Mostrando postagens com marcador toreador. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador toreador. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 27 de março de 2019

Patrick & Diana

O casal de mortos dirigia lentamente pela ponte Pedro Ivo Campos. Mesmo a meia noite, o tráfego era lento. A Hercílio Luz brilhava em vermelho e púrpura, e sobre ela, a luz cheia pairava, indiferente ao sofrimento do mundo.

“Bela Lugosi's dead, unded, undead, undead”, disse o rádio. “Grande merda”, respondeu o vampiro.

Sua companheira, Diana, sorriu, exibindo as presas molhadas e vermelhas. No banco de trás, 2 exsanguinados dormiam o sonho dos perdidos.

“Esse lugar me deixa com um gosto estranho na boca. Cinzas e alumínio. Como se o fim do mundo estivesse atrasado e os cavaleiros do apocalipse estivessem reclamando dessa porcaria de trânsito”, disse o sacerdote. Patrick vestia uma jaqueta cinza recém-roubada e jeans rasgados que já viram dias melhores. Ele dirigia com ambas as mãos no volante e estava cansado. A viagem não tinha sido ideia dele.

“Meu amor, estamos de férias. Vamos aproveitar um pouco. Nem é tão ruim assim. Olhe lá, que ponte lindinha. Você não se sente enfeitiçado por ela?” Diana gargalhou. Ela lambeu o sangue que ainda lhe escorria dos dedos como se fosse uma gata e limpou as sobras na longa saia arrastão. Reclinou-se sobre o banco e esticou os braços tanto quanto pode antes de continuar “Logo as meninas vão chegar. Vamos nos divertir horrores. E vamos fazer seu ritual. E vamos adotar crianças e fazer essas coisas todas sorrindo e dançando, por que é isso que férias significam.”

Patrick grunhiu ao contemplar a ponte. Ele não sentia nada. Ele já não sentia nada há muito tempo. O ritual iria acontecer, cedo ou tarde, e isso o irritava. Esse não era o local correto. Diana sabia, mas não se importava. Não existem férias para o Sabá. Não existe nada que não seja a guerra.

Os vampiros permaneceram em silêncio enquanto atravessaram a ponte. Com alguma dificuldade, encontraram uma vaga de estacionamento. Abandonaram o carro e os corpos como presente para quaisquer que fossem os vampiros locais e saíram para a noite.

Não foi difícil encontrar o primeiro componente para o ritual. Guilherme Fritz, Toreador, idiota. Diana havia convencido-o de que eram anarquistas a procura de um novo lar, e que seriam muito gratos por quem quer que os apresentasse a baronesa local. Fritz insistiu que deveriam se encontrar em uma boate LGBTQ, mas desistiu quando Diana alegou ser uma Nosferatu.

Ela não era, é claro. Ela era algo muito pior. Mas o jovem Guilherme não existiria por tempo suficiente para reconhecer seu erro.

O encontro foi marcado para um heliporto no meio da avenida Beira Mar Norte. No caminho, Diana esculpiu seus braços disfarçadamente. Os ossos estalaram levemente quando romperam a pele e a Tzimisce suspirou com as veias estendidas.

O combate foi rápido e brutal. Quando o avistaram, o Toreador acenou e Patrick saltou sobre ele com o punho em riste, rápido demais para que ele pudesse reagir. A força do golpe o fez cair com as costas no chão, e um instante depois, uma estava óssea o perfurou e fez seu rosto ser congelado para sempre no grito doloroso do torpor.

O sacerdote brandiu o Atame, sua adaga de condução de ritos, e a enfiou na boca do vampiro abatido. Ele rasgou a gengiva e com a mão livre arrancou as duas presas. Sangue preto verteu da ferida e o jovem vampiro nada pode fazer para impedir o que se seguiu.

“Pra que lado é o oeste?” Disse Patrick, limpando o sangue da lâmina nas calças.

Diana fechou os olhos e apontou para o mar. “É pra lá, meu amor”.

Patrick ajoelhou-se, abriu o braço esquerdo com os dentes e derramou vitae sobre o concreto do chão. Com a poça que se formou, desenhou os nomes de Deuses mortos e abortados. Chamou-os um a um e eles foram testemunha do início do ritual.



***

Em outro noite, em outro lugar.

Patrick estava nu, exceto pelo colar feito de Guilherme. Sua companheira havia usado o estômago como cordão, e ossos dos dedos torcidos em runas e glifos de proteção.

O Toreador não estava muito contente com a situação. Pedaços dele adornavam vários cantos do altar. Suas pernas e braços não mais lhe pertenciam e a estaca de madeira de lei em seu peito lhe queimava a alma.

Diana, vestindo as sobras de seu jantar, agora era horror-feito-morte. Ela possuía longos chifres curvos e asas de couro preto. Quitina cobria sua forma horrenda e ela era parte inseto e parte Deus.
Seus braços eram terminados em bocas cheias de dentes e entre seus seios, as marcas talhadas pelo Atame do sacerdote pulsavam em um amarelo ocre e pegajoso. Seus quatro olhos eram imensos, focados, cinzentos e mortos, e seus joelhos dobravam-se como se ela estivesse preparada para voar.

Patrick orava com as mãos dispostas sobre a oferenda. Seus olhos eram órbitas negras e sua voz já não mais lhe pertencia. Seu cântico era o de línguas mortas, de potestades ausentes e de cinza e alumínio e o fim do mundo. Ele era um receptáculo e um canalizador. E ele olhava para o oeste.

quinta-feira, 9 de julho de 2015

Veiga e sua tempestade

Você é o sussurro sublime que anuncia a tempestade, meu amor, é o clarão em minha alma no instante do eco do primeiro trovão que rompe o mar noturno.

Eu, pecadora e culpada que sou, nada posso fazer além de contemplar sua forma doce e frágil, seus olhos disformes e sua inocência estuprada.

Sim, meu amor, roubei de ti tua mortalidade, para lhe dar a eterna singularidade de navegar comigo pelo mar negro do tempo.

Não peço perdão e não imploro por compreensão. Eu não sei sentir culpa. Eu não sei sentir nada que não seja você e me nego a implorar por qualquer coisa que não seja um gemido seu.

Minha Joan, minha criança, minha amante, seja minha nesse instante disforme de dor e libertação, seja minha em minha perversão, seja minha bonequinha indefesa em meu vício cruel e impar. Prove-me e desafie-me a dar mais e mais de mim até que eu seja uma casca seca, oca e debilitada, incapaz de qualquer suspiro que não seja carregado pela lembrança de teu doce aroma.

Você compreende, amor morto meu, como é custoso para mim te pertencer?
Você nunca me compreendeu, nunca sentiu o que eu senti. Nunca soube o que era estar verdadeiramente exposta em toda sua banalidade. E nunca vai saber, meu amor, tranquilize-se, eu lhe protegerei para todo o sempre.

É para mim um esforço hercúleo te tocar. Sua pele rompe meus dedos e faz a besta rugir em mim. Quero seu sexo e quero sua alma, quero te possuir com tudo que há em mim, mas em mim só a morte e dor e mágoa e tormento.

Temos que sempre existirá um vazio em meu peito por saber que você nunca saberá o que significou pra mim ter você comigo. Você, que é bela e jovem e viva de mil maneiras que eu nunca fui, jamais compreenderá o que é ser vil e feroz e errônea pelo simples prazer de assim ser.

E eu te amo, te amo tanto que creio que isso ainda irá me partir em duas, na sua Veiga, sua mentora, e no monstro horrendo e carniceiro que vive a espera da próxima oportunidade de causar dor e sofrimento.

Não tome minha franqueza por fraqueza, criança minha. Nosso fardo e nosso carcereiro. Espero que compreendas que é na noite escura que nosso amor se faz mais forte e que é no sangue que nossos votos nupciais são declarados.

Tú és meu sangue, és minha imortalidade. És tudo que existe de vivo em mim.

Sempre sua,
Veiga

terça-feira, 22 de abril de 2014

A controvérsia inerente da arte, Ato I: fiz de ti paleta e cavalete


Existe uma coisa bonita na violência. Uma coisa viva.

O filho da puta agonizava no chão. Chutei a boca dele com tanta força que quase perdi o equilíbrio.
Ele já não implorava mais. Seus gritos haviam se tornado um gemido patético e molhado que se repetia a cada golfada de sangue.

Encosto a ponta do pé-de-cabra na boca aberta e o suspendo no ar. Ele segura o metal quente como se beijasse uma puta. Os lábios se curvam, os olhos, imóveis em pavor estático, encaram o vazio em busca de uma esperança há muito estuprada.

Pergunto-me se ele sabe o por quê de ter recebido minha visita. Duvido que a resposta seja positiva. Tiro a Magnum do coldre e disparo contra uma das pernas do infeliz. Ela treme e se encolhe, depois fica rígida.
O buraco na coxa é uma das coisas mais lindas da criação, estou certo disso. As veias pretas e inchadas, soltas em meio aos ossos maculados e a carne violada, dançam para mim, uma beleza que de todos os malditos, só eu poderia apreciar.

Em um momento de inocência, permito-me viajar na leveza sublime do momento. Sinto as cores, cheiros e texturas, sinto o beijo do calor ferroso da vitae estrangeira e me enamoro por ela. Claro, havia sangue por todo o quarto, mas aquele, misturado a pólvora, o cobre e as vísceras, era meu pequeno altar especial.

Meu corpo oscila e me ajoelho, soltando as armas. Esfrego meu rosto no membro ferido, lambendo a chaga putrefata de minhas blasfêmia.

O gosto é meu carrossel, o cheiro, meu parque. Sou um passageiro que, sem rumo, viaja pelo estase.
Mergulho em seu sabor e me embriago. A essência roubada desce por minha garganta me debilitando e me trazendo o orgasmo da queda do paraíso. Contemplo pedaços de memórias partidas e me torno um ceifador de centelhas.

Deus, se eu não fosse legião, eu seria você.

Interrompo o rito com um suspiro. Lambo a ferida e sinto a carícia do chumbo quente. A pobre criatura gania como um cãozinho atropelado, indefeso perante minha indiferença. Jogo os cabelos pra trás antes de cair sentado ao lado dele. Seguro o pescoço fino, levanto seu rosto e o encaro firmemente. Os olhos estáticos começavam a ficar vazios, os lábios, finas lembranças vermelhas de uma amante de outrora, balançavam debilmente e suas longas madeixas douradas estavam tão empapadas de sangue que pareciam um caldo grudento de fetos abortados.

E que Caim me perdoe pela comparação anterior, mas depois de uma semana na companhia de um sacerdote tzimisce, algumas comparações simplesmente parecem mais adequadas que outras.

Faço um beicinho zombeteiro com os lábios e me esforço na minha melhor imitação de sotaque francês.

" Você sabe por que isso esta acontecendo, não é, mon cher?"

Eu sabia que não. Ele geme. Sorrio por dentro.

" Seu senhor ordenou que você invadisse terras de meu bispo. Que comprasse mortais e os vendesse. Que incendiasse o refúgio de meu Ductus. Ele morreu gritando e eu senti no peito um vazio tão aterrador que sinceramente acreditei que morreria com ele quando soube. Eramos muito próximos, sabe. Coisas do Sabá, você não entenderia, não ainda, pelo menos. Agora eu vou te propor um acordo e você vai aceitar. Pedi um ano de férias do bando pra terminar uma obra, eles entenderam e me deram esse tempo. Minha obra vai ser você. A cada noite vou enfiar esse pé-de-cabra mais e mais fundo no seu cu até ter certeza que você começou a gostar disso. Ai vou parar e enfiar ele na sua garganta. Mas não vai parar por ai. O que você viu hoje foi só o que nós artistas chamamos de conceito. Uma ideia geral sobre o que vai acontecer no decorrer do trabalho. Cada porrada e gemido que eu arrancar da sua carcaça fedorenta vai fazer parte de algo maior. Vai ser minha obra prima. Vai ser a porra do trabalho da minha vida, filho da puta. Vou encontrar cada coisa que em algum momento te foi preciosa e vou trazer aqui pra te fazer chorar e sofrer enquanto as estupro e mato. Quando eu acabar com você, monte de merda, vou ter em mãos um pedaço gosmento de cainita que vai fazer um lorde Tzimisce vomitar e você vai estar sorrindo e batendo palmas, porquê acredite, você vai entender que é melhor sofrer sorrindo pra mim. E não pense que quando o ano acabar vai estar livre. Eu vou te fazer cavar uma cova e te enterrar lá. E você só vai sair quando estiver pronto pra se juntar ao sabá. Ai sim, querido, seu sofrimento vai começar. Vamos ter muito tempo."
 
Os olhos dele viram pra dentro e contemplo uma expressão caricata de horror congelado. Ele desmaia em meus braços e me sinto pronto pra começar a trabalhar.

Será uma longa noite.







quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

A sina dos degenerados


Dorother observava a nova obra de sua cria com muita perplexidade.
"Quero ser um turco sarnento se isso for uma pintura renascentista"
O quadro retratava o dia a dia em um bordel parisiense, meretrizes oferecendo seus dotes a velhos e jovens marinheiros, aristocratas e artesãos, as paredes eram de um marrom horrível e as cortinas tão vermelhas que chegavam a ferir os olhos, pouco a pouco ele começou a identificar as figuras, o velho gordo em trajes de nobre era Haringoth, arcebispo de Frankfurt, a meretriz em seu colo era Maugham, alta sacerdotisa gangrel, o marinheiro que dançava sobre a mesa com uma garrafa de vinho em cada mão era Yorrance, mestre de koldunismo e embaixador das terras do leste, e a mulher escondida atrás da cortina com uma adaga prateada era Bertha, ductus do bando do cálice e da cicatriz.
Era horrivel, simplesmente horrível, era vergonhoso imaginar que sua cria tenha pintado algo tão estupidamente amador, simples, fútil. O que agravava a situação era que não só esse, mas cada um dos ultimos 23 quadros de Yorrlov eram do mesmo nível de incompetência.
Havia algo errado, isso era um fato.
Quando Dorother o encontrou, pintando a santa ceia com os dedos na praça das nações, há quase 15 anos atrás, ele achou que tinha encontrado o mais talentoso de todos os mortais, por meses ele observou o trabalho de Yorrlov com a mais absoluta perplexidade, quando chegou a hora do abraço Dorother sentiu um extase tão grande que imaginou que se a Gehenna viesse e os antediluvuanos o devorassem ali mesmo, ele morreria feliz.
Semanas depois ele percebeu que estava tremendamente enganado, após o abraço Yorrlov se tornou, na melhor das hipóteses, um artista medíocre.
Havia algo errado, algo muito errado, pena que Dorother estivesse deprimido demais para tentar descobrir a solução desse misterio.
Yorrlov voltaria de Berlim na semana que vem, e mais uma vez Dorother teria que fingir que amou a obra , que a achou bela e profunda, e que com certeza sera lembrada pelas gerações futuras como uma das mais belas obras produzida pelos mortos.
Dorother podia ter todos os defeitos do mundo, mas ele jamais iria destruir outra cria.