segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

A princesa do abismo

A garotinha estava deitada em sua cama, apertando sua boneca contra o peito.
O quarto era pequeno, frio e desolador. Era tudo escuro ali, e o breu nunca ficava em um lugar só. As paredes feitas de pedras amareladas pareciam se comprimir a cada instante, e o pentagrama avermelhado que ficava no teto sorria para a menina.
Ela estava perdida em pensamentos, já ha algumas horas. Papai ainda não tinha voltado do trabalho, mamãe estava preparando o jantar, seu amigo estava sacrificando traidores da espada de Caim no poço dos desolados e a tia Vermina realmente não era um companhia agradável.
Restava ficar ali, pensando.
Yuri lhe deu essa boneca, que parecia muito com ela, no dia em que o homem mal tentou atacá-la.
Ela não gostava da boneca, mas gostava do Yuri. A boneca era parecida demais com ela. Pequena e sem vida, sendo controlada por mãos de escuridão.
Os olhos grandes e escuros pareciam um poço sem fim de horror, que nada expressavam além do medo de ser imóvel pra sempre. O corpo era delicado, costurado por mãos habilidosas cerca de cinco décadas atras.
“macia, tão macia” dizia a pequenina enquanto acariciava o rosto da boneca.
“você é eu, e eu sou a outra eu quando você esta aqui perto de mim e ele esta longe”
O pentagrama do teto brilhou mais forte agora, o feitiço estava sendo reforçado, Sibelle sentiu o sono tentar dominá-la, mas não, ela não queria dormir sem dar um beijo de boa noite em sua mãe, e nem poderia dormir sem saber se Yuri estava bem. Ela se concentrou por um instante, e fez tudo que ficava do outro lado do espelho ficar escuro. A parede do teto rachou, e o pentagrama parou de brilhar, sangue antigo caiu sobre a cama, despertando a fome de Sibelle.
“Esse sangue é meu sangue. Não posso beber”.
Ela se lembrou das lições da mamãe. Nunca, jamais tome de seu próprio sangue, se não sua irmã vai vir te visitar. Sibelle sabia que era errado não gostar de sua própria gente, mas sua irmã era realmente má. Ela fechou os olhos e tentou se lembrar do gosto do sangue dos filhos do dragão. De como ele descia lentamente pela garganta, de como era doce e encorpado, e da saudade que ela sentia dele.
“humm...se eles se levantarem contra a Alemanha denovo, eu vou pedir pra mamãe me dar uma duzia deles de natal, e vou cuidar pra que eles durem até o dia que papai voltar do trabalho.”

Papai já estava quase chegando, pra fazer um mundo só pra eles, onde toda a dor, magoa e medo deixem de existir. Só o frio e o escuro vão reinar.
“Bem... se papai é o rei da escuridão, e mamãe a rainha da noite, então, eu, obviamente, sou uma princesa...mas e os outros?”
O titio implacável é um cavaleiro, com certeza, ele honra mamãe e tem uma bela espada e uma armadura brilhante de pensamentos. Ela já viu ele com um cavalo também, no dia em que o povo da prostituta do ocidente marchou sobre Munique, ele destruiu muitos homens e muitos vampiros, com o poder que mamãe deu a ele.

Tia Vermina parecia ser uma bruxa má. Ela sacrificava criancinhas, tinha um chapéu pontudo feito de ossos de recém-nascidos e um cajado magico feito com o fêmur de um dragão do mal. Ela tinha aprendizes também, mas o único deles que é divertido é o tio Noralith, ele ensinava a Sibelle coisas sobre os antigos povos do norte, e de como eles originaram os pangermânicos séculos antes de roma se levantar. Os outros aprendizes nunca tiveram tempo pra conversar com Sibelle, eles sempre estavam muito ocupados cuidando do carcere da carne.
O Tio Aulirast era o sábio da corte, com certeza, por que mamãe sempre ouvia os conselhos dele e ele sempre acertava tudo. Ele ensinou caligrafia e musica a Sibelle, e eles brincavam de esconde-esconde na catedral uma vez por mês, quando ele não estava ocupado com os livros e com sua aprendiz, Maugham.

A tia Maugham era engraçada, ela nunca acertava nada, mas era a única que conseguia conviver com Aulirast por muito tempo e não passar para o outro lado do espelho, ela dormia na terra e parecia ser uma das lobas no norte, mas, no geral, ela tinha medo de Sibelle, quando a pequenina entrava na mente dela e via o que ela não queria dizer, ela sempre se assustava, por que ela queria que Sibelle fosse pra bem longe, pra junto do papai.
Mas ela não pode, ela vai atrapalhar o trabalho dele.


E Yuri?
Bem, isso é complicado, ele sabe lutar com a espada, e sabe fazer magia, sempre que ele não esta ao lado dela ela fica triste, e é uma tristeza difícil de descrever. É como se uma parte dela fosse junto. Ela já viu a mente dele uma vez, quando ele deixou, ele não quer ser um cavaleiro, ele quer ser algo diferente.

“Um príncipe. Meu príncipe”
“talvez não seja algo ruim, eu gosto dele, e ele gosta de mim, mas nos gostamos de formas diferentes. Eu quero ter um príncipe, para que possamos ter um reinado completo.”
Havia uma coisa estranha com Sibelle, pensamentos que ela só tinha quando estava sozinha, e quando pensava em Yorrance.
“ se ele for meu príncipe, então poderemos viver felizes para sempre no outro lado do espelho, e poderemos ter um filho só pra nós”.
Ela não sabia exatamente como se fazia um filho, mas ela queria, mais do que tudo, ter um.
Ter alguém só pra ela.
Yorrance era eternamente dedicado, mas não era isso que ela queria.
Ela queria amar alguém, e ela só poderia amar alguém que ela mesmo criou.

A sete quilômetros dali, uma mão delicada arremessou uma bacia de água ao chão, gritos de ódio foram ouvidos pela vizinhança, e uma nevasca foi convocada.
Yorrance estava furioso.

Nenhum comentário:

Postar um comentário