece. Todos sempre obedecem. Minha vontade não pode ser questionada em meu templo. Ela fecha os olhos e descansa seus dedos entrelaçados por sobre suas pernas lisas e pálidas.

"Perdoe-me por interromper sua meditação, Adalbrecht. Sinto-me confusa e não sei como proceder."

Sua voz era de uma docura doente. Leve e bela como só os jovens sabiam ser. Mordo meus lábios e umedeço as pontas de meus dedos no sangue quente da ferida. Na testa de minha protegida, gravo a runa de Phobos.

"Acaso não sou eu teu guardião, criança?"

Ela começa a falar e eu me faço vontade e oração.

Vestido de festa




Sou forma e movimento. Um eco na carne do firmamento.

Faço-me títere e início o rito. Eu costurava restos de condenados e almejava presentear nossa estimada criança com um belo vestido.

Imagino que ela tenha dificuldade em compreender a magnitude de meu trabalho, e quanto me é custoso esculpir algo que reflita uma carne que eu nunca toquei. Mas é um ritual e rituais precisam ser honrados.

Removo as omoplatas de um bebê mortal com uma carícia. Os ossinhos estalam e se contorcem, eram como manteiga derretendo sobre meus dedos. Ele geme e seus olhos se apertam, incapaz de entender e sentir. Obstruo suas narinas e lábios com pontos em xis e o sangue em meus dedos pinta-lhe a face. Em segundos os pulmões começam a falhar e espasmos suaves o tomam de assalto.

"Obrigado por me conceder sua doce carne, invólucro mortal"

Beijo sua testa e me ponho a devorá-lo. Seu sangue limpo e fino correndo por mim em uma torrente libidinosa de desejos rubros e libertadores. Seu coração cede com gentileza e o embalo em meus braços.

Frio, inerte, tranquilo.

Removo suas pálpebras em um puxão e agradeço-o mais uma vez antes de abandonar o corpo e me dirigir as outras doze crianças em que trabalharia naquela noite.

Perto de mim, o manequim ossudo e quente começava a tomar forma. Armazeno a pele roubada em uma de minhas bocas e faço de minhas unhas garras curvadas. Imagino o produto final e retorno ao trabalho.

Irmã, doce irmã, ficarás satisfeita com meu presente? Será ele a altura das expectativas que nutres? Será ele digno de cobrir sua forma imaculada quando a hora do rito chegar?

Veiga e sua tempestade

Você é o sussurro sublime que anuncia a tempestade, meu amor, é o clarão em minha alma no instante do eco do primeiro trovão que rompe o mar noturno.

Eu, pecadora e culpada que sou, nada posso fazer além de contemplar sua forma doce e frágil, seus olhos disformes e sua inocência estuprada.

Sim, meu amor, roubei de ti tua mortalidade, para lhe dar a eterna singularidade de navegar comigo pelo mar negro do tempo.

Não peço perdão e não imploro por compreensão. Eu não sei sentir culpa. Eu não sei sentir nada que não seja você e me nego a implorar por qualquer coisa que não seja um gemido seu.

Minha Joan, minha criança, minha amante, seja minha nesse instante disforme de dor e libertação, seja minha em minha perversão, seja minha bonequinha indefesa em meu vício cruel e impar. Prove-me e desafie-me a dar mais e mais de mim até que eu seja uma casca seca, oca e debilitada, incapaz de qualquer suspiro que não seja carregado pela lembrança de teu doce aroma.

Você compreende, amor morto meu, como é custoso para mim te pertencer?
Você nunca me compreendeu, nunca sentiu o que eu senti. Nunca soube o que era estar verdadeiramente exposta em toda sua banalidade. E nunca vai saber, meu amor, tranquilize-se, eu lhe protegerei para todo o sempre.

É para mim um esforço hercúleo te tocar. Sua pele rompe meus dedos e faz a besta rugir em mim. Quero seu sexo e quero sua alma, quero te possuir com tudo que há em mim, mas em mim só a morte e dor e mágoa e tormento.

Temos que sempre existirá um vazio em meu peito por saber que você nunca saberá o que significou pra mim ter você comigo. Você, que é bela e jovem e viva de mil maneiras que eu nunca fui, jamais compreenderá o que é ser vil e feroz e errônea pelo simples prazer de assim ser.

E eu te amo, te amo tanto que creio que isso ainda irá me partir em duas, na sua Veiga, sua mentora, e no monstro horrendo e carniceiro que vive a espera da próxima oportunidade de causar dor e sofrimento.

Não tome minha franqueza por fraqueza, criança minha. Nosso fardo e nosso carcereiro. Espero que compreendas que é na noite escura que nosso amor se faz mais forte e que é no sangue que nossos votos nupciais são declarados.

Tú és meu sangue, és minha imortalidade. És tudo que existe de vivo em mim.

Sempre sua,
Veiga

Prelúdio para uma noite de trabalho


Vez ou outra eu me considerava o pior Ductus do mundo.
Eu sei que certamente não sou o pior, já estive na América e vi como aquelas piadas funcionavam, mas porra, não é um trabalho fácil.

Veiga estava puta com alguma coisa. Adalbrecht queria ir para a Grécia visitar um monumento de alguma merda. A novata era uma novata e Cicatriz estava ocupado trabalhando em algo que envolvia criancinhas e tripas.

E Devus estava sumido, pra variar.

Eu gostava do moleque. Era meio mole, meio indeciso, mas ainda era bom em improvisar. Aquele ar de "eu sou inofensivo demais pra que você preste atenção em mim" fazia dele um infiltrador dos melhores e apesar dele ser tão malkaviano quanto qualquer outro malkaviano do sabá, ele sabia raciocinar.

Mas ele sumia o tempo todo e isso me deixava puto. Mandei a novata atrás dele mas duvido que ela tenha muita sorte. Ela anda chorando e sofrendo e fazendo essas coisas que gente que morreu ontem faz.

Sempre culpei a musica dos anos oitenta por isso. Temos uma geração de molengas que ouvem musicas tristes e lamentam as dores da existência nas nossas linhas de frente por causa do The Cure e do The Outra Merda. Mas foda-se, as crianças da oposição são mil vezes mais choronas.

Adele vai nos convocar em breve. É impossível que nenhum bispo tenha ficado no caminho dela em seis meses. Katherine, a templária, me ligou uma semana atrás dizendo pra estarmos prontos pra matar alguma coisa na América do Sul. Tentei aprender o idioma e desisti quando descobri que existiam meia duzia deles e que todos soavam como um peixeiro polonês asmático tendo um infarto.

Meu telefone toca e meu devaneio é interrompido. Joan, a novata. Deixo a campainha vibrar três vezes e atendo.

"Meu Ductus, eu encontrei nosso infiltrador."

Puta merda.

"Conte-me mais, soldado."
"Ele está na Inglaterra, comigo, caçando um imortal. Diz que não pode retornar antes de confrontar seu inimigo."

Puta merda outra vez.

"Quanto tempo?"
"Não sei dizer, meu Ductus, perdoe-me."
"Matem logo e voltem, temos que trabalhar."
"Sim senhor."

Ela desliga e eu puxo um cigarro do bolso. Cogito por um instante agradecê-la por ter feito algo que duvidei muito que ela conseguisse fazer, mas desisto. Não estamos no sabá pra ganhar tapinhas nas costas. Estamos aqui pra fazer guerra.

Absorvo as informações com a fumaça descendo pela garganta. Devus, caçando alguém, tendo inimigos? Estamos em um trem em direção ao inferno e a entropia é a maquinista. Isso não faz nenhum sentido. Eles não são guerreiros, não foram treinados pra isso, o que será que eles tem em mente, ainda mais nas terras da coroa inglesa, onde tudo é procedimento, etiqueta e futilidade?

Envio uma mensagem de texto para um francês escroto que me devia um favor. Ordeno que ele proteja a novata e que tire os dois de lá inteiros. Mando outra pra veiga atualizando o status da missão da criança. Ela me responde um instante depois.

"Se ela se ferir, você morrerá mil vezes antes de eu me cansar de você, amado Ductus."

Não respondo. Sei que ela estava sendo sincera. Sei que cada vez que a recruta se move eu me fodo um pouco mais.

Termino o cigarro e o apago com a sola da bota. Acendo outro.
O telefone toca outra vez, da Alemanha. Meu estômago gela e atendo.

"Lorde Manoel Dias, Rio de Janeiro, Brasil, acusado de alta traição, conspiração e corrupção infernalista. O briefring completo te espera com seu contato no aeroporto Galeão. Reúna seu bando, você tem dois meses."

E silêncio. Apago o segundo cigarro e abandono o refúgio. Preciso matar alguma coisa, preciso ver sangue jorrar. Meu peito queimava e eu sabia que nos próximos dias tudo ficaria pior.

Eu odeio a porra do Rio. Odeio infernalistas e odeio ter que lidar com um bando que esta ocupado demais cuidando da própria não-vida pra poder lutar pra guerra em que se alistaram.

Avisto um ônibus de turismo ao longe. Chamo o sangue e removo uma placa de sinalização. Quando ele se aproxima, salto em direção ao vidro dianteiro e o parto com minhas botas. O metal urra e se contorce horrorizado quando o veículo tomba.

Todos gritam. Eu não.