segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

O avô do mago

O circulo de ossos dos inocentes tinha se completado, e o sangue dos traidores fora disposto em forma de eneagrama.

Yorrance estava nu, no centro do circulo, entoando o sétimo cântico dos mortos
“E assim, eu me entrego aos mortos, para que sua sabedoria me liberte da prisão da carne, das mentiras do espelho e das paredes da realidade”
A quarta vela se acendeu, os espíritos responderam ao chamado do mago.
Yorrance abriu os olhos e contemplou com orgulho sua magia. A forma que se materializava agora era fria, cinzenta e parecia estar presa por centenas de correntes que brotavam da essência da própria tempestade.
“os mortos lhe saúdam, filho de Caim. O que desejas de nós?”
A voz do morto lembrava o mago do som que a água fazia ao se chocar com pedras, e tambem do ultimo grito de um condenado.
“Eu, Yorrance Zerhesco, sétimo filho da família dos meio-mortos, exijo conferencia com o sacristão de sua capela”
O morto tremeu. Quem era ele, afinal, para exigir algo do poderoso Hasther?
“ Nosso sacristão não tem tempo para os assuntos dos meio-mortos, e eu tenho pouca paciência para lidar com os ignorantes e os desrespeitosos”
Yorrance levantou a mão esquerda, havia uma pequena suástica prateada presa a uma corrente em seu pulso.
Барам да се слушне моето барање, мртва, и дека за здравствена заштита, како што е наведено во стариот обичај
O morto se contorceu e gritou, o feitiço o prendeu com força a terra dos vivos, força demais para que ele pudesse contra-atacar. Uma suástica púrpura brilhava na testa do mago.
“Talvez, escravo da mortalha, eu também não tenha tempo pra discutir com os ignorantes e os desrespeitosos, agora chame seu sacristão ou nunca mais você viajara para o mundo morto”

Hasther derramava lagrimas que eram feitas de seu próprios ectoplasma, ele estava derretendo. Sua própria essência estava fugindo dele. Imagens de sua vida mortal lhe vinham a mente e depois desapareciam. Para sempre.

“PARE! PARE COM ISSO! EU IREI CHAMA-LO!”

Yorrance sorriu. Ele não era um principiante, nem tinha vontade de lidar com mortos desconhecidos. Mas era divertido.

“Que seja então, se apresse homem morto, ou a tempestade irá parecer um paraíso comparado com o que vou fazer”

Hasther estava confuso, como pode um filho de Caim, saber tanto sobre os mortos? Ele se concentrou no feitiço, e chamou seu mestre. Era melhor se arriscar nos caprichos do sacristão do que na magia desconhecida desse mago.

Um segundo morto surgiu. O vento que tomou conta da sala apagou a vela, quebrou vidros de janelas e fez com que mortais da região tremessem de pavor.
“por que me chamas, meu servo?”
Hasther se contorceu ao ver a forma assustadora de seu mestre. Ele era um monstro, uma coisa de dois metros e meio de altura, muito magra e cheia de cicatrizes, faltava-lhe um pedaço da cabeça, e a parte interna do crânio que era exposta estava sempre cheia de vermes cinzentos, que para sempre devorariam a podridão do mais perverso dos mortos.
Yorrance os interrompeu
“Saudações, meu avô”
“oh, pequeno Yorrance, há quanto tempo não conferenciamos”
A coisa sorriu com seus poucos dentes afiados e pontiagudos, e a confusão de Hasther só não se intensificou porque a dor estava devorando-o por completo.
“seu servo mostrou se relutante em deixar que eu o chamasse, espero não estar atrapalhando”
“De forma alguma, meu neto, diga-me, ele te aborreceu?”
“Não, meu avô, ele deve continuar a existir”
“Sua compaixão ainda será sua ruína, bem como sua devoção a pequena filha do abismo”
“é sobre isso que desejo falar”
Yorrance levantou a mão direita, que era adornada por uma pulseira feita com um cordão umbilical coberto de runas escandinavas. Hasther se dissipou, agora ele e seu avô poderiam conversar em paz.
“a pequena cresce em poder a cada dia, e logo ele ira despertar e consumir todos os mundos”
“nós podemos impedir, meu avô”
“não, a tempestade ira chegar primeiro, quando as estrelas estiverem na posição em que só estiveram uma vez, antes do universo brilhar, e sem os mortos, os vivos não terão chance”
Yorrance sempre sabia quando mentiam pra ele, e sempre sabia o quanto deveria acreditar em seu avô. A tempestade vai chegar, e Ashur vai morrer. Então acabou a esperança.
“mas, se pudermos libertar os mortos de sua prisão, destruindo todos os usurpadores, antes do fim?”
O velho morto riu, ou fez o mais próximo disso que sua condição permitia.
“você é o único com sangue de Caim em que os mortos acreditam meu neto?
“não, meu avô, não sou”
“as mentiras dos usurpadores criaram raízes profundas no mundo morto, lá, Ashur é visto não como sábio, mas como uma aberração, e os filhos de Augustos são vistos como os libertadores, a esperança para quando a tempestade chegar”
“eu não compreendo”
“é compreensível, lá no mundo morto as coisas são muito parecidas com as coisas daqui”
Yorrance pensou nas milhões de vezes que assistiu as maquinações de cainitas jovens e antigos. A Jyhad. A conspiração que destruiu a Alemanha duas vezes. A morte de seu avô. Os segredos que ele jamais poderá contar a Sibelle.
“entendo, meu avô. Me enoja saber que morreremos pelo mesmo motivo que existimos”
“eu não temeria a morte, meu neto, se soubesse que a algo depois dela.”
“você é um mago e um soldado, não é de seu feitio temer a escuridão”
“eu temo que a escuridão não tenha fim, e que ela seja consumida pela força do abismo”
“ela vai ser destruída, meu neto, isso é um fato. Tudo vai ser destruído”
“se não há mais esperança, e se ela vai ser destruída, não há mais motivos para tentar”
O morto tocou a face do mago, e Yorrance sentiu como se três linhas da infantaria russa tivessem o atingido ao mesmo tempo. Ele viu imagens de guerra e sangue. Sangue de Matusalém. A arcebiscopisa conjurava hordas do abismo contra um monstro feito de carne e horror, e um poderoso dragão caia dos céus, uma mão semi-invisivel flutuava no ar, e nuvens da cor de piche encobriam o sol. O dragão atingiu o chão, e um templário, vestindo uma armadura feita de pensamentos cravava uma lança negra no peito da enorme fera, alheia a tudo isso, uma garotinha passeava nua entre os rios de sangue. Ela cantava uma velha canção bávara, e o tempo e o espaço paravam para observa La.
Sibelle...minha Sibelle”
Ich singe das Lied von den Toten, ich bin der Dunkelheit mit Hass und Verzweiflung“
Yorrance tentou lembrar das palavras do encantamento que o deixariam livre para poder toca-la, abraça-la e ama-la. Mas não conseguiu, o poder do sangue o havia deixado.
Ich singe das Lied von den Toten, ich bin der Dunkelheit mit Hass und Verzweiflung“
A ilusão se dissipou, e Yorrance estava denovo nu, no centro do eneagrama, e o fantasma a sua frente pareçia preocupado.
“Esse é seu futuro, meu neto”
“O que isso tudo significa, meu avô?”
Então o morto revelou a Yorrance segredos proibidos, e esses segredos pára sempre macularam a alma do Tzimisce. Havia uma esperança, no fim das contas.

Mas sem ela, de que adiantaria tudo isso?


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