quarta-feira, 4 de junho de 2014

A história de amor dos mortos: Espinhos do caminho

- Como tem passado teu senhor, criança?
- Com a graça do sangue, ele está em paz, meu lorde. Já há umas tantas décadas peregrinamos pela terra européia. Teus castelos são muito bonitos.
- São monumentos do tempo. Da fragilidade da existência e da efemeridade temporal do ser. Cada uma dessas fortalezas um dia será pó e cada deus e cada templo, uma marca oculta nas entranhas da terra.
- Eu compreendo...Perdoe-me se soei ignorante. Meu caminho é diferente do teu, lorde rimador.
- Não tive a intenção de lhe ofender e por isso peço perdão. Não cabe a um sacerdote questionar a visão de outro.
A mulher sorriu, sua pele amendoada cintilando a meia luz da taverna incinerada. A guerra havia passado por ali antes dos vampiros, e o pouco que restava do telhado rangia em um lamento seco e febril. O vilarejo como um todo era uma pequena coleção de cinzas e murmúrios sufocados. Em um canto ou outro ouvia-se um pássaro perdido, mas, além das poucas manifestações de natureza quase-morta, tudo era desolação.
Vasantasena ajeitou as longas madeixas escuras por trás dos ombros.
- Viestes até mim quando eu chamei, lorde abismal. Não me deves desculpa nenhuma, qualquer outro que compartilhasse de seu entendimento teria ignorado meu apelo.
Derek, um corpo de sombras e duvidas, moveu-se em duas dimensões para a parede próxima.Tentáculos membranosos apoiaram-se em restos de mesas enquanto borbulhavam incessantemente para dentro de si mesmos.
- Tu és filha de carne de um rei, és filha de sangue de um amigo querido. Malkav, o sábio gentil, fala por tua boca de profeta. Não cabe a mim, sacerdote das meia-noites, ignorar teu chamado.
- E mesmo assim, lorde tenebroso, não me agracias com a visão de tua imagem de carne.
O lasombra concentrou-se por um instante e deu uma quantidade incerta de olhos e bocas a sua forma de horror oblíquo. Ele mudava, regurgitando a matéria escura do abismo na face indefesa da criação.
- Perdoe-me, filha de Malkav. É parte de um rito. Meu cárcere se esvaiu de minha memória. Eu sou treva e espelho agora, sou  o reflexo de meu interior. Muito tem de acontecer para que eu possa retornar a forma de corpo.Não é por má vontade que me apresento em minha pureza, é por dedicação e oração.
Ela sorriu novamente, abraçando a si mesma, como se tentasse agarrar o calor que fugia em desespero.
- Como bem dissestes, não cabe a um sacerdote questionar a visão de outro. Se perdoares minha indulgência, acredito que seja hora de discutirmos assuntos de maior importância.
- Como queiras, Vasantasena.
Os dois discutiram por boa parte da noite e da seguinte, refugiando-se dos raios libertadores do sol no abraço da terra. Vasantasena era versada em muitos assuntos que para Derek eram uma tremenda incógnita. Ela soube do ataque a casa do pai tenebroso, ele soube do mesmo acontecimento, anteriormente,  por Boukhelpos, mas não era conveniente discutir estes detalhes com sua companheira. Por mais que lhe fosse querida, a cria de Unmada ainda era ignorante do grande esquema das coisas, e era melhor que continuasse assim.
Ela lhe contou também sobre a poderosa insurreição dos jovens, da quebra dos grilhões e da traição dos antigos.Lhe contou sobre o perigo que sua pequena corria, sobre as ambições de Adele e a conspiração do jovem Hrotger. Sobre as guerras que estavam por vir e os doces espólios da vitória. Derek, no silêncio que a idade lhe trouxe, ouviu cada argumento e cheirou cada emoção. Ele olhou nos olhos do futuro e perguntou ao abismo mais de uma vez se seus temores estavam corretos.
Em sua maior parte, estavam.
Ao fim de um longo discurso, a exausta Vasantasena tinha os olhos carregados de esperança. Pálida pela fome, ela repousava deitada no chão, com as presas em riste e a túnica umedecida pela relva.
- Virás comigo, lorde Derek, virás comigo para a capela dos espinhos, discursar sobre a liberdade que poderemos conquistar, caso não tenhamos medo de tentar?
- Receio que devo prezar pela segurança de minha cria, estimada amiga. Por mais que eu compreenda a sabedoria de tua oratória, meu dever como sacerdote tem prioridade. 
Ela suspirou, e o ar expelido dos finos lábios arianos desenhou uma curva branca e lenta na noite, fumaça de pulmões mortos condensada na frieza do lasombra.
- Se a Camarilla continuar a existir e os anarquistas forem derrubados, não vai haver um amanhã para seu culto, lorde magistrado. Suplico-lhe, reconsidere sua posição.
Derek, uno com a mortalha da noite, escorreu e deslizou para perto de sua aliada. O levante do corpo noturno carregou consigo o pouco calor que aquela taverna esquecida ainda ostentava.
- Digo que não. Tua rebelião  é parte de um plano e bem sabemos quais serão os frutos dela. É um lampejo na noite escura. A Camarilla é água e a anarquia é fogo. Alimente a chama antes de pô-la a prova.
- Falas de um futuro que pode não existir, lorde da mortalha sem reflexo. Eu olho para a frente e só vejo escuridão.
- Fostes tu de meu sangue, profetisa, eu lhe ensinaria a enxergar no escuro. Mas não posso, pois esse não é o desejo da noite e teu sangue sacro seria maculado por aquilo ao qual você nunca pertenceria completamente. Peço que tenhas paciência. E isso eu lhe prometo, malkaviana, por mais doloroso que seja a principio, teu legado irá perdurar em sangue e guerra pelos séculos que virão.
- Guerra você diz, guerra por aquilo que nos é de direito, guerra para quebrar o grilhão do laço. Por que isso se faz necessário, rimador dos  perdidos? Tu me forneces tua palavra e isso é mais do que eu poderia esperar, mas ainda não me sinto satisfeita. Meu senhor não se conformará com a necessidade de derramamento de sangue e permanecerá com a Camarilla. Todo meu clã irá sofrer e definhar nas mãos dele e dos outros sábios. Mais uma vez meus irmãos serão párias, serão tolos enfeitando salões decadentes de horrores jocosos cujo único propósito é manter a chibata ao alcance da carne pueril de seus filhos e netos.
- Não cabe a mim julgar teu senhor, que é mais sábio do que eu. O que me cabe é reafirmar meu compromisso como teu aliado e defensor. Meu clã irá ao teu auxílio, Vasantasena. Os Tzimisce também. Faça de teu discurso um rugido e inflame o coração dos jovens. O mundo esta mudando e eles tem isso a seu favor. Seja chama nas veias daqueles que por muito tempo contemplaram a efemeridade frágil do cárcere. Por duas vidas de homem eu fui prisioneiro do laço e bem sei que ninguém deseja existir acorrentado. Estarei contigo, não em carne, mas em poder. Vá e sirva seu destino, sacerdotisa. Vá e pense em minhas palavras. É um grande momento e o que me resta cumprir meu desígnio das sombras.
- Elas são o teu lugar, Derek, velho entre os jovens. Tenho uma ultima pergunta, se for conveniente.
- De bom grado lhe oferecerei qualquer sabedoria que possuir, Vasantasena.
- Os velhos de teu clã, como aceitarão os jovens de nosso movimento libertador? Serão eles diferentes dos tiranos a quem nos opomos?
- Eles já estão em guerra, posso lhe garantir. A convenção é a justificativa de que precisam. A revolta é esperada por aqueles que observam. Precisam de um nome, e nenhum é melhor do que o seu neste momento, pois ele carrega sangue real e visão. Fogo e água.
-Sinto que sou mais uma das ferramentas a dispor dos estratagemas dos velhos, meu amigo.
Derek, imerso em noite, sussurrou para longe em sua língua morta. A malkaviana sorriu fechando os olhos e em um lampejo de inconsciência, deixou de resistir.
- Será feito como designastes, lorde  rimador.
- Não tema. A lua brilha da noite escura e trás a visão aos de teu augúrio. Estarei contigo quando chegar a hora.
A malkaviana dormiu e ao som de uma palavra de feitiçaria, absteve-se do mundo de seus sonhos. A  forma de sombras circulou o corpo inerte e, com um ultimo suspiro, fez com que um filete de nanquim escapasse de si e penetrasse as narinas da indefesa Vasantasena.
A noite liquida gerada pela tenebrosidade a envolveu como um manto, protegendo-a dos raios fatais do alvorecer. O lasombra desvaneceu e deixou de ser e estar.
                                                            .         .          .
Verso de minha obra, lampejo de meu poder.

Por ti canalizo o invólucro que do sul transborda.

Herdeiro de minha mácula,  eterno cetro de minha vestimenta de rei do firmamento.

Espelho de minha forma, navegante do mar de Vênus, escudo do segredo da perpétua consciência.

Chamo teu nome e o faço com a mão esquerda, Derek dos caídos, sacerdote dos desauridos.

Onde estiveres, Derek das meias-noites, ouça o chamado daquele a quem és consagrado.

Onde estiveres, filho de meu sangue, saibas que na noite, tudo nos é revelado.

Uma espada. Um caminho.
                                     .                                     .                                      .
Derek detestava a terra dos ingleses. Era um dos poucos lugares que lhe causava alguma reação que não fosse absoluta indiferença. Em sua primeira incursão ele havia encontrado um velho sacerdote gaulês que lhe ofereceu alguma sabedoria, mas além deste encontro ao acaso, tudo naquele reino apertado e fedorento lhe causava asco.
Ele era agora um pássaro feito da matéria negra do não-ser, sem olhos ou som. Suas asas eram diminutas lâminas negras, cortando a esmo o céu europeu. Vez ou  outra ele se dava ao trabalho de mergulhar sobre um cainita descuidado, cobrindo-o com a derradeira manta nanquim e fazendo-o dormir para sempre no aperto abismal.
O sangue era um carcereiro cruel com o Lasombra. Mesmo com pouco mais de seis séculos, mortais não o nutriam. Certamente que seu poder pessoal era maior do que de muitos outros com sua idade, mas ainda assim, era um preço alto a pagar.
Ele pousou sobre a abadia da sagrada coroa e escondeu sua forma com um dos poderes do sangue. O vilarejo dormia no horizonte. “Thorns”. Em sete meses, seu plano daria os primeiros frutos e os assamitas seriam acorrentados.
A Camarilla, em seus seis anos, não podia existir sem contestação. Era preciso que as fogueiras da inquisição fossem alimentadas ferrenhamente, com sangue jovem e escuro, e que os velhos tremessem de medo em seus castelos.
Lasombra reinava no mundo morto, Tzimisce liderava a insurreição sobre a carne de sua cria, Saulot, perdido em seus sonhos, esperava pelo momento de retornar.
Saulot, gentil Saulot. Derek não podia compreender como demorou tanto a entender o estratagema. Muitos de seus aliados mais queridos tinham o sangue sacro dos iluminados, e nenhum deles seria capaz de tamanha manobra por si.               
Seja como fosse, o fim almejado chegaria e o abismo devoraria toda criação.
Derek pensou por um instante em sua cria, em todas as tristezas e sofrimentos que teria que  ela iria suportar, em toda a mágoa que nutriria por ele. Sussurrou um dos nove nomes de Dagon e  clamou por quietude.
Era hora de organizar prioridades.
Sua cria precisava ser protegida a todo custo, logo, a insurreição anarquista precisaria continuar a sobreviver a inquisição e a minar os recursos da Camarilla e de seus recém-conquistados aliados Giovanni. Eles precisavam de números e ideologia. De ritos que os unificassem e ordenassem, de uma hierarquia que nunca fosse enfatizada diretamente e de um punho de ferro que os controlasse sem que soubessem. Um tirano seria tão bom quanto qualquer outro, então, por hora, Gratiano e algum koldun fossem suficientes. Eles precisariam de apoio dos outros clãs e precisariam também manchá-los com sangue Tzimisce. O rito da quebra de laço cobraria seu quinhão.
Depois, seria preciso dar tempo ao tempo e garantir que o esforço de guerra não fosse desperdiçado em meio a intrigas e maquinações de cainitas ambiciosos. Quando a civilização humana esquecesse do valor da heráldica e a nobreza de sangue fosse substituída completamente por posse material, quando a comunicação fosse veloz e o deslocamento de grandes exércitos fosse possível em poucos dias, ele chamaria o poder e inflamaria a paixão nacionalista em um país em pedaços, erguendo ali sua fortaleza. A Espanha seria uma escolha lógica se seu desprezo pela aristocracia pudesse ser mantido nos séculos seguintes, mas ela era uma solução de curto prazo. Quando a lâmina da igreja se tornasse cega, o reino todo ruiria. A Germânia, por outro lado, seria muito mais adequada a esse propósito, caso fosse exaurida o suficiente de seu orgulho e poder.
Sim, a Germânia, em um futuro podre e virulento, em guerra contra o mundo, em ruínas. Ela seria a base final de seu poder e a catalizadora do fim. Sua cria, a pequena Adele, seria rainha no mundo morto e ele, sacerdote dos abortados, teria seu merecido descanso.
A oeste,  em outro país, um lorde Ventrue conspirava com seus asseclas. Eles também sabiam do que estava por vir, e se esforçavam para mobilizar recursos e riquezas para os confins da terra. A Mãe Europa estava prestes a se tornar uma gigantesca ferida putrefata na história cainita, e muito precisava ser feito para garantir que algo restasse da convenção.
Em Moscou, uma velha Tzimisce despertou de seu sono com um rugido que calou os céus. Ela chamou a carne molhada da terra para si e tomou forma de cervo. Kella pôs-se a marchar e a matar. Para ela, seria uma longa jornada. Para Derek, mais uma vez perdido na imensidão de seus pensamentos noturnos, seria um eterno embate.
A história cainita estava prestes a se reinventar e ele, lorde rimador, alto sacerdote das meias-noites, seria a força motriz por trás de cada evento. 

Uma espada. Um caminho.


Nenhum comentário:

Postar um comentário