quarta-feira, 4 de junho de 2014

A história de amor dos mortos: Espinhos do caminho

- Como tem passado teu senhor, criança?
- Com a graça do sangue, ele está em paz, meu lorde. Já há umas tantas décadas peregrinamos pela terra européia. Teus castelos são muito bonitos.
- São monumentos do tempo. Da fragilidade da existência e da efemeridade temporal do ser. Cada uma dessas fortalezas um dia será pó e cada deus e cada templo, uma marca oculta nas entranhas da terra.
- Eu compreendo...Perdoe-me se soei ignorante. Meu caminho é diferente do teu, lorde rimador.
- Não tive a intenção de lhe ofender e por isso peço perdão. Não cabe a um sacerdote questionar a visão de outro.
A mulher sorriu, sua pele amendoada cintilando a meia luz da taverna incinerada. A guerra havia passado por ali antes dos vampiros, e o pouco que restava do telhado rangia em um lamento seco e febril. O vilarejo como um todo era uma pequena coleção de cinzas e murmúrios sufocados. Em um canto ou outro ouvia-se um pássaro perdido, mas, além das poucas manifestações de natureza quase-morta, tudo era desolação.
Vasantasena ajeitou as longas madeixas escuras por trás dos ombros.
- Viestes até mim quando eu chamei, lorde abismal. Não me deves desculpa nenhuma, qualquer outro que compartilhasse de seu entendimento teria ignorado meu apelo.
Derek, um corpo de sombras e duvidas, moveu-se em duas dimensões para a parede próxima.Tentáculos membranosos apoiaram-se em restos de mesas enquanto borbulhavam incessantemente para dentro de si mesmos.
- Tu és filha de carne de um rei, és filha de sangue de um amigo querido. Malkav, o sábio gentil, fala por tua boca de profeta. Não cabe a mim, sacerdote das meia-noites, ignorar teu chamado.
- E mesmo assim, lorde tenebroso, não me agracias com a visão de tua imagem de carne.
O lasombra concentrou-se por um instante e deu uma quantidade incerta de olhos e bocas a sua forma de horror oblíquo. Ele mudava, regurgitando a matéria escura do abismo na face indefesa da criação.
- Perdoe-me, filha de Malkav. É parte de um rito. Meu cárcere se esvaiu de minha memória. Eu sou treva e espelho agora, sou  o reflexo de meu interior. Muito tem de acontecer para que eu possa retornar a forma de corpo.Não é por má vontade que me apresento em minha pureza, é por dedicação e oração.
Ela sorriu novamente, abraçando a si mesma, como se tentasse agarrar o calor que fugia em desespero.
- Como bem dissestes, não cabe a um sacerdote questionar a visão de outro. Se perdoares minha indulgência, acredito que seja hora de discutirmos assuntos de maior importância.
- Como queiras, Vasantasena.
Os dois discutiram por boa parte da noite e da seguinte, refugiando-se dos raios libertadores do sol no abraço da terra. Vasantasena era versada em muitos assuntos que para Derek eram uma tremenda incógnita. Ela soube do ataque a casa do pai tenebroso, ele soube do mesmo acontecimento, anteriormente,  por Boukhelpos, mas não era conveniente discutir estes detalhes com sua companheira. Por mais que lhe fosse querida, a cria de Unmada ainda era ignorante do grande esquema das coisas, e era melhor que continuasse assim.
Ela lhe contou também sobre a poderosa insurreição dos jovens, da quebra dos grilhões e da traição dos antigos.Lhe contou sobre o perigo que sua pequena corria, sobre as ambições de Adele e a conspiração do jovem Hrotger. Sobre as guerras que estavam por vir e os doces espólios da vitória. Derek, no silêncio que a idade lhe trouxe, ouviu cada argumento e cheirou cada emoção. Ele olhou nos olhos do futuro e perguntou ao abismo mais de uma vez se seus temores estavam corretos.
Em sua maior parte, estavam.
Ao fim de um longo discurso, a exausta Vasantasena tinha os olhos carregados de esperança. Pálida pela fome, ela repousava deitada no chão, com as presas em riste e a túnica umedecida pela relva.
- Virás comigo, lorde Derek, virás comigo para a capela dos espinhos, discursar sobre a liberdade que poderemos conquistar, caso não tenhamos medo de tentar?
- Receio que devo prezar pela segurança de minha cria, estimada amiga. Por mais que eu compreenda a sabedoria de tua oratória, meu dever como sacerdote tem prioridade. 
Ela suspirou, e o ar expelido dos finos lábios arianos desenhou uma curva branca e lenta na noite, fumaça de pulmões mortos condensada na frieza do lasombra.
- Se a Camarilla continuar a existir e os anarquistas forem derrubados, não vai haver um amanhã para seu culto, lorde magistrado. Suplico-lhe, reconsidere sua posição.
Derek, uno com a mortalha da noite, escorreu e deslizou para perto de sua aliada. O levante do corpo noturno carregou consigo o pouco calor que aquela taverna esquecida ainda ostentava.
- Digo que não. Tua rebelião  é parte de um plano e bem sabemos quais serão os frutos dela. É um lampejo na noite escura. A Camarilla é água e a anarquia é fogo. Alimente a chama antes de pô-la a prova.
- Falas de um futuro que pode não existir, lorde da mortalha sem reflexo. Eu olho para a frente e só vejo escuridão.
- Fostes tu de meu sangue, profetisa, eu lhe ensinaria a enxergar no escuro. Mas não posso, pois esse não é o desejo da noite e teu sangue sacro seria maculado por aquilo ao qual você nunca pertenceria completamente. Peço que tenhas paciência. E isso eu lhe prometo, malkaviana, por mais doloroso que seja a principio, teu legado irá perdurar em sangue e guerra pelos séculos que virão.
- Guerra você diz, guerra por aquilo que nos é de direito, guerra para quebrar o grilhão do laço. Por que isso se faz necessário, rimador dos  perdidos? Tu me forneces tua palavra e isso é mais do que eu poderia esperar, mas ainda não me sinto satisfeita. Meu senhor não se conformará com a necessidade de derramamento de sangue e permanecerá com a Camarilla. Todo meu clã irá sofrer e definhar nas mãos dele e dos outros sábios. Mais uma vez meus irmãos serão párias, serão tolos enfeitando salões decadentes de horrores jocosos cujo único propósito é manter a chibata ao alcance da carne pueril de seus filhos e netos.
- Não cabe a mim julgar teu senhor, que é mais sábio do que eu. O que me cabe é reafirmar meu compromisso como teu aliado e defensor. Meu clã irá ao teu auxílio, Vasantasena. Os Tzimisce também. Faça de teu discurso um rugido e inflame o coração dos jovens. O mundo esta mudando e eles tem isso a seu favor. Seja chama nas veias daqueles que por muito tempo contemplaram a efemeridade frágil do cárcere. Por duas vidas de homem eu fui prisioneiro do laço e bem sei que ninguém deseja existir acorrentado. Estarei contigo, não em carne, mas em poder. Vá e sirva seu destino, sacerdotisa. Vá e pense em minhas palavras. É um grande momento e o que me resta cumprir meu desígnio das sombras.
- Elas são o teu lugar, Derek, velho entre os jovens. Tenho uma ultima pergunta, se for conveniente.
- De bom grado lhe oferecerei qualquer sabedoria que possuir, Vasantasena.
- Os velhos de teu clã, como aceitarão os jovens de nosso movimento libertador? Serão eles diferentes dos tiranos a quem nos opomos?
- Eles já estão em guerra, posso lhe garantir. A convenção é a justificativa de que precisam. A revolta é esperada por aqueles que observam. Precisam de um nome, e nenhum é melhor do que o seu neste momento, pois ele carrega sangue real e visão. Fogo e água.
-Sinto que sou mais uma das ferramentas a dispor dos estratagemas dos velhos, meu amigo.
Derek, imerso em noite, sussurrou para longe em sua língua morta. A malkaviana sorriu fechando os olhos e em um lampejo de inconsciência, deixou de resistir.
- Será feito como designastes, lorde  rimador.
- Não tema. A lua brilha da noite escura e trás a visão aos de teu augúrio. Estarei contigo quando chegar a hora.
A malkaviana dormiu e ao som de uma palavra de feitiçaria, absteve-se do mundo de seus sonhos. A  forma de sombras circulou o corpo inerte e, com um ultimo suspiro, fez com que um filete de nanquim escapasse de si e penetrasse as narinas da indefesa Vasantasena.
A noite liquida gerada pela tenebrosidade a envolveu como um manto, protegendo-a dos raios fatais do alvorecer. O lasombra desvaneceu e deixou de ser e estar.
                                                            .         .          .
Verso de minha obra, lampejo de meu poder.

Por ti canalizo o invólucro que do sul transborda.

Herdeiro de minha mácula,  eterno cetro de minha vestimenta de rei do firmamento.

Espelho de minha forma, navegante do mar de Vênus, escudo do segredo da perpétua consciência.

Chamo teu nome e o faço com a mão esquerda, Derek dos caídos, sacerdote dos desauridos.

Onde estiveres, Derek das meias-noites, ouça o chamado daquele a quem és consagrado.

Onde estiveres, filho de meu sangue, saibas que na noite, tudo nos é revelado.

Uma espada. Um caminho.
                                     .                                     .                                      .
Derek detestava a terra dos ingleses. Era um dos poucos lugares que lhe causava alguma reação que não fosse absoluta indiferença. Em sua primeira incursão ele havia encontrado um velho sacerdote gaulês que lhe ofereceu alguma sabedoria, mas além deste encontro ao acaso, tudo naquele reino apertado e fedorento lhe causava asco.
Ele era agora um pássaro feito da matéria negra do não-ser, sem olhos ou som. Suas asas eram diminutas lâminas negras, cortando a esmo o céu europeu. Vez ou  outra ele se dava ao trabalho de mergulhar sobre um cainita descuidado, cobrindo-o com a derradeira manta nanquim e fazendo-o dormir para sempre no aperto abismal.
O sangue era um carcereiro cruel com o Lasombra. Mesmo com pouco mais de seis séculos, mortais não o nutriam. Certamente que seu poder pessoal era maior do que de muitos outros com sua idade, mas ainda assim, era um preço alto a pagar.
Ele pousou sobre a abadia da sagrada coroa e escondeu sua forma com um dos poderes do sangue. O vilarejo dormia no horizonte. “Thorns”. Em sete meses, seu plano daria os primeiros frutos e os assamitas seriam acorrentados.
A Camarilla, em seus seis anos, não podia existir sem contestação. Era preciso que as fogueiras da inquisição fossem alimentadas ferrenhamente, com sangue jovem e escuro, e que os velhos tremessem de medo em seus castelos.
Lasombra reinava no mundo morto, Tzimisce liderava a insurreição sobre a carne de sua cria, Saulot, perdido em seus sonhos, esperava pelo momento de retornar.
Saulot, gentil Saulot. Derek não podia compreender como demorou tanto a entender o estratagema. Muitos de seus aliados mais queridos tinham o sangue sacro dos iluminados, e nenhum deles seria capaz de tamanha manobra por si.               
Seja como fosse, o fim almejado chegaria e o abismo devoraria toda criação.
Derek pensou por um instante em sua cria, em todas as tristezas e sofrimentos que teria que  ela iria suportar, em toda a mágoa que nutriria por ele. Sussurrou um dos nove nomes de Dagon e  clamou por quietude.
Era hora de organizar prioridades.
Sua cria precisava ser protegida a todo custo, logo, a insurreição anarquista precisaria continuar a sobreviver a inquisição e a minar os recursos da Camarilla e de seus recém-conquistados aliados Giovanni. Eles precisavam de números e ideologia. De ritos que os unificassem e ordenassem, de uma hierarquia que nunca fosse enfatizada diretamente e de um punho de ferro que os controlasse sem que soubessem. Um tirano seria tão bom quanto qualquer outro, então, por hora, Gratiano e algum koldun fossem suficientes. Eles precisariam de apoio dos outros clãs e precisariam também manchá-los com sangue Tzimisce. O rito da quebra de laço cobraria seu quinhão.
Depois, seria preciso dar tempo ao tempo e garantir que o esforço de guerra não fosse desperdiçado em meio a intrigas e maquinações de cainitas ambiciosos. Quando a civilização humana esquecesse do valor da heráldica e a nobreza de sangue fosse substituída completamente por posse material, quando a comunicação fosse veloz e o deslocamento de grandes exércitos fosse possível em poucos dias, ele chamaria o poder e inflamaria a paixão nacionalista em um país em pedaços, erguendo ali sua fortaleza. A Espanha seria uma escolha lógica se seu desprezo pela aristocracia pudesse ser mantido nos séculos seguintes, mas ela era uma solução de curto prazo. Quando a lâmina da igreja se tornasse cega, o reino todo ruiria. A Germânia, por outro lado, seria muito mais adequada a esse propósito, caso fosse exaurida o suficiente de seu orgulho e poder.
Sim, a Germânia, em um futuro podre e virulento, em guerra contra o mundo, em ruínas. Ela seria a base final de seu poder e a catalizadora do fim. Sua cria, a pequena Adele, seria rainha no mundo morto e ele, sacerdote dos abortados, teria seu merecido descanso.
A oeste,  em outro país, um lorde Ventrue conspirava com seus asseclas. Eles também sabiam do que estava por vir, e se esforçavam para mobilizar recursos e riquezas para os confins da terra. A Europa estava prestes a se tornar uma gigantesca ferida putrefata na história cainita, e muito precisava ser feito para garantir que algo restasse da convenção.
Em Moscou, uma velha Tzimisce despertou de seu sono com um rugido que calou os céus. Ela chamou a carne molhada da terra para si e tomou forma de cervo. Kella pôs-se a marchar e a matar. Para ela, seria uma longa jornada. Para Derek, mais uma vez perdido na imensidão de seus pensamentos noturnos, seria um eterno embate.
A história cainita estava prestes a se reinventar e ele, lorde rimador, alto sacerdote das meias-noites, seria a força motriz por trás de cada evento. 

Uma espada. Um caminho.


terça-feira, 22 de abril de 2014

A controvérsia inerente da arte, Ato I: fiz de ti paleta e cavalete


Existe uma coisa bonita na violência. Uma coisa viva.

O filho da puta agonizava no chão. Chutei a boca dele com tanta força que quase perdi o equilíbrio.
Ele já não implorava mais. Seus gritos haviam se tornado um gemido patético e molhado que se repetia a cada golfada de sangue.

Encosto a ponta do pé-de-cabra na boca aberta e o suspendo no ar. Ele segura o metal quente como se beijasse uma puta. Os lábios se curvam, os olhos, imóveis em pavor estático, encaram o vazio em busca de uma esperança há muito estuprada.

Pergunto-me se ele sabe o por quê de ter recebido minha visita. Duvido que a resposta seja positiva. Tiro a Magnum do coldre e disparo contra uma das pernas do infeliz. Ela treme e se encolhe, depois fica rígida.
O buraco na coxa é uma das coisas mais lindas da criação, estou certo disso. As veias pretas e inchadas, soltas em meio aos ossos maculados e a carne violada, dançam para mim, uma beleza que de todos os malditos, só eu poderia apreciar.

Em um momento de inocência, permito-me viajar na leveza sublime do momento. Sinto as cores, cheiros e texturas, sinto o beijo do calor ferroso da vitae estrangeira e me enamoro por ela. Claro, havia sangue por todo o quarto, mas aquele, misturado a pólvora, o cobre e as vísceras, era meu pequeno altar especial.

Meu corpo oscila e me ajoelho, soltando as armas. Esfrego meu rosto no membro ferido, lambendo a chaga putrefata de minhas blasfêmia.

O gosto é meu carrossel, o cheiro, meu parque. Sou um passageiro que, sem rumo, viaja pelo estase.
Mergulho em seu sabor e me embriago. A essência roubada desce por minha garganta me debilitando e me trazendo o orgasmo da queda do paraíso. Contemplo pedaços de memórias partidas e me torno um ceifador de centelhas.

Deus, se eu não fosse legião, eu seria você.

Interrompo o rito com um suspiro. Lambo a ferida e sinto a carícia do chumbo quente. A pobre criatura gania como um cãozinho atropelado, indefeso perante minha indiferença. Jogo os cabelos pra trás antes de cair sentado ao lado dele. Seguro o pescoço fino, levanto seu rosto e o encaro firmemente. Os olhos estáticos começavam a ficar vazios, os lábios, finas lembranças vermelhas de uma amante de outrora, balançavam debilmente e suas longas madeixas douradas estavam tão empapadas de sangue que pareciam um caldo grudento de fetos abortados.

E que Caim me perdoe pela comparação anterior, mas depois de uma semana na companhia de um sacerdote tzimisce, algumas comparações simplesmente parecem mais adequadas que outras.

Faço um beicinho zombeteiro com os lábios e me esforço na minha melhor imitação de sotaque francês.

" Você sabe por que isso esta acontecendo, não é, mon cher?"

Eu sabia que não. Ele geme. Sorrio por dentro.

" Seu senhor ordenou que você invadisse terras de meu bispo. Que comprasse mortais e os vendesse. Que incendiasse o refúgio de meu Ductus. Ele morreu gritando e eu senti no peito um vazio tão aterrador que sinceramente acreditei que morreria com ele quando soube. Eramos muito próximos, sabe. Coisas do Sabá, você não entenderia, não ainda, pelo menos. Agora eu vou te propor um acordo e você vai aceitar. Pedi um ano de férias do bando pra terminar uma obra, eles entenderam e me deram esse tempo. Minha obra vai ser você. A cada noite vou enfiar esse pé-de-cabra mais e mais fundo no seu cu até ter certeza que você começou a gostar disso. Ai vou parar e enfiar ele na sua garganta. Mas não vai parar por ai. O que você viu hoje foi só o que nós artistas chamamos de conceito. Uma ideia geral sobre o que vai acontecer no decorrer do trabalho. Cada porrada e gemido que eu arrancar da sua carcaça fedorenta vai fazer parte de algo maior. Vai ser minha obra prima. Vai ser a porra do trabalho da minha vida, filho da puta. Vou encontrar cada coisa que em algum momento te foi preciosa e vou trazer aqui pra te fazer chorar e sofrer enquanto as estupro e mato. Quando eu acabar com você, monte de merda, vou ter em mãos um pedaço gosmento de cainita que vai fazer um lorde Tzimisce vomitar e você vai estar sorrindo e batendo palmas, porquê acredite, você vai entender que é melhor sofrer sorrindo pra mim. E não pense que quando o ano acabar vai estar livre. Eu vou te fazer cavar uma cova e te enterrar lá. E você só vai sair quando estiver pronto pra se juntar ao sabá. Ai sim, querido, seu sofrimento vai começar. Vamos ter muito tempo."
 
Os olhos dele viram pra dentro e contemplo uma expressão caricata de horror congelado. Ele desmaia em meus braços e me sinto pronto pra começar a trabalhar.

Será uma longa noite.







segunda-feira, 21 de abril de 2014

A história de amor dos mortos: prelúdio para uma viagem noturna

Derek sempre sentia que estava esquecendo de alguma coisa que para alguém vivo seria muito importante.
Ele atravessou a rua da metrópole como se nada mais existisse. Invisível aos mundanos, cada cheiro e cor lhe era uma lembrança dolorosa.
Munique era velha e, como todas as coisas vivas, estava morrendo.
“Eu acredito no ódio” Lhe disse sua pequena companheira improvável. Os amantes não vistos pararam por um instante em uma grande praça aberta, de mãos dadas, escolheram um banco protegido das luzes mecânicas da noite e ali permaneceram, Adele no colo de seu senhor.
“ Acredito que já debatemos a respeito em um século passado, minha criança.” Sua voz soou mais melancólica do que ele desejava. Gotas de nanquim sangravam na realidade próxima e as flores apodreciam gritando horrorizadas.
“De fato, meu amor. Na terra dos gregos, quando encontramo-nos com a Helena. A rosa velha. Ela disse-me que somos paixão e fome,  discordastes e fizestes de nossa estadia uma lição. Afirmastes que eramos egoísmo e carne, que a paixão de nosso vício era uma manifestação negativa de algo que fomos quando vivos, caçadores, e que os séculos nos moldavam tanto quanto permitimos. Hoje eu descordo do senhor.”
Derek ponderou. Seus olhos se fecharam e uma voz morta lhe sussurrou pedaços de insanidade. Ele a calou com um abano dos dedos e desejou que houvesse treva.
O pequeno espaço foi tomado de assalto pelas vísceras pretas do mundo caído. A pouca vegetação que resistiu a presença profana da criança morreu gritando. Não havia  som e tempo, e o antigo finalmente sentiu-se em paz. Ele tocou a mãozinha diminuta de sua amada e beijou sua orelha. Ela se eriçou e se esticou, seus cachos dourados roçando o queixo fino do ancião.
“Você diz que somos ódio por ele parecer natural a nossa essência, criança minha. Quando assume tal fato me leva a pensar em um dualismo torto e romântico, em que tenhamos um oposto exato de amor. Creio que isto seja muito improvável. Poucos de nós de fato melhoram ou pioram com o tempo. Deixados alheios a nossas filosofias, permanecemos estáticos, por mais cruéis ou viciosos que sejamos. Criamos os caminhos ou somos levados a eles em uma tentativa desesperada de fugir da estaticidade aterradora de nossa maldição peculiar. O culto ao sangue, a carne, a noite... Cada um tem suas promessas, mas sabemos que, no fim, fomos nós que criamos uma ordem hierárquica de leis e tradições que mantiveram nossa sanidade e integridade ao longo dos séculos. A chama humana de nossos inimigos, o que seria se não uma negação de nosso eu interior, o ‘self’ daqueles judeus esquisitos dos livros que você tanto ama?”
Adele sorriu e apertou a mão de seu senhor. O toque suave lhe trouxe memórias de outros tempos, de todos os anos malditos que passaram distantes por todos os motivos errados do mundo.
“Creio que não me expressei adequadamente, meu Derek.” Uma pequena pausa, um comando mental para um escravo em outro continente. “Acredito no ódio por que é ele que sinto em mim quando chamo o poder. Em algum momento eu fui uma criança oca, um pedaço de um nada. Esses judeus esquisitos que tanto desprezas tem teorias das mais interessantes a esse respeito. Somos moldados pelo meio, enquanto vivos, enquanto mortos, temos a perda deste molde  de forma gradual, e o definhamento não é atenuado pelas filosofias de morte, como dissestes, ele é disfarçado. Você se lembra do nome de sua mãe de carne? Certamente que isso foi importante um dia. Certamente que teu ofício de sacerdote e teus muitos invernos de abismo lhe tomaram essas memórias preciosas. Quando eu era jovem, você me confessou que sua mãe lhe deu um cobertor  em uma noite cruel, e que isso acabou matando-a. Por muitas noites, eu rezei escondida, agradecendo sua mãe por isso enquanto dormia em seus braços. Você teria me repreendido se eu tive lhe confessado isso na época, não? Mas estou divagando, perdoe-me. Sua mente é invulnerável a tudo exceto a seu próprio ego. Você escolheu esquecer dessas coisas, e escolheu não esquecer de mim. Você escolheu esquecer das cores do mediterrâneo para que pudesse se maravilhar com elas novamente caso viajássemos juntou outra vez, e escolheu não esquecer jamais de alguém que um dia lhe feriu, mesmo que tenha o destruído em uma era que o tempo engoliu. O mundo não se recorda de Naboslav, o cruel, mas Derek, meu sacerdote, o mataria mil vezes mais porquê isso satisfaria seu ego, mesmo sendo uma negação do caminho. Você, como eu, é amor e ódio, meu Derek, pois estas são as únicas verdades que nos mantém sãos.”
Derek desvaneceu e se fez noite. Seu ser uniu-se a treva conjurada e a engoliu, e ele tornou-se um ser líquido de sombra e horror. Adele seguiu os passos do mestre e tornou-se, também, o espelho do mundo morto.
Ele era uma coisa fria e pavorosa. Uma enorme massa surreal de tentáculos e bocas, com duzias de dentes serrilhados e opacos, e mais surgiam a cada segundo. Ela, por sua vez, era uma boneca monstruosamente  oblíqua, uma criança da noite feita de um breu profano que caçoava das amarras de toda a criação.
A consciência de Derek rugiu além das grades do universo e ao levante de sua voz uniram-se os rangidos das correntes que prendiam deuses abortados na aurora da criação.
“Somos noite, criança. Somos pavor. Você e eu não podemos nos prender as leis e conceitos daqueles menores do que nós. Você é minha rainha e eu sou seu sacerdote. Eu sou a apoteose com a noite e este é seu destino. Todos os jogos e sorrisos e discursos são menores do que a verdade do abismo e bem sabes. Eu sou o cetro do rei do firmamento, você é a  coroa. Não há filosofias ou artes maiores do que nós e bem sabes.”
Derek borbulhou e retomou seu corpo. Mais uma vez, estava nu na noite. Sua amada logo o seguiu, seu vestido delicado pairando sobre a carne macia com duzias de lacinhos vermelhos.
“Adoro quando você fica assim, Sire” Ela sorri e as covinhas de seu rosto trazem um suspiro aos lábios de Derek. “Sabe que não entendo dessas coisas nem metade do que você e que eu juro que já tentei. Você me disse pra esperar o tempo certo, me disse isso já fazem uns quinhentos anos, nunca argumentei. Eu fiz os ritos mesmo quando estávamos longe e eu me ocupei com outras mil coisas. Sei que muito de meu poder vem disso e sei que o senhor me explica tanto quanto pode. Mas as vezes acho que ainda me falta algo fundamental. Eu sinto falta de cada parte humana de mim, e cada vez que jogo esses jogos tolos, me sinto bem. Quando minha templária escova meus cabelos, eu me sinto bem. Quando o senhor me beija e quando navegamos por mares tranquilos, me sinto bem. Não peço que entendas, mas desejo que o senhor não me julgue. Isso pode ser feito, meu Derek?”
“Teu desejo é meu caminho, minha Adele.”
Ele se aproximou lentamente, abrindo os braços suavemente e então envolvendo a criança. Os dois permaneceram abraçados por um longo momento.
“Eu senti sua falta, meu Derek. Você sempre foi tudo de humano que existia em mim. Sempre vai ser. Por mais blasfemo que seja, a noite não é maior do que o afeto que sinto por você. Você me deu amor e ódio, quer admita isso ou não. Entende meu ponto agora? Somos maiores que o ego, somos a feitiçaria profana que nos manteve unidos mesmo depois de tudo.”
Derek se recordou de uma batalha antiga ao lado de uma aliada rancorosa. Em momentos perdidos, ele se sentiu pequeno e frágil. A chama humana queimou-lhe a carne a cada noite que passou longe de sua amada criança.
“O que sou, sou por você, no abismo. Eu não sei mais odiar, minha Adele, mas sei amar. Este é meu propósito na existência, é estar a seu lado. Nossa feitiçaria é uma ferramenta para um fim, e o fim é mais claro agora. Somos um do outro e este é o sentido do ser.”
Ela intensificou o abraço, dedinhos frágeis e brancos uniram-se e tornaram-se rosados pelo esforço. Derek sentia que seu universo inteiro estava a lhe abraçar.
“Será que a velha rosa ainda existe? Eu gostaria de rever a terra dos gregos. Tio Boukhelpos também costumava passear por lá. Talvez devêssemos viajar mais, meu senhor. Tenho tanto a te mostrar.”
Derek ponderou por um instante. Helena há muito havia se escondido. Mas ele sabia onde encontrá-la. O cheiro do sangue era forte naquela terra, mesmo de linhagens tão esquecidas. E quanto a Boukhelpos, sim, seria agradável encontrar o velho guerreiro. Sua ultima conversa havia sido em uma floresta escura da Africa, enquanto caçavam a prole de Montano. Certamente que havia muito o ser aprendido com o filho do tenebroso.
“Teu desejo é nosso caminho, minha querida”
“Vamos parar em meu reino. Preciso lhe apresentar minha templária, é uma criança adorável que passou décadas ouvindo seu nome. Creio que ela tem muito a aprender com o senhor.”
“Será feito. Mas receio que eu precise de um mapa escrito em Latim para planejar a rota. E sem computadores, querida. Eles estão além de minha compreensão.”
“Eu posso cuidar disso, amor meu. Estava me perguntando se você admitiria que odeia computadores.”
O sorriso sarcástico da criança confundiu o Lasombra tremendamente. Ele se sentiu feliz e, por mais de um instante, vivo. Pensou em palavras de poder e desejou uma jornada tranquila. Pensou nos lábios de sua criança e nos beijos que trocariam em lugares perdidos e envelhecidos. Pensou no profeta louco e nas visões que compartilhariam. Pensou em Kella e se certificou de que ela estava morta e enterrada.
“Talvez tenha razão, minha querida. Mas não da maneira que imagina. Eu nunca ofendi um computador. São eles que me odeiam e ofendem. Juro que nunca os provoquei.”
“Existe uma ironia deliciosa nisso, Derek meu. Você já destruiu civilizações por elas terem me ferido, mas é incapaz de vencer um inimigo que não tem braços ou dentes. Entende que precisa mudar?”
“Eu juro que tento” Disse, incomodado, o atônito Derek.
“Daremos um jeito nisso em breve. Será a mais desafiadora das lições que já tive, tenho certeza.”
“Prometa ser paciente, minha cria.”
“Prometo que não matarei nada no treinamento”
Sorrindo, os dois amantes ofuscados deslizaram pela treva, devorando a vida que encontraram no caminho. Adele, feliz por estar sendo, pela primeira vez, a mestra, e Derek, confuso como nunca esteve antes.
Ao longe, um corvo grasnou anunciando a chuva vindoura. O corvo mudou de forma e se segurou desajeitadamente no parapeito. Aisha rastreou o antigo por quase três décadas, e agora finalmente sabia do destino dele.

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Demônios na noite fria

- Creio que lhe matei em nosso ultimo encontro.
- Deveras, me mataste, tenebroso. Vim lhe pedir perdão por minha presunção. Eu era jovem e tolo.
Derek levantou o cetro de rei do firmamento, um fálico pedaço de penumbra apodrecida e, de seu trono de meia-noites, ordenou que se fizesse a treva.
O salão era pedra lisa e cinzenta, o coração da noite fria,  palácio do guardião, fora esculpido em sono e pesadelo. Não haviam velas ou meios mecânicos de claridade, só a grande porta de entrada talhada em rocha virgem e as mais malditas palavras da língua morta.
Ele fechou os olhos e se concentrou em uma memória a muito perdida. A criatura a sua frente, em algum momento que a peste engoliu, levantou espada e palavra contra ele. Eram noites pesadoras de um período roto da cristandade, e ele, sacerdote que era, tornou-se furioso pela negação do absoluto poderio do abismo.
- Eu lhe destruí e viestes pedir perdão?
A coisa sorriu, dentes pontudos e pálidos, impecavelmente belos e ferozes. Era um corpo sem gênero ou vestimenta, humano e falho, de costelas salientes e cabelos longos e acobreados. Os olhos eram duas piscinas cálidas e esverdeadas, e os braços, curtos e firmes, terminavam em mãos pontudas cheias de garras.
- De certo isto é inesperado, acredito, mas ainda assim rogo para que esqueças da desfeita que te fiz, tenebroso.
O lasombra levou a mão livre ao queixo e ordenou que o trono crescesse. Era uma coisa vil, líquida e saliente, da qual transbordavam olhos cegos e apêndices membranosos que teimavam incessantemente em fugir do refúgio da noite fria e levar o terror do mundo-espelho  ao mundo-carne.
- Se não tivesses invadido meu manso, eu nunca mais recordaria de suas palavras ou ações, demônio. Nós não vemos o tempo da mesma maneira, você e eu.
- De fato, não. Foram dois séculos no inferno esculpindo minha forma para que pudesse retornar, e o fiz gritando e chorando, pois este é o quinhão dos derrotados. Uma dor ínfima se comparada a cair do céu, entenda, mas ainda assim um processo nada agradável.
- Compreendo.
Uma longa pausa. Derek não compreendia, nem tão pouco se importava. Ele mais uma vez chamou o escuro e pintou o chão e as paredes de nanquim. Ele não gostava da claridade dos olhos do visitante.
- Entenda, lorde rimador, que meu povo há muito busca contato com seus mestres. Há muito que podemos ganhar na batalha que esta por vir. Uma aliança, o mundo morto e o mundo em chamas, e certamente a vitória será nossa.
Derek considerou as implicações por um instante e usou de um comando mental para dar ordens a seus peões. Pensou em sua cria germânica e se assegurou de que estava protegida, pensou em sua aliada Tzimisce e ordenou que ela se fortalecesse em sangue virgem para o inverno vindouro. Pensou em sua senhora para sempre consumida e sussurrou seu nome. Pensou na promessa do abismo.
"Pois nove são os ciclos da alma, nove são as verdades do abismo, e nove são os legados de teu avô."
- O abismo não tem interesse em negociar com os caídos, demônio. Eu falo pelos mortos quando digo que sua guerra mesquinha não nos interessa. Nós somos a treva que antecede a primeira luz, e somos a treva que reinará quando a chama do demiurgo se apagar. Somos o início e o fim, somos o tudo no nada, somos os rimadores que criaram o verbo e os detentores das nove verdades.
O demônio franziu a testa, descrente.
- Meus senhores não tocam o abismo, mas bem podem tocar esse plano. Não os queremos como inimigos, rimador, propomos aliança e o fazemos com a mão direita, propomos lealdade e o fazemos de livre vontade. Não tome nossa gentileza como meia-verdade.
Derek estalou os dedos e a realidade se partiu.
Fragmentos do escuro vidro derretido caíram em cascata sobre o momento, roubando a cor e a força do demônio. Ele caiu e se contorceu, gemendo e se contorcendo mais uma vez, a procura do tato perdido no mergulho vertical nas eternas trevas do mundo não-nascido. Um trovão ecoou na imensidão escura, um pensamento rimado por mil legiões famintas, um sopro da inteligência ancestral dos deuses abortados.
Derek estalou os dedos novamente, e o som foi um chicote na consciência torturada da criatura que lentamente retornava a existir.
- Você vê, demônio? Temos pouca necessidade de aliança com teu reino.
O demônio vomitava um líquido escuro e pegajoso, pedaços de seu invólucro que se descolaram da pele e dos ossos na curta jornada a casa dos perdidos. Seus olhos e ouvidos sangravam e haviam poros escuros brotando de sua têmpora.
- Perdoe-me pela rispidez, mas é tarde e estou cansado. Creio que seus superiores lhe deram um prazo para conseguir sua aliança, providenciarei-lhe um quarto a altura de sua nobreza, e continuaremos esta conversa nos anos que ainda lhe restarem, Adramelech.
O som do nome fez o demônio se perder em meio ao vômito e tentar gritar, gorfando pateticamente em chiados roucos e sujos. Um circulo púrpura brilhou em volta do demônio que sentiu o pouco que lhe restava ser drenado.
- Vocês gritam seus nomes quando descem a minha casa, gritam a plenos pulmões, ainda que os mesmos sejam falsos. Temo que tenha pouco a aprender de ti, mas gostaria de conversar com teu mestre, se for possível. De qualquer modo, durma e descanse, amanhã terá uma longa noite, convidarei uma amiga para se juntar a nós, uma Tzimisce. Não compreende o que isso significa, não é? - Derek sorriu, pela primeira vez em muito tempo - Ela é uma neta de Eldest, uma das tocadas por sua parente, Kupala. Estes nomes você conhece. Durma bem.
O demônio buscou forças inutilmente, a cada tentativa pífia de movimento, o círculo pulsava e a dor se fazia ainda mais presente. Ele chamou o inferno e não obteve resposta, chamou pelas almas que havia acorrentado e elas se provaram incapazes de se manifestar.
Por fim chamou por deus e, mais uma vez, só obteve silêncio.

domingo, 9 de junho de 2013

Os açougueiros do diabo: Fogueiras da alma, Archotes de Caim. Parte I de III

A noite era uma podridão gosmenta e pegajosa.
Andrew puxou o gatilho do rifle de caça, um suspirou cortou o vento e uma têmpora se abriu.
Ele havia esperado imóvel por um par de horas até que o seneschal voltasse de seu ofício, era alta madrugada e a Turquia queimava com os archotes do sabá.
O comunicador acoplado a seu ouvido piscou e chiou, e a doce voz da assassina lhe beijou com a suavidade de uma velha amante que o tempo matou.
"Meu Ductus, tenho um relatório."
Ele não reagiu. Alguém entrou no quarto do morto. Gritos. Medo. Cheiro de criança da noite. Veiga continuou a falar.
"A Camarilla esta negociando com os anjos de Caim. Estão abandonando a capital e direcionando um exército de carniçais pra cá. Acham que já perderam a cidade e a capela. Nosso espião instalou o transmissor no primógeno Ventrue, o sinal já esta claro. Ele esta em um blindado viajando para o norte com seis cainitas. A rosa branca da Germânia vai interceptá-los em breve. As criaturas de nosso irmão de carne obrigaram círculos de ancillae a redirecionarem seus recursos, tempo e controle sobre toda a mídia e a promover uma chacina disfarçada de revolta popular. Os mortos estão na casa das centenas. Adalbrecht convocou um Tzimisce de Munique e eles estão sitiando uma espécie de templo Assamita com o apoio do bando da chaga e do punhal. Eu estou caçando uma Harpia, precisamos saber a localização de um elísio de apoio. Perdemos cinco neófitos em um confronto com um ancião Assamita. Cicatriz está atrás dele. Minha criança está dominando repórteres em um hospital. Estão transmitindo ao vivo na internet. Está me ouvindo, meu Ductus?"
Ele estava. E estava estático. O Cainita no salão a meia quadra de distância chorava abraçado ao cadáver cinzento e podre. Pela mira amplificada o Brujah conseguia ver as cinzas se descolando das veias pretas e rugosas.
"Uma raspa de caixão" ele sibilou "como eu fui um dia." Veiga chiou do outro lado da linha, mas Andrew era alheio ao apelo de sua Toreador. O cainita desesperado tinha ombros pequenos e rosto franzino, a pela era cor de oliva e os cabelos curtos e cacheados. Seus olhos vertiam manchas vermelhas e seus lábios finos tremiam e oscilavam.
"Matei o senhor de alguém, Veiga. De alguém que eu não conhecia, por qualquer motivo que nunca me importou."
Do outro lado, ouviam-se gritos de pura agonia e a deliciosa risada da ninfeta de Caim.
"Fazemos isso com relativa frequência, meu Ductus, está tudo bem? Precisa de reforço?"
Andrew ouviu algo que parecia ser "eu já disse tudo que sei, por favor me mate" seguido por um som molhado e carmesim que em todas as línguas do mundo significava dor além dos sentidos.
Andrew piscou pela primeira vez na noite e apertou o gatilho. A bala atravessou a base da nuca e abriu a traqueia completamente, e mesmo antes do corpo cair sobre as cinzes finais do Seneschal, o sangue já jorrava.
"Não, não quero ninguém. Lembre-se que a operação é apenas um teste. Mate tudo o que puder. Já temos as informações que precisarmos, só precisamos puxar os Assamitas para a capital. Eles vão prever esse movimento e vão mandar suas crianças. Vamos matá-las e vamos capturar quem quer que esteja liderando o contra-ataque. É deles que precisamos. Mate o que quer que seja que esta gritando ai e una-se a cicatriz. Ataquem o público. Levem uns tiros, sorriam pras câmeras. Eles já sabem que somos nós."
"Entendido, fique bem, meu gatinho, Veiga desligando."
Ele pensou na insubordinação dela por um instante e sentiu o sangue esquentar. Levantou-se em um solavanco e observou a rua seis andares a baixo de seus pés.
Pessoas, gritos, sangue. Uma revolta por algo que lhe era indiferente. Tropas de choque. Cavalos. Pimenta e medo no ar. Era uma guerra, e Andrew era, acima de tudo, um guerreiro.
"Pelo Sabá, por Caim e pela regente."
Um passo curto e ele estava caindo. O voo do Ductus dos açougueiros do diabo terminou em uma sinfonia de ossos partidos e ganidos patéticos. O sobretudo ocre de oficial do Reich lhe dava um tom irreal. Ele cheirava a ódio e a pavor e a matança e a instinto. Um soldado gritou e ele ouviu travas sendo puxadas. Eles logo aprenderiam que era Andrew quem regia a orquestra.
"Olhe para dentro e veja quem você é", lhe disse a voz de seu pesadelo. "Fuja para dentro de si mesmo, como fez quando me matou."
A imagem lhe socou o estômago e lhe roubou o foco. O frio de Moscou. A anciã que lhe deu a morte beijando o cano da espingarda. A ultima maldição. O disparo. O vermelho.
Uma bala raspou a orelha do Brujah, outras três entraram em seu peito. Ele fugiu pra dentro e viu a besta sorrindo com desdém. Era hora de ser tudo o que o sangue lhe deu.
Mais dois tiros pinicaram o açougueiro, e a besta estuprou sua consciência rugindo. Ele cobriu seis metros em um salto e agarrou um cavalo pelo pescoço. Em um instante ele girou sobre os calcanhares e arremessou o animal e seu cavaleiro de encontro a multidão que corria em absoluto desespero. Andrew curvou-se como um animal, saltando, partindo, ceifando o que quer que a colheita de sua irá encontrasse ao alcance. Ele segurou uma mulher pelo calcanhar e a usou como clava enquanto avançava sobre o pelotão.
Alguém Cantava. Alguém sorria. Andrew era um fiel e a carnificina era sua Deusa e sua prece.
Algo lhe tocou nas coxas e queimou até sua alma. Ele não sentiu a dor, não sentiu o medo. Ele não sentiu que o sol estava nascendo. Ele era a morte encarnada.






quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

História de amor dos mortos - Um sonho na noite escura


De pé no salão de sombras, Derek sonhava.

Em algum lugar muito distante havia um velho profeta que pensava nele. Era uma criatura de poder e idade avançadas, que via além das paredes e escrevia em sua pele pedaços da história do fim. Nessa história, sua pequenina estava feliz e completa, e a promessa era finalmente cumprida. O céu era negro e vomitava lamúrias sobre todas as conquistas e todos os desejos dos homens, e o universo morria. Em outro canto do sonho, havia um louco e sua bola de cristal. Ele a observava por horas e fio enquanto procurava por segredos místicos que o levariam ao outro lado do espelho. Um dia ele encontraria essa chave, e se arrependeria amargamente de ter desejado saber mais. Derek o veria no abismo. No norte, sempre no norte, estava a espada feita de sangue e juras. Guerra, destruição, vidro partido e sorrisos rasgados no rosto dos caídos  Os Tzimisce se levantavam, e junto com eles iam as hordas de carne que estupravam a sanidade e a paz de todos os infelizes que cruzavam seu caminho. E sempre havia o sul.

Lá onde estavam seus irmãos o pesadelo dormia. Uma fortaleza feita para o fim. Quão estúpida era essa ideia? Difícil precisar, mas uns tantos poderes da casa dos guardiões acharam digno de seu status opor resistência simbólica ao plano mestre do pai ancestral. Derek havia protestado contra o projeto desde o princípio  afinal os esforços necessários para a construção da темная ночь drenaram a atenção de quatro dos sete conselheiros por quase noventa anos, e mesmo assim ela ainda estava incompleta. Era certo que estaria pronta antes do fim e é certo que ela serviria de estandarte do poder do clã pelos séculos seguintes, mas ainda assim era um preço alto a pagar.

Ele suspirou e já não estava mais lá onde tudo se perde. Ele via um tumulo na beira de uma estrada esquecida pela criação. O astral. Encostado a lápide estava um corpo de criança com o peito desnudo e em carne viva. Havia um buraco no lugar que deveria ostentar um coração pulsante. Ela não tinha face e nem cabelos e de suas mãos pequeninas uma rosa de nanquim pendia sem vida. Os dedos sangravam um líquido viscoso e escuro e a palidez da pele era acentuada pela perpétua vibração escarlate da encruzilhada sem-mundo. Ele sabia que era Adele. O guardião se aproximou calmamente e levantou o rosto sem forma. Era liso, macio. Seu polegar roçou o queixo que não devia existir e a pele da menina se rompeu em um estalo de ossos e carne molhada e da boca sem lábios um som se projetou.

"Eu te esperei, meu pai, meu amante, eu te esperei mesmo quando você gritou que iria embora para nunca mais voltar. Eu te esperei e te odeio".

O rosto estava se encharcando em sangue vivo e Derek se concentrava para não gritar. Ele já tinha tido esse pesadelo antes e sabia como acabava.

Os céus começaram a cair como cartas de baralho. Pedaço a pedaço, eles desciam em flashes caleidoscópicos e explodiam em uma miríade de pedaços ao se chocar com o chão. Adele sorria. A lápide foi engolida pela terra que não estava mais lá enquanto o que restava do mundo continuava a ser devorado pelo branco eterno da inexistência. A luz o ofuscou e o nada lhe queimava a retina. Ele caiu de joelhos sentindo a pele ser dilacerada por chamas mais impiedosas do que o próprio sol enquanto o medo vermelho o tomava e cegava sua vontade. Ele tentou gritar mas o ar já não estava mais lá para inundar seus pulmões. Ele tentou chorar mas suas lágrimas viravam fumaça antes de deixarem seus olhos. Em um ultimo vislumbre, ele contemplou o vermelho que beijava o peito aberto de seu amor. E então o guardião levantou o rosto.

Adele sorria.

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Técnica narrativa - Climatização

Vejo muita gente que demora pra pegar no tranco. Que começa o jogo ainda pensando nas piadas que ouviu a cinco minutos atrás, na namorada que esta em casa, no trabalho de segunda feira. E ai, as cenas iniciais perdem muito de seu potencial.

A falta de foco em um jogo narrativo de horror é um entrave bem grave. Se o jogador estiver ocupado respondendo a uma mensagem no celular enquanto o narrador descreve o enigma de um sacerdote nosferatu, a coisa vai complicar pro grupo como um todo. Do mesmo modo, se metade dos jogadores estiverem discutindo sobre o ultimo episódio de Game of Thrones enquanto deveriam estar planejando um ataque ao elísio, tem boa chance de tudo dar errado.

Por isso acho necessário usar de um pequeno recurso muitas vezes negligenciado por muitos narradores. Ele é simples, direto, rápido e extremamente eficiente. Basta meia duzia de parágrafos bem escritos, e lhe garanto que os jogadores vão entrar no jogo quase que automaticamente.

Sim - um pequeno conto introdutório antes de cada sessão faz milagres.

Vocês se lembram daqueles mini-contos de uma página do manual básico da segunda edição? Acho que eles são simplesmente perfeitos para climatizar qualquer jogo. Histórias sobre medo, fome e isolamento são ótimas para incitar os jogadores a entrarem nos personagens, um texto que faça com que eles se lembrem do que são - bestas caprichosas e sanguinárias que lentamente apodrecem por dentro em uma dança eterna de sangue e morte - vão lhe render histórias memoráveis a longo prazo.

Eu preparei um pequeno texto para servir de exemplo. Sinta-se a vontade para usufruir dele em seus jogos.
Se você sentir os efeitos dele em jogo e começar a criar seus próprios, eu ficaria muito feliz em lê-los.

E aqui vai ele:


"As vezes dói tanto que é difícil entender o que é verdade e o que é ilusão. Queima, machuca. 


Os analgésicos ajudam, sim, as vezes eles são tudo que você tem. Quando a mente desliga e o corpo amortece, por alguns minutos você chega a pensar que está em paz. Mas o efeito passa e a dor volta.


Ela não esta maior simplesmente pelo fato de que ela já não tem mais pra onde crescer. Ela toma cada centimetro de sua alma e, enquanto você grita sem parar, tudo que ela faz é permanecer ali, impassível, indiferente. Ela consegue roer sua carne e cuspir pedaços sangrentos de você em sua boca, e o faz sem uma lágrima, um protesto ou um sorriso de simpatia.


Então você tenta matar a dor sentindo dor. Você se lembra de cada palavra que já te machucou, cada memória amarga, cada pequena cicatriz. Você junta todas elas e chora sem parar, cria um vazio no peito do tamanho da porra do mundo inteiro, e mesmo assim ele não é grande o bastante. A dor ainda está lá, rugindo, rasgando, exigindo que você pense nela.


Ela é covarde, cruel. Ela vai te comprar com verdades duras e vai te dizer que você implorou pra que ela estivesse ali. E você vai finalmente entender que é verdade, que a culpa é sua e que você trouxe essa coisa pra dentro de você.


Quando chega nessa parte, você já tem consciência de que não ha mais volta, que nunca vai mudar.
Sim - exatamente. Você ja é um escravo da dor, ja foi subvulgado totalmente.


Ai vem as drogas, as festas, os amigos falsos, as mentiras confortáveis. Cada vez que você estupra seu corpo com algum lixo sintético você sabe que está apodrecendo. Você quer, acima de tudo, morrer. Mas se você morrer, a dor vai embora, e isso é impensável. Você precisa dela. Cada vez que você se entrega a carícia de um desconhecido, você sente que pode ser a ultima vez, que está negando a si mesmo e que esse teatro patético é um grito desesperado que vômita aos quatro ventos todo seu ódio. 


Ódio. É o que vem depois. 


As fugas param de funcionar. Você precisa de uma bebida mais forte, de sexo mais intenso, de viagens que nunca acabem. Você não encontra nada disso, e ai você destroi tudo que estiver no seu caminho. Se você ainda tiver algum amigo, você vai perdê-lo. Se tiver dinheiro, vai gastá-lo. Você vai afundar tanto que aqueles que te amaram um dia vão desistir de tentar te ajudar. 


E ai você vai encontrá-los. Talvez seja um homem sexy com a carreira de pó mais pura que você já viu. Ou a mulher de vestido decotado que quer transar até o sol nascer. Eles vão te fazer uma promessa, vão dizer que tudo vai passar, que tudo vai ficar melhor, que vão te mostrar um mundo novo onde a sua dor não significa mais nada.


É neste ponto que começa o sofrimento verdadeiro."

domingo, 8 de abril de 2012

Os açougueiros do diabo


A contração de pelanca e muco desempenhada pela face tumorosa de Hrotger ao terminar de ler o relatório podia ser levemente confundida com um sorriso por um observador míope e distraido.

- Se eu tivesse meia duzia de bandos competentes feito o seu por aqui, meu bom Andrew, já teriamos conquistado este continente imbecil.

O nosferatu caminhava pelo salão do conselho de guerra, examinando casualmente a expressão de cada um dos quatro bispos presentes. Ele parou em frente ao Brujah.

- Teu esforço será recompensado, soldado. Escolha o lugar de qualquer um dos meus bispos daqui. Ele será teu.

O silêncio dominou o ambiente enquanto cainitas com o dobro da idade do Ductus se entreolhavam nervosamente, e mesmo nas mesas distantes, onde ficavam os nômades e os bandos menores, não havia som algum.

O Brujah ajeitou a gravata, sentinto-se subitamente asfixiado pelo terno risca-de-giz. Ele odiava muita coisa no universo, e se ele fizesse uma lista, a politíca do sabá estaria quase no topo. Quase.
 Provavelmente, Veiga já havia terminado o interrogatório com o tal "arconte" que Adalbrecht capturou a mais ou menos duas horas atras e só Caim sabe quantas almas desafortunadas já encontraram seu fim na ponta das garras do Cicatriz.

Neste exato momento, ele podia estar na Grécia caçando lobisomens. Podia estar em Moscou caçando infernalistas. Podia estar em París com os dois braços enfiados na garganta de algum déspota senil. Mas não, ele estava ali, em algum canto imundo de Boston assistindo seus "líderes" alfinetarem as costas uns dos outros como pré-adolescentes espinhentas se dilacerando pela atenção do melhor jogador de futebol da escola. Era, na melhor das hipóteses, patético ao extremo.

- Sinto-me enormemente lisonjeado, lorde Hrotger. Mas temo que meu lugar seja na liderança de um bando de guerra. Como o senhor bem sabe, fiz um juramento perante a taça e a regente. Os açougueiros do diabo são soldados sacramentados por Caim e irmãos inseparáveis. Não tenho a intenção de questionar seu julgamento, priscus Hrotger, apenas desejo deixar claro que é pela vontade da regente que sou parte da lâmina, e não da empunhadura, da espada de Caim.

Houve um leve murmurio na sala, suprimido rapidamente pela tosse tuberculosa do Nosferatu. O velho não parecia nenhum pouco incomodado com a declaração do Brujah, e uns poucos até tiveram a sagacidade necessária para perceber que ele esperava por ela. Hrotger segurou Andrew pelos ombros com as mãos esponjosas e compridas, e falando muito mais alto do que de costume, disse:

- Neste caso, Ductus, saiba que meu convite continua de pé. Sempre serás bem vindo a minha mesa, como aliado e como amigo, e se o desejo da nossa excelentíssima regente mudar, terei o orgulho de te oferecer um de meus bispados.

Andrew forçou seu melhor sorriso e tentou não parecer muito artificial, sem muito sucesso. Ele não praticava muito essa habilidade. Felizmente, Hrotger aparentava já ter alcançado seus objetivos. A conversa seguiu para outros rumos pelas próximas três horas, e todos, em especial os bispos, fizeram questão de ignorar a existência do Brujah.

Ele se encostou em uma coluna e tentou se distrair tamborilando em uma parede próxima. Mesmo quando seus dedos entraram no concreto e as pequenas rachaduras se espalharam pela sala, ele não se sentiu em paz. Hrotger calculou que ele consultava o relógio cerca de quatrocentas e vinte vezes a cada hora e meia, e que por mais que fosse divertido mantê-lo ali, era também perigoso. Com um aceno e meia duzia de palavras gentis, ele dispensou o Ductus, que, sorrindo sinceramente pela primeira vez na noite, se apressou na direção de sua van.

No caminho ele ordenou que levassem Cicatriz, o guerreiro de seu bando, até ele. Ele começou a dirigir apressadamente pelas colinas sinuosas e em pouco mais de vinte minutos estavam dentro do convento de São Tomé. Sem muitas cerimônias, mataram tudo o que encontraram.

Da mais jovem e pura noviça até a mais venerável das madres, todas sofreram horrivelmente antes de perecer. Enquanto Cicatriz usava suas unhas como tesouras e alicates para arrancar dentes e pedaços de gordura, Andrew urrava e deixava que a besta o conduzisse. Por duas duzias de corredores ele simplesmente correu, socando e chutando tudo que estivesse em seu caminho, destruindo com ódio e voracidade e clamando pelo sangue das inocentes sem respeito por sonhos ou esperanças. Quando a consciência oscilante retornou, ele segurava pelo pé uma menina que no caminho havia quebrado a mandibula e torcido os braços em ângulos muito improváveis, e na outra mão, um pesado crucifixo de madeira que a julgar pelas marcas de sangue estava sendo usado como marreta para partir os ossos do que quer que ele visse pelo caminho. Seguindo o rastro de sangue, ele abandonou o convento, no pátio, Cicatriz coletava alguns troféus da noite enquanto ajeitava os toques finais de sua obra maligna.

Seis mulheres idosas ainda vivas agora eram um único ser aracnídeo e doente, o sangue escorria livremente das feridas abertas, e no centro da coisa horrenda, um numero incerto de cabeças sem voz chorava de pavor.

"Vão" Disse o Tzimisce, com a rispidez habitual, "Vão e trilhem seu destino em meio ao mundo de mentira que os homens de teu deus fizeram"

Após o gesto simbólico, os dois vampiros entraram no carro, e seguiram viagem silenciosamente. Só quando entraram na garagem do prédio arruinado no meio do subúrbio, é que Cicatriz esboçou uma reação.

- Mein Ductus, wo bist du?

- Estou aqui do teu lado, meu amigo, por que a pergunta?

- A canção fúnebre cantada pelo sangue ardente de tuas veias contraria a dança de tuas palavras, meu estimado irmão. Diga-me, onde está você?

Andrew não gostava de poesia. Na verdade, ele gostava de bem poucas coisas, e cicatriz era uma delas. Este foi o motivo pelo qual ele não encheu o Tzimisce de porrada naquele momento. Ele parou o carro sem pressa, e após descerem, ele contemplou a face do companheiro.

É verdade, ainda haviam alguns aspectos vagamente humanóides. Dois olhos cinzentos e pequenos e uma boca vermelha e inchada. Pronto, esses eram os traços humanóides. O Brujah não sabia exatamente entre quais chifres, espinhos ou ventosas ficavam as orelhas de seu companheiro, e nem sabia se ele tinha nariz. Todo seu corpo era pouco mais que um grande pedaço de carne ossuda cheia de retalhos, falanges e protuberâncias quitinosas e reptilianas, como se uma infinidade de porcos tivesse se reunido a seu redor e resolvesse que todos deveriam mordê-lo apenas uma vez. E Andrew o amava e respeitava mais do que qualquer outro ser da criação.

Sete décadas de sangue e guerra. Sete décadas de mágoa e ódio. Sete décadas compartilhando o sangue na sagrada taça do Valderie.

O devaneio foi interrompido pelo som aguda da porta do elevador, Andrew avançou cautelosamente enquanto contraia os dedos, ele sentiu um cheiro de perfume barato e sangue menstrual e cerca de dois segundos depois, viu os braços compridos de seu companheiro penetrarem no elevador e saírem carregando um tubo intestinal vermelho e púrpura que pertencia a uma mulher de meia idade que neste momento estava indecisa entre a dor e a pavor, em um segundo movimento resoluto, cicatriz torceu e puxou o orgão com força, arrancando a mulher do chão e arremessando-a contra a viga próxima. O intestino se rompeu, espalhando sangue e fezes indiscriminadamente pelo chão cinzento. Alguém ia ter um trabalho infernal pra limpar aquilo.

Os dois deixaram a mulher agonizando em meio as próprias tripas e subiram até o sexto andar do prédio arruinado, quando as portas do elevador se abriram, Andrew sentiu o habitual calafrio percorrer sua espinha. O cheiro de vitae e morte era suave demais para os mortais notarem, mas não pra ele, perto dali, sua Toreador continuava com sua obra maligna.

Aquele andar inteiro pertencia a eles, e embora os quartos nunca tenham sido formalmente divididos, cada um dos membros do bando sabia que tinha seu espaço. Cicatriz entrou na porta mais próxima, e Andrew teve a impressão de ouvir gemidos de criança vindos de dentro do apartamento. Ele preferiu não averiguar. Com passos lentos e cansados, ele alcançou uma das portas e parou com a mão no trinco. Havia sido uma noite infernal.

Não pela caçada, pela chacina, ou pelo excesso de trabalho. Mas pela maldita reunião. Enquanto ele perdia tempo em reuniões com velhos deprimidos que ocupavam disputando pedaços de terra e fatias de carne, soldados lutavam guerras e inimigos planejavam conspirações. Andrew tinha que repetir o código do cavaleiro mentalmente quarenta vezes por noite para não explodir de ódio e rasgar o pescoço de meia duzia de idosos pretensiosos. O temperamento tradicional dos Brujah tinha um efeito tremendamente negativo sobre ele, e sinceramente, ele esperava ansiosamente pelo dia em que pudesse explodir e levar seu descontentamento ao meio das costelas de algum arcebispo descuidado.

"Entre, irmão" Disse uma voz suave e fria que pareceu crescer dentro do quarto. Andrew viu as sombras que se projetavam na parede moverem-se com calma, agrupando-se atrás de um velho criado mudo, como se saíssem do caminho para não perturbá-lo. O vampiro suspirou. Talvez uma conversa com seu sacerdote pudesse lhe trazer um pouco de paz.

Ele abriu a porta sem pressa, e entrou no salão de trevas. Havia uma única luz no ambiente, uma vela amarelada e fina, apoiada em um prato de porcelana segurado por Adalbrecht. Ele era alto, magro e pálido. Estava nu no escuro, e sombras inquietas dançavam sobre suas costelas como se o lambessem com volúpia. Seu rosto era fino, frio e cadavérico, uma lembrança amarga do inverno, que trazia um brilho azulado e pisciano que rugia em contraste com as órbitas negras de seus olhos. Seu cabelo comprido era escuro o suficiente para mesclar-se a treva perene do quarto, e com um leve suspiro, o lasombra roubou o calor do corpo de seu companheiro.

- És bem vindo em minha morada, irmão, entre, e compartilhe de minha sabedoria.

Andrew se aproximou do sacerdote, e em uma leve reverência, beijou a testa do guardião.

- Caminhe pela sombra da alma sem medo, meu Ductus, venha comigo e me explique o motivo de tua tão afortunada visita. Vejo duvida e ódio em teu peito, e sangue em tuas mãos. Acaso viestes buscar por conselhos ou por refúgio de teus inimigos?

- Vim lhe fazer uma pergunta, meu irmão. Perdoe-me se o faço em hora tardia.

- Todas as horas são tardias para os mortos, meu Ductus. Tú entras sem medo no refúgio da noite escura, e mesmo assim carregas em teus olhos a chaga da duvida.

Andrew sorriu. Mais uma vez ele chegou a conclusão de que odiava poesia, e odiava quando tentavam usar frases mais bonitas do que o necessário, e odiava a calma eterna de Adalbrecht, e odiava sentir o cheiro de tripas e lágrimas no quarto vizinho, e odiava esse continente de merda e odiava essa guerra de merda. Ele se concentrou e encheu os pulmões de ar, e depois soltou-o lentamente. Essa noite estava sendo mais longa do que o necessário.

- Irmão, estou cansado e preciso de um conselho. Será que esta empreitada americana vale o esforço? A própria regente não moveu um dedo para ajudar...E eu tenho perdido metade de minhas noites em reuniões inúteis com a diretoria. Me sinto culpado, enquanto você e os outros lutam uma guerra, eu recebo tapinhas nas costas de velhos alienados. Quando poderemos ir embora, irmão? Quanto tempo até percebermos que esta guerra não vai ter fim simplesmente por que nossos lideres não querem que tenha?

O Lasombra recuou um passo, e estendendo o braço, ordenou que o abismo engolisse a vela, mergulhando ambos no silêncio do além mundo.

- Tu que caminhas no escuro em direção ao ser, não feche teus olhos perante a verdade que a noite lhe rouba. Aqueles que perderam a convicção não são de tua responsabilidade, irmão. Concentre-se em teu propósito aqui, nós somos a pedra fundamental, o padrão pelo qual os outros vão ser julgados. Se a operação não é de teu agrado, Ductus, posso entrar em contato com meu mestre e conseguir uma transferência para outro front, mas entenda, isso terá consequências.

Andrew ficou tremendamente satisfeito com a resposta. Com um comando, ele poderia ir embora, e só teria que inventar uma desculpa para que a turba de abutres não o atormentasse. Claro – havia toda uma série de complicações. Mas elas que se danem, a America que se dane e esse bando de imbecis que vá pro inferno. Eles já fizeram demais.

- Pergunte a seu mestre se ele não quer um novo casaco de peles, ou uma biblioteca, um um polegar de príncipe, ou o que quer que seja, mas nos tire daqui Adalbrecht. Esse lugar vai me deixar louco.

O Brujah ouviu meia duzia de palavras em uma lingua língua estranha, antiga, e então teve a sensação de que correntes grossas estavam subindo por suas pernas; Era o frio do abismo, a matéria da inexistência. Mesmo após meio século de convivência com o sacerdote, Andrew não havia se acostumado com elas. Após um minuto longo e incerto, as trevas voltaram para seu refugio primordial, revelando paredes sem cor em um quarto sem móveis.

- Três dias, meu Ductus, em três dias estaremos velejando no mar noturno para nossa casa ancestral.

Andrew sorriu, surprezo. Ele não fazia ideia do que o sacerdote tinha feito, mas a experiência lhe ensinou a confiar em cada palavra dele. Três dias e ele estaria longe desse hospício.

- Obrigado, meu amigo, sem tua ajuda este bando estaria fadado a ser tão patético quanto todos os outros grupos de crianças que vemos por aqui. Se me permite, vou descansar.

Adalbrecht fez uma reverência pesada e sem som, e sentou-se sobre as próprias pernas enquanto puxava fios de sombra com os dedos. O Brujah se retirou, sentindo o cansaço bater sobre os ossos, após sete passos no corredor escuro, sentiu mãos delicadas tocarem sua cintura.

- Se eu fosse uma inimiga, tu estarias mais uma vez morto, meu amado Ductus.

A voz era doce, melodiosa, repleta de um carinho teatral e cômico que ambos sabiam que não existia. Andrew relaxou o corpo e se encostou preguiçosamente na carne macia de sua torturadora. Ele sentiu a textura dos mamilos macios tocando suas costas e se deixou levar pela sobriedade onírica daquele momento. 

- Veiga, minha querida, se fostes uma inimiga, eu ainda levaria anos para finalmente morrer.

O riso dela ecoou pelos ouvidos do Brujah, como sinos tocados por crianças jocosas em uma hora inadequada, ela o envolveu em seus braços com cuidado, e levou os lábios finos e rubros até o pescoço dele, em um encontro seco e inocente, o vampiro tremeu.

-   Você esta exausto Andrew, venha deitar-se, meu relatório pode esperar até amanhã, e minha cama tem fome de seu corpo.

Ele quiz perguntar o que diabos aquilo queria dizer, ou quais as intenções dela, mas simplesmente não parecia adequado. Ele já tinha visto ela fazendo sexo com algumas vítimas, e não foi algo muito agradável. Entranhas e vísceras demais, ferro quente e lâminas demais. Paixão e perversão demais. O Brujah tentou protestar, sem muito sucesso, e quando já estava na entrada do quarto, as mãos macias da Toreador já estavam trabalhando no fecho do cinto dele. Quando ela acendeu a luz, o Brujah finalmente entendeu o propósito de todo o teatro romântico.

Os matadouros do inferno deveriam ser mais acolhedores do que aquele quarto doente, e a própria palavra crueldade parecia ofendida pela vulgaridade blasfema do templo de luxúria. O prisioneiro ainda estava ali – na verdade, estava em todos os cantos – em pedaços separados, unidos por ossos costurados com esmero por uma cirurgiã louca. Seu peito e sua cabeça estavam deitados sobre a grelha de um forno ainda incandescente, decorados com pedaços de carvão avermelhado em meio a pulmões perfurados e intestinos esticados pelas paredes. Uma das pernas - e só Caim sabe como ela chegou lá – foi trespassada por meia duzia de hastes pontudas e cinzentas, e a outra, no outro lado da sala, repousava em uma bacia de água fervente. Os testículos do arconte ainda estavam unidos ao pênis, a cerca de quarenta centímetros de altura, presos por uma argola e dois alicates paralelos, e em sua garganta aberta, repousava uma esfera metálica e espinhenta.

Seja lá quais fossem os crimes deste cainita, ele já teria os confessado. Não que isso fizesse diferença, claro, Veiga era uma artista, e não era de desperdiçar material. Ela moveu-se pelo quarto, tendo o cuidado de não tropeçar em algum orgão abandonado a esmo, e ficou de pé, com as pernas abertas, sobre a cabeça do vampiro torturado. Após esfregar seu intimo na boca cheia de agulhas do pobre coitado algumas vezes, ela soltou um gemido arfante e voltou-se para Andrew.

-    O que esta esperando, meu Ductus? Deixe-me ser tua neste momento sublime.


Andrew respirou fundo mais uma vez. Ia ser uma noite infernal.

quarta-feira, 4 de abril de 2012

História de amor dos mortos - Um abismo de promessas viciadas

- Acaso tu me amas, meu servo?

Perguntou o suserano, enquanto tentava recolher o intestino que insistia em escorrer pelo tapete felpudo, manchando a pele curtida dos escalpos das virgens para sempre ali acorrentadas.

- Sim, meu mestre. Eu te amo tanto quanto a força de teu sangue e tua feitiçaria me permitem, mas minha sede é alheia aos caprichos de teu laço rubro. Nesta noite, encontrarás tua morte final

O velho rugiu, e o que deveria soar como um trovão mal passava de um chiado idoso e senil. Em seu silêncio contemplativo, Derek observava sua nova obra profana.

Naboslav, seu mestre amado e voivode destas terras, tentava alcançar uma perna que talvez não fosse sua. Haviam tantos pedaços de Slachta e de cainitas desafortunados por ali que era difícil ter certeza da origem de cada membro. Entranhas, braços, cabeças e outras partes menos reconhecíveis estavam dispostas sem seguir algum padrão especifico, dispostos ao acaso pelas mãos de um açougueiro descuidado. As mãos do Lasombra tremiam agora, tanto quanto tremeram quando ele ordenou que os cães do mundo morto rasgassem e partissem a frágil realidade daquele momento aterrador. Ele queria ajudar seu mestre, queria dizer que sentia muito, que tudo ia ficar bem, que tudo foi um erro cruel e que ele queria ser perdoado.

A força do laço perdurava, mesmo naquele instante de morte sublime.

Derek fechou os olhos e, falando na língua morta, chamou a escuridão. Uma nuvem pesada e viscosa engoliu velas gordas e pedaços de carne atormentada, e finos braços de piche se enrolaram em pedaços de carniçais de guerra há pouco abatidos, tirando-os do caminho.

Uma única parte do salão de armas conservava sua luz, um circulo claustrofóbico e trêmulo que em seu interior abrigava a carcaça quase inerte de Naboslav. Outrora, Naboslav o Koldun, agora, Naboslav o derrotado. O Tzimisce reuniu as poucas forças que lhe restavam enquanto colocava seus dedos no lugar. O indicador havia sido completamente dilacerado por uma das bestas do abismo, bem como parte da palma da mão esquerda. Ele avaliou a situação com cuidado enquanto procurava por sua genitália. Não, ela não estava em nenhum lugar visível. Por algum motivo alienígena ao ancião, seus testículos lhe faziam muita falta. Era hora de recorrer ao poder do laço, embora o velho tivesse certas duvidas a respeito da existência do mesmo.

- Me digas, meu filho, por que levas-te tua espada a meu peito? Acaso não lembras quem esculpiu tua lâmina em carinho e osso?

O Tzimisce sabia que sua habilidade com palavras amorosas era, na melhor das hipóteses, rudimentar. Mas era o que lhe restava, considerando o pouco sangue que ainda fluía por seu peito. De algum lugar da escuridão, a voz serena e melodiosa do Lasombra se projetou, fria e amarga como sempre foi, e ainda assim, tão majestosa quanto a descendência russa lhe permitia.

- Me chamas de filho, mestre.

O Tzimisce tentou conter o asco sem muito sucesso enquanto colocava no lugar uma costela que havia se dobrado em um ângulo muito improvável. Ele se lembrou dos lamentos de seus prisioneiros cristãos, da forma tola e fútil como gritavam e imploravam. Ele não ia implorar, não agora, nem nunca. Ele pensou em assumir a forma de sangue e fugir pela janela que estava em algum lugar da escuridão, pensou em tentar dominar a vontade de seu servo mais uma vez, mas mudou de ideia rapidamente quando ele surgiu do mar de trevas e cravou a lança em sua recém adquirida perna. A dor física era insignificante, a dor no orgulho, por outro lado, era intolerável. Sim, ele precisava implorar, precisava enganar esse bastardo maldito e então lhe arrancar a beleza osso por osso quando suas forças retornassem.

Tripas - Chuck Palahniuk

Saudações, queridos leitores.

Um pequeno aviso: Esse conto não é para todos. Se você por acaso acha que minhas histórias são gore demais, vá para outro post. Essa aqui é muito, mas muito pior. Sério.

Nesta quarta-feira ensolarada, resolvi fazer um post que, em vários aspectos, é diferente dos meus habituais. Primeiro, por que não é um texto meu, segundo, por que não fala sobre vampiros, e terceiro, por que é muito mais bizarro e pesado do que o de costume.

Sim, é uma obra prima da destruição de convenções sociais, fruto da mente psicótica e doente de Chuck Palahniuk, autor de clube da luta.

A história a seguir é um conto do livro "assombro", que minha querida Anna me emprestou alguns meses atrás e que eu tive a felicidade de encontrar na internet. Reza a lenda que mais de setenta pessoas desmaiaram as leituras deste controverso e apaixonante texto, que com uma frieza e sarcasmo brutais, espoem de maneira crua e sádica situações bizarras que só seres tão mesquinhos e degenerados quanto nós, seres humanos, são capazes de propiciar.
Boa leitura.




Um amigo meu aos 13 anos ouviu falar sobre “fio-terra”. Isso é quando alguém enfia um consolo na bunda. Estimule a próstata o suficiente, e os rumores dizem que você pode ter orgasmos explosivos sem usar as mãos. Nessa idade, esse amigo é um pequeno maníaco sexual. Ele está sempre buscando uma melhor forma de gozar. Ele sai para comprar uma cenoura e lubrificante. Para conduzir uma pesquisa particular. Ele então imagina como seria a cena no caixa do supermercado, a solitária cenoura e o lubrificante percorrendo pela esteira o caminho até o atendente no caixa. Todos os clientes esperando na fila, observando. Todos vendo a grande noite que ele preparou.

Então, esse amigo compra leite, ovos, açúcar e uma cenoura, todos os ingredientes para um bolo de cenoura. E vaselina.

Como se ele fosse para casa enfiar um bolo de cenoura no rabo.

Em casa, ele corta a ponta da cenoura com um alicate. Ele a lubrifica e desce seu traseiro por ela. Então, nada. Nenhum orgasmo. Nada acontece, exceto pela dor.

Então, esse garoto, a mãe dele grita dizendo que é a hora da janta. Ela diz para descer, naquele momento.

Ele remove a cenoura e coloca a coisa pegajosa e imunda no meio das roupas sujas debaixo da cama.

Depois do jantar, ele procura pela cenoura, e não está mais lá. Todas as suas roupas sujas, enquanto ele jantava, foram recolhidas por sua mãe para lavá-las. Não havia como ela não encontrar a cenoura, cuidadosamente esculpida com uma faca da cozinha, ainda lustrosa de lubrificante e fedorenta.

Esse amigo meu, ele espera por meses na surdina, esperando que seus pais o confrontem. E eles nunca fazem isso. Nunca. Mesmo agora que ele cresceu, aquela cenoura invisível aparece em toda ceia de Natal, em toda festa de aniversário. Em toda caça de ovos de páscoa com seus filhos, os netos de seus pais, aquela cenoura fantasma paira por sobre todos eles. Isso é algo vergonhoso demais para dar um nome.

As pessoas na França possuem uma expressão: “sagacidade de escadas.” Em francês: esprit de l’escalier. Representa aquele momento em que você encontra a resposta, mas é tarde demais. Digamos que você está numa festa e alguém o insulta. Você precisa dizer algo. Então sob pressão, com todos olhando, você diz algo estúpido. Mas no momento em que sai da festa….

Enquanto você desce as escadas, então – mágica. Você pensa na coisa mais perfeita que poderia ter dito. A réplica mais avassaladora.

Esse é o espírito da escada.

O problema é que até mesmo os franceses não possuem uma expressão para as coisas estúpidas que você diz sob pressão. Essas coisas estúpidas e desesperadas que você pensa ou faz.

Alguns atos são baixos demais para receberem um nome. Baixos demais para serem discutidos.

Agora que me recordo, os especialistas em psicologia dos jovens, os conselheiros escolares, dizem que a maioria dos casos de suicídio adolescente eram garotos se estrangulando enquanto se masturbavam. Seus pais o encontravam, uma toalha enrolada em volta do pescoço, a toalha amarrada no suporte de cabides do armário, o garoto morto. Esperma por toda a parte. É claro que os pais limpavam tudo. Colocavam calças no garoto. Faziam parecer… melhor. Ao menos, intencional. Um caso comum de triste suicídio adolescente.

Outro amigo meu, um garoto da escola, seu irmão mais velho na Marinha dizia como os caras do Oriente Médio se masturbavam de forma diferente do que fazemos por aqui. Esse irmão tinha desembarcado num desses países cheios de camelos, na qual o mercado público vendia o que pareciam abridores de carta chiques. Cada uma dessas coisas é apenas um fino cabo de latão ou prata polida, do comprimento aproximado de sua mão, com uma grande ponta numa das extremidades, ou uma esfera de metal ou uma dessas empunhaduras como as de espadas. Esse irmão da Marinha dizia que os árabes ficavam de pau duro e inseriam esse cabo de metal dentro e por toda a extremidade de seus paus. Eles então batiam punheta com o cabo dentro, e isso os faziam gozar melhor. De forma mais intensa.

Esse irmão mais velho viajava pelo mundo, mandando frases em francês. Frases em russo. Dicas de punhetagem.

Depois disso, o irmão mais novo, um dia ele não aparece na escola. Naquela noite, ele liga pedindo para eu pegar seus deveres de casa pelas próximas semanas. Porque ele está no hospital.

Ele tem que compartilhar um quarto com velhos que estiveram operando as entranhas. Ele diz que todos compartilham a mesma televisão. Que a única coisa para dar privacidade é uma cortina. Seus pais não o vem visitar. No telefone, ele diz como os pais dele queriam matar o irmão mais velho da Marinha.

Pelo telefone, o garoto diz que, no dia anterior, ele estava meio chapado. Em casa, no seu quarto, ele deitou-se na cama. Ele estava acendendo uma vela e folheando algumas revistas pornográficas antigas, preparando-se para bater uma. Isso foi depois que ele recebeu as notícias de seu irmão marinheiro. Aquela dica de como os árabes se masturbam. O garoto olha ao redor procurando por algo que possa servir. Uma caneta é grande demais. Um lápis, grande demais e áspero. Mas escorrendo pelo canto da vela havia um fino filete de vela derretida que poderia servir. Com as pontas dos dedos, o garoto descola o filete da vela. Ele o enrola na palma de suas mãos. Longo, e liso, e fino.

Chapado e com tesão, ele enfia lá dentro, mais e mais fundo por dentro do canal urinário de seu pau. Com uma boa parte da cera ainda para fora, ele começa o trabalho.

Até mesmo nesse momento ele reconhece que esses árabes eram caras muito espertos. Eles reinventaram totalmente a punheta. Deitado totalmente na cama, as coisas estão ficando tão boas que o garoto nem observa a filete de cera. Ele está quase gozando quando percebe que a cera não está mais lá.

O fino filete de cera entrou. Bem lá no fundo. Tão fundo que ele nem consegue sentir a cera dentro de seu pau.

Das escadas, sua mãe grita dizendo que é a hora da janta. Ela diz para ele descer naquele momento. O garoto da cenoura e o garoto da cera eram pessoas diferentes, mas viviam basicamente a mesma vida.

Depois do jantar, as entranhas do garoto começam a doer. É cera, então ele imagina que ela vá derreter dentro dele e ele poderá mijar para fora. Agora suas costas doem. Seus rins. Ele não consegue ficar ereto corretamente.

O garoto falando pelo telefone do seu quarto de hospital, no fundo pode-se ouvir campainhas, pessoas gritando. Game shows.

Os raios-X mostram a verdade, algo longo e fino, dobrado dentro de sua bexiga. Esse longo e fino V dentro dele está coletando todos os minerais no seu mijo. Está ficando maior e mais expesso, coletando cristais de cálcio, está batendo lá dentro, rasgando a frágil parede interna de sua bexiga, bloqueando a urina. Seus rins estão cheios. O pouco que sai de seu pau é vermelho de sangue.

O garoto e seus pais, a família inteira, olhando aquela chapa de raio-X com o médico e as enfermeiras ali, um grande V de cera brilhando na chapa para todos verem, ele deve falar a verdade. Sobre o jeito que os árabes se masturbam. Sobre o que o seu irmãos mais velho da Marinha escreveu.

No telefone, nesse momento, ele começa a chorar.

Eles pagam pela operação na bexiga com o dinheiro da poupança para sua faculdade. Um erro estúpido, e agora ele nunca mais será um advogado.

Enfiando coisas dentro de você. Enfiando-se dentro de coisas. Uma vela no seu pau ou seu pescoço num nó, sabíamos que não poderia acabar em problemas.

O que me fez ter problemas, eu chamava de Pesca Submarina. Isso era bater punheta embaixo d’água, sentando no fundo da piscina dos meus pais. Pegando fôlego, eu afundava até o fundo da piscina e tirava meu calção. Eu sentava no fundo por dois, três, quatro minutos.

Só de bater punheta eu tinha conseguido uma enorme capacidade pulmonar. Se eu tivesse a casa só para mim, eu faria isso a tarde toda. Depois que eu gozava, meu esperma ficava boiando em grandes e gordas gotas.

Depois disso eram mais alguns mergulhos, para apanhar todas. Para pegar todas e colocá-las em uma toalha. Por isso chamava de Pesca Submarina. Mesmo com o cloro, havia a minha irmã para se preocupar. Ou, Cristo, minha mãe.

Esse era meu maior medo: minha irmã adolescente e virgem, pensando que estava ficando gorda e dando a luz a um bebê retardado de duas cabeças. As duas parecendo-se comigo. Eu, o pai e o tio. No fim, são as coisas nais quais você não se preocupa que te pegam.

A melhor parte da Pesca Submarina era o duto da bomba do filtro. A melhor parte era ficar pelado e sentar nela.

Como os franceses dizem, Quem não gosta de ter seu cú chupado? Mesmo assim, num minuto você é só um garoto batendo uma, e no outro nunca mais será um advogado.

Num minuto eu estou no fundo da piscina e o céu é um azul claro e ondulado, aparecendo através de dois metros e meio de água sobre minha cabeça. Silêncio total exceto pelas batidas do coração que escuto em meu ouvido. Meu calção amarelo-listrado preso em volta do meu pescoço por segurança, só em caso de algum amigo, um vizinho, alguém que apareça e pergunte porque faltei aos treinos de futebol. O constante chupar da saída de água me envolve enquanto delicio minha bunda magra e branquela naquela sensação.

Num momento eu tenho ar o suficiente e meu pau está na minha mão. Meus pais estão no trabalho e minha irmão no balé. Ninguém estará em casa por horas.

Minhas mãos começam a punhetar, e eu paro. Eu subo para pegar mais ar. Afundo e sento no fundo.

Faço isso de novo, e de novo.

Deve ser por isso que garotas querem sentar na sua cara. A sucção é como dar uma cagada que nunca acaba. Meu pau duro e meu cú sendo chupado, eu não preciso de mais ar. O bater do meu coração nos ouvidos, eu fico no fundo até as brilhantes estrelas de luz começarem a surgir nos meus olhos. Minhas pernas esticadas, a batata das pernas esfregando-se contra o fundo. Meus dedos do pé ficando azul, meus dedos ficando enrugados por estar tanto tempo na água.

E então acontece. As gotas gordas de gozo aparecem. É nesse momento que preciso de mais ar. Mas quando tento sair do fundo, não consigo. Não consigo colocar meus pés abaixo de mim. Minha bunda está presa.

Médicos de plantão de emergência podem confirmar que todo ano cerca de 150 pessoas ficam presas dessa forma, sugadas pelo duto do filtro de piscina. Fique com o cabelo preso, ou o traseiro, e você vai se afogar. Todo o ano, muita gente fica. A maioria na Flórida.

As pessoas simplesmente não falam sobre isso. Nem mesmo os franceses falam sobre tudo. Colocando um joelho no fundo, colocando um pé abaixo de mim, eu empurro contra o fundo. Estou saindo, não mais sentado no fundo da piscina, mas não estou chegando para fora da água também.

Ainda nadando, mexendo meus dois braços, eu devo estar na metade do caminho para a superfície mas não estou indo mais longe que isso. O bater do meu coração no meu ouvido fica mais alto e mais forte.

As brilhantes fagulhas de luz passam pelos meus olhos, e eu olho para trás… mas não faz sentido. Uma corda espessa, algum tipo de cobra, branco-azulada e cheia de veias, saiu do duto da piscina e está segurando minha bunda. Algumas das veias estão sangrando, sangue vermelho que aparenta ser preto debaixo da água, que sai por pequenos cortes na pálida pele da cobra. O sangue começa a sumir na água, e dentro da pele fina e branco-azulada da cobra é possível ver pedaços de alguma refeição semi-digerida.

Só há uma explicação. Algum horrível monstro marinho, uma serpente do mar, algo que nunca viu a luz do dia, estava se escondendo no fundo escuro do duto da piscina, só esperando para me comer.

Então… eu chuto a coisa, chuto a pele enrugada e escorregadia cheia de veias, e parece que mais está saindo do duto. Deve ser do tamanho da minha perna nesse momento, mas ainda segurando firme no meu cú. Com outro chute, estou a centímetros de conseguir respirar. Ainda sentido a cobra presa no meu traseiro, estou bem próximo de escapar.

Dentro da cobra, é possível ver milho e amendoins. E dá pra ver uma brilhante esfera laranja. É um daqueles tipos de vitamina que meu pai me força a tomar, para poder ganhar massa. Para conseguir a bolsa como jogador de futebol. Com ferro e ácidos graxos Ômega 3.

Ver essa pílula foi o que me salvou a vida.

Não é uma cobra. É meu intestino grosso e meu cólon sendo puxados para fora de mim. O que os médicos chamam de prolapso de reto. São minhas entranhas sendo sugadas pelo duto.

Os médicos de plantão de emergência podem confirmar que uma bomba de piscina pode puxar 300 litros de água por minuto. Isso corresponde a 180 quilos de pressão. O grande problema é que somos todos interconectados por dentro. Seu traseiro é apenas o término da sua boca. Se eu deixasse, a bomba continuaria a puxar minhas entranhas até que chegasse na minha língua. Imagine dar uma cagada de 180 quilos e você vai perceber como isso pode acontecer.

O que eu posso dizer é que suas entranhas não sentem tanta dor. Não da forma que sua pele sente dor. As coisas que você digere, os médicos chamam de matéria fecal. No meio disso tudo está o suco gástrico, com pedaços de milho, amendoins e ervilhas.

Essa sopa de sangue, milho, merda, esperma e amendoim flutua ao meu redor. Mesmo com minhas entranhas saindo pelo meu traseiro, eu tentando segurar o que restou, mesmo assim, minha vontade é de colocar meu calção de alguma forma.

Deus proíba que meus pais vejam meu pau.

Com uma mão seguro a saída do meu rabo, com a outra mão puxo o calção amarelo-listrado do meu pescoço. Mesmo assim, é impossível puxar de volta.

Se você quer sentir como seria tocar seus intestinos, compre um camisinha feita com intestino de carneiro. Pegue uma e desenrole. Encha de manteiga de amendoim. Lubrifique e coloque debaixo d’água. Então tente rasgá-la. Tente partir em duas. É firme e ao mesmo tempo macia. É tão escorregadia que não dá para segurar.

Uma camisinha dessas é feita do bom e velho intestino.

Você então vê contra o que eu lutava.

Se eu largo, sai tudo.

Se eu nado para a superfície, sai tudo.

Se eu não nadar, me afogo.

É escolher entre morrer agora, e morrer em um minuto.

O que meus pais vão encontrar depois do trabalho é um feto grande e pelado, todo curvado. Mergulhado na árgua turva da piscina de casa. Preso ao fundo por uma larga corda de veias e entranhas retorcidas. O oposto do garoto que se estrangula enquanto bate uma. Esse é o bebê que trouxeram para casa do hospital há 13 anos. Esse é o garoto que esperavam conseguir uma bolsa de jogador de futebol e eventualmente um mestrado. Que cuidaria deles quando estivessem velhinhos. Seus sonhos e esperanças. Flutuando aqui, pelado e morto. Em volta dele, gotas gordas de esperma.

Ou isso, ou meus pais me encontrariam enrolado numa toalha encharcada de sangue, morto entre a piscina e o telefone da cozinha, os restos destroçados das minhas entranhas para fora do meu calção amarelo-listrado.

Algo sobre o qual nem os franceses falam.

Aquele irmão mais velho na Marinha, ele ensinou uma outra expressão bacana. Uma expressão russa. Do jeito que nós falamos “Preciso disso como preciso de um buraco na cabeça…,” os russos dizem, “Preciso disso como preciso de dentes no meu cú……

Mne eto nado kak zuby v zadnitse.

Essas histórias de como animais presos em armadilhas roem a própria perna fora, bem, qualquer coiote poderá te confirmar que algumas mordidas são melhores que morrer.

Droga… mesmo se você for russo, um dia vai querer esses dentes.

Senão, o que você pode fazer é se curvar todo. Você coloca um cotovelo por baixo do joelho e puxa essa perna para o seu rosto. Você morde e rói seu próprio cú. Se você ficar sem ar você consegue roer qualquer coisa para poder respirar de novo.

Não é algo que seja bom contar a uma garota no primeiro encontro. Não se você espera por um beijinho de despedida. Se eu contasse como é o gosto, vocês não comeriam mais frutos do mar.

É difícil dizer o que enojaria mais meus pais: como entrei nessa situação, ou como me salvei. Depois do hospital, minha mãe dizia, “Você não sabia o que estava fazendo, querido. Você estava em choque.” E ela teve que aprender a cozinhar ovos pochê.

Todas aquelas pessoas enojadas ou sentindo pena de mim….

Precisava disso como precisaria de dentes no cú.

Hoje em dia, as pessoas sempre me dizem que eu sou magrinho demais. As pessoas em jantares ficam quietas ou bravas quando não como o cozido que fizeram. Cozidos podem me matar. Presuntadas. Qualquer coisa que fique mais que algumas horas dentro de mim, sai ainda como comida. Feijões caseiros ou atum, eu levanto e encontro aquilo intacto na privada.

Depois que você passa por uma lavagem estomacal super-radical como essa, você não digere carne tão bem. A maioria das pessoas tem um metro e meio de intestino grosso. Eu tenho sorte de ainda ter meus quinze centímetros. Então nunca consegui minha bolsa de jogador de futebol. Nunca consegui meu mestrado. Meus dois amigos, o da cera e o da cenoura, eles cresceram, ficaram grandes, mas eu nunca pesei mais do que pesava aos 13 anos.

Outro problema foi que meus pais pagaram muita grana naquela piscina. No fim meu pai teve que falar para o cara da limpeza da piscina que era um cachorro. O cachorro da família caiu e se afogou. O corpo sugado pelo duto. Mesmo depois que o cara da limpeza abriu o filtro e removeu um tubo pegajoso, um pedaço molhado de intestino com uma grande vitamina laranja dentro, mesmo assim meu pai dizia, “Aquela porra daquele cachorro era maluco.”

Mesmo do meu quarto no segundo andar, podia ouvir meu pai falar, “Não dava para deixar aquele cachorro sozinho por um segundo….”

E então a menstruação da minha irmã atrasou.

Mesmo depois que trocaram a água da piscina, depois que vendemos a casa e mudamos para outro estado, depois do aborto da minha irmã, mesmo depois de tudo isso meus pais nunca mencionaram mais isso novamente.

Nunca.

Essa é a nossa cenoura invisível.

Você. Agora você pode respirar.

Eu ainda não.